Fuga

É noite. Faz frio. Mas não aquele frio úmido a que se acostuma nos trópicos… não. O vento é seco. Gélido. E eu corro, de pés descalços, por entre eucaliptos… enormes. Sinto o cheiro do frescor de suas folhas no ar, mas não há tempo para apreciá-lo.

Segurei a saia de meu vestido, tão verde e escuro quando as folhas ao meu redor, para que não tropeçasse em meio àquela corrida descabida. Alguns dos galhos mais baixos já rompiam as mangas… rasgavam a pele. Meu cabelo, comprido e agora totalmente em desalinho, atrapalhava minha visão vez ou outra, com cachos teimosos de um vermelho intenso que, segundo minha mãe, herdei de minha avó. Minha pele, de um branco cadavérico à luz da lua, transpirava apesar do frio, e os arranhões doíam e sangravam. Mas nada disso me importava, tinha pressa.

Num instante percebi que o caminho ficava mais íngreme. Sorri intimamente porque sabia que estava chegando… “só um pouco mais agora, só um pouco mais e estarei em casa”. As árvores ao meu redor começaram a rarear, e com isso a corrida ficou mais fácil. Por fim, o campo aberto e de vegetação rasteira me levou a um promontório acima do oceano… finalmente!

Quando cheguei ao meu destino estava totalmente exausta. Meu coração batia tanto, e tão rápido, descompassado, que cheguei a me curvar para recuperar o fôlego. “Vamos lá, vamos lá, não desmaie agora!”, o comando do cérebro pareceu funcionar no restante do organismo, que foi-se acalmando lentamente. Fechei os olhos. Senti primeiro o vento em meu rosto, meus cabelos. Me concentrei nas batidas das ondas contra as rochas, lá embaixo. Um formigamento subiu pela sola de meus pés descalços, e foi subindo lentamente, tomando conta do corpo todo… meu Deus! É como se eu fosse parte daquilo tudo. Difícil explicar a sensação de plenitude naquele momento. E aquela sensação foi aumentando, cadencialmente, conforme fui-me entregando a ela. No início lembro-me que demorava muito para chegar àquele estágio, e quase sempre desistia antes daquela energia toda tomar conta de mim.

Puro medo. Mas não agora, não esta noite.

Ouvia ainda os latidos dos cães atrás de mim, mas eram ruídos abafados, longínquos. Eles me pegariam, eventualmente. Mas quando chegassem aqui, tudo o que teriam seria um corpo inerte, sem vida. Eu, em essência, já estaria bem longe dali.

E aquela energia toda de repente se transformou em luz, numa explosão que fez meu corpo vibrar. Uma luz branca, ofuscante, apareceu à minha frente, e eu sabia que estava vendo tudo aquilo mesmo de olhos fechados. Aquela luminosidade toda explodiu à minha volta e eu já não sabia quem era. Já não me sentia mais – eu flutuava! Abri os olhos e vi a lua, enorme, prateada, iluminando tudo – o oceano, a praia lá embaixo, e os casebres da aldeia mais além, com sua igrejinha e campanário. “Se os fanáticos da Santa Inquisição me vissem agora! De que adiantariam seus cães, seus guardas, suas fogueiras?

De repente um rasgo se fez ver no meio do céu estrelado. Tinha uma coloração diferente, algo de um violeta profundo mas ao mesmo tempo luminoso… era um portal, e eu me dirigia a ele.

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