Colheita noturna

(desconheço o autor)É noite e a lua está minguante, somente uma linha branca no céu. Lÿa tinha a sensação de sentir-se vigiada por olhos não muito amistosos… um misto de medo e raiva emanava deles. Ela não os via, mas sabia que estavam ali. Era uma floresta secular. Árvores altíssimas, com troncos muito espessos, estavam por toda a volta.

Lÿa tinha estatura mediana, por volta de 1,70 m. Cabelos escuros, compridos até a cintura. Vestia uma túnica, de um cinza apagado, porque àquela hora da noite, se usasse uma túnica branca ou dourada, seria facilmente vista. Então vestia a túnica de trabalho, de mangas longas, e por cima uma outra, de tecido mais grosso com capuz e mangas compridas também, porque o frio, naquela região e àquela hora, era cortante… o vento era congelante, enregelava os ossos.

Lÿa estava ali com suas pupilas do último ano… umas 10 ou 12 meninas, todas vestindo as mesmas roupas, e que não deveriam ter mais que doze anos de idade cada. Estava ali a ensinar-lhes a colheita de ervas que só podiam ser colhidas àquela hora da noite. Carregavam, cada uma delas, um pingente, um cristal de rocha transparente que fulgurava, emitindo parca luminosidade. Era o suficiente para se enxergar no escuro, mas não o suficiente para se ver mais que meio metro à frente, não naquela escuridão, e não naquela mata fechada.

Antes de sair para o “passeio” noturno, Lÿa havia dito às meninas que ficassem juntas, que não se desligassem de sua conexão mental, para que não se perdessem. E que seguissem suas instruções à risca, porque os povos daquela região ainda eram muito atrasados, e podiam machucá-las – não por maldade, mas por simples medo.

Estavam voltando à vimana – um veículo voador de forma tubular, prateado, que ficara pousado na clareira a espera, tripulado apenas por um piloto, um co-piloto, e dois guardas – já na borda da clareira, quando foram interceptadas por um grupo daqueles homens bestiais. Pareciam-se com homens primitivos, muito peludos, cabelos em desalinho e semi-nus. Ameaçavam-nas gritando, soltando grunhidos, e bradando lanças toscas, feitas de material rudimentar. Lÿa sentiu medo, não por si mesma, mas pelas meninas. Sabia do que aqueles seres eram capazes, havia presenciado o estado em que suas vítimas retornavam. Quando retornavam. E por isso tinha que protegê-las.

Num segundo as meninas correram todas para trás de sua mestra. Lÿa virou-se abrindo os braços no ar em forma de cruz, e seu pingente, de forma oval e maior que o de suas alunas, começou a cintilar. Aquela luz rósea cristalina e ardente como fogo embrulhou-as… o pingente, antes adormecido sobre seu peito, flutuava na altura de sua garganta, pulsando como se tivesse vida. É isso, ele tinha vida, e se comunicava com Lÿa. Sua vontade, através dele, se multiplicava um milhão de vezes. Aquele poder todo, no momento em que isso acontecia, tomava conta dela, e eles tornavam-se um só.

As meninas foram recuando até entrar na vimana, e Lÿa ficou ali, andando lentamente de costas, em direção ao deck aberto do transporte, tendo a cautela de não desviar a atenção daqueles seres… sustentou o cristal pulsando até que o veículo levantou-se meio metro do chão, e depois desfaleceu – era sempre muito cansativo manter aquele nível de energia, e estando sob pressão como estava, pior ainda.

O cristal que carregava em seu pescoço assemelhava-se a um ovo. Tinha mais ou menos uns 10 centímetros de altura, se colocado de pé. Em seu estado de “repouso”, parecia-se com a ágata, aquele mesmo branco leitoso cheio de veios. Só que seus veios eram, em sua maioria, azuis e vermelhos. Mas, quando em “ação”, aquela pedra se tornava translúcida; seus veios, no interior, encandesciam e cintilavam como filetes de luz elétrica, e ela emitia uma luz róseo-violeta incrível.

Fora treinada, desde pequena, a canalizar as suas próprias energias através daquele cristal. Seu estranho poder, ligado à ela através dos anos, cobrava-lhe cada vez mais pelos momentos em que fazia uso dele. Aquilo era um vício, e Lÿa precisava livrar-se dele.

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