O motoqueiro…

Há um momento na vida de uma mulher, normalmente quando você começa a achar que vai ficar pra titia, em que ela começa a aceitar os galanteios dos tipos mais, digamos, “inusitados”. E foi assim que o motoqueiro entrou nessa história.

Estava eu com meus 30 anos recém-completados quando fui convidada para a festa à fantasia em comemoração ao aniversário de uma amiga. Como eu não gosto muito desse negócio de alugar roupa e tudo mais, acabei usando um vestido vermelho, comprei umas pulseiras douradas, uma tiara com moedinhas… bom, vocês já entenderam: fui de cigana.

A festa foi num salão pequeno, alugado para aquele fim, com DJ e bar. A música era do tipo trash 80’s, e tocou de tudo, de ABBA a Sidney Magal. Dancei muito, e ri a valer.

Lá pelas tantas, já cansada de tanto dançar, sentei-me numa das cadeiras e eis que surge um cara com capacete na mão, jaqueta de couro, etc. Senta e começa aquele papinho de aranha.

No meio do papo, eu descobri que o cara não tinha formação nenhuma, que ele tinha entrado de penetra na festa porque era amigo do cara do bar, e que realmente tinha vindo de moto. Ah! E ele carregava na carteira a planta reduzida de um veleiro, que um dia ele ansiava ter… rs…

Muito bem, acabou-se a festa, eu tinha dado uns beijos no cara, mas por mim a coisa toda terminava ali. Aquilo não tinha futuro. Mas, minha amiga Cris, que tinha me dado uma carona até a festa, pensava diferente. Na visão (bêbada) dela, aquele cara era bonitinho e eu estava sendo fresca. Então ela mais que depressa falou pro cara seguir o carro dela até sua casa, porque eu tinha deixado meu carro lá… filha da p…!

Fui eu no carro tentando convencê-la de que aquilo não era uma boa idéia. Mas nenhum argumento a convenceu. Chegamos na porta do prédio dela, ela parou, eu desci, ela entrou na garagem. Fiquei eu ali com o indivíduo, e acabei dando o telefone pra ele como forma de me ver livre da situação.

Pois bem, no dia seguinte, Dia da Mães, o cara me liga pra eu ir almoçar com a mãe dele. Segundo ele, já havia contado para a mãe que eu era “a mulher da vida dele”. Caramba, de onde saiu esse cidadão? Declinei do convite, claro. Durante a semana, várias ligações em horas imprópias, muitas das quais eu não atendi. As amigas, todas torcendo para que eu desse uma “chance” pro cara, afinal de contas eu andava sozinha há um certo tempo… e daí minhas convicções começaram a balançar. Chega o fim de semana, e nós marcamos de sair pra ir ao cinema no sábado – eu só cedi por insistência das amigas… droga!

Daí, chega o cidadão na minha casa, de moto. Detalhe: estava chuviscando fortinho até. Ok, deixa a moto aí e vamos no meu carro, certo? Cidadão entra no carro e a primeira coisa que eu noto é que ele está com a mesma roupa da festa… e cheirando mal. Se isso não fosse ruim o suficiente, abre a boca e começa a falar besteira:

[motoqueiro] – Legal seu carro… adoro carro importado.

[eu, com a maior cara de “tá maluco?”] – Mas esse carro é um CLIO. É da Renault mas é fabricado no Brasil…

[motoqueiro] – Ah, é…

Silêncio desconfortável enquanto abre-se a porta da garagem pra eu sair, já querendo que a noite acabasse ali.

[motoqueiro] – Será que aceita cartão lá?

[eu] – Qual cartão você tem?

[motoqueiro] – Não, to perguntando porque eu só to com os vinte reais pra por gasolina na moto pra eu voltar pra casa…

[eu, puta da vida com todas as minhas amigas faladeiras que me convenceram a passar por esse tormento] – Ah, aceita sim. Lá aceita tudo quanto é cartão.

Já próximo do cinema (fomos ao Kinoplex do Itaim), eu resolvi estacionar na rua lateral. Ele, ao me ver dando ré pra fazer a baliza, vira e diz:

[motoqueiro, rindo] – Quer que estacione pra você?

[eu, com vontade de matá-lo] – Não, num precisa. Eu não comprei a carta…

Mais duas manobras e o carro estava estacionado. Haha, imbecil.

Na fila do cinema pra comprar ingresso:

[eu] – Duas inteiras por favor, pra ver Van Helsing.

Detalhe, eu tinha carteirinha de estudante na época, mas a raiva era tanta que eu fiz ele pagar inteira. Haha, palhaço. Fiz o pedido, dei um passo pro lado, e cruzei os braços. Ele, quando viu que eu não ia pagar, acabou abrindo a carteira e tirando o cartão pra comprar os ingressos. Nisso encontrei com meu amigo Tamir que ia ver o mesmo filme, ficamos de papo. Foi bom porque não precisei dar muita atenção pro nó cego. Mas foi um suplício a espera. Lá pelas tantas, não aguentava mais o cara tentando me beijar e tal, aquele cheiro de cc insuportável, convidei ele pra tomar um café… e paguei, claro, porque ele só tinha os 20 pra botar a gasolina na moto. Merda!

Abre a sala de exibição e nós sentamos na penúltima fileira, com meu amigo Tamir sentado logo atrás de nós. O cara querendo me abraçar, me beijar, e eu despistando. Aí, apagam as luzes e ligam o projetor.

[motoqueiro] – Putz, o cara tinha que iluminar justo aqui!

A luz do projetor iluminava fracamente onde estávamos.

[eu] – Porque? É já que some…

[motoqueiro] – Não, é que os caras tinham que iluminar justo o furo da minha calça!

O nó cego estava sentado com a perna cruzada sobre a outra, e a luz do projetor mostrava um furo há uns 10 cm acima da barra da calça de (pasmem) veludo cotelê que ele estava usando. Meu Deus, me salva!

Decidi que tinha que fazer algo. Peguei o celular como se tivessem me ligado.

[eu] – Alô? Oi… não, to no cinema… não, pode falar, num começou ainda. Sei… tá, tudo bem. Você me manda tudo por email? Beleza, sem problemas.

Desliguei. Assiti todo o filme torcendo pra que acabasse logo. Depois, fui pro carro a milhão. Ele, atrás de mim – Aconteceu alguma coisa?

[eu] – Me ligaram da empresa. Vou viajar amanhã. Ainda tenho que fazer mala e verificar tudo no meu email…

[motoqueiro] – Ah, é? E você vai pra onde?

[eu, já ligando o carro] – Pros Estados Unidos. Fico lá por 30 dias.

[motoqueiro] – 30 dias? Poxa… que pena.

[eu, fingindo me importar] – É, pra você ver.

Entrei na garagem doida pro cara sumir. E ele ainda tentou me beijar. Dei um selinho meia-boca e disse que eu não podia enrolar, tinha muita coisa pra resolver antes de dormir e tal. Ele, compreensivo, subiu na sua moto custom (não sei que marca era, nem notei) e foi-se embora, prometendo me esperar.

Entrei em casa tirando a roupa e fui direto pro chuveiro. Aquele cheiro de cc parecia impregnado em mim, na minha roupa, eca! Que nojo!

Pra encurtar história, o cara me ligou diversas vezes enquanto eu estava “nos EUA” e deixou recados enormes e apaixonados no telefone, que eu não ouvia mas tinha que esperar terminar pra poder apagar. Eu nunca atendi, até que um dia ele me ligou de um número genérico e eu respondi.

[motoqueiro] – Ah, que bom! Então você voltou!

Plec. Desliguei na cara dele. Ele me ligou de novo e caiu na caixa postal. Me deixou outro recado gigante, mas agora tava puto. Pelo menos nunca mais me ligou!

Moral da história: Always trust your guts!

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