O Baile

Dance me to the end of love, de Jack Vettriano

Ela abriu as janelas e respirou fundo o ar da manhã. O quarto, antigo, possuía janelas altas que se abriam para estreitíssimos balcões, sempre enfeitados com balaustradas de ferro fundido. Mas só o fato de poder abrir de par em par aquelas venezianas e colocar os pés (ou metade deles) para fora, sob o sol cálido da primavera, já era motivo suficiente para sorrir. Olhou em frente e verificou o jardim da antiga casa – alfazemas, miosótis, amores-perfeitos, buxinhos cuidadosamente topiados em formato de cones e bolas. Mais adiante, as roseiras – amarelas, brancas, rosadas, e as que mais ela apreciava, as cores de sangue, num vermelho suntuoso de dar inveja a qualquer vestido de baile. E foi nesse momento que seu coração sobressaltou-se. Lembrou-se da noite anterior, do baile ao luar sob o perfume das rosas…

Ela estava no balcão, do lado de fora do salão de baile. O calor que fazia dentro, com todos os convidados rodopiando ao som de Frank Sinatra já estava lhe dando náuseas. Então saíra para tomar o ar da noite, apesar do vento que teimava em desarrumar-lhe os cabelos. Sentiu que era observada, e que um objeto cálido roçava seu braço esquerdo. Instintivamente puxou o braço.

– Desculpe, incomodo?

Era ele o homenageado da noite.

– Vi que você tinha vindo para cá, então pensei em fazer-lhe companhia.

Ele não era perfeito, não era desses que você olha e diz: lindo! Mas os olhos, muito azuis, pareciam brilhar mais que as estrelas do céu. E o sorriso, de dentes muito brancos e bem alinhados, era de amolecer as pernas. Além disso, o porte alto e esguio, as roupas e maneiras finas, lhe davam um ar de galã quase irresistível. Diga alguma coisa, diga alguma coisa…, pensou. Mas estava hipnotizada por aquele sorriso, não conseguia articular palavra.

– Não está frio aqui para você?

Notou que havia cruzado os braços na altura dos cotovelos e os esfregava nervosamente. Ora, sua imbecil, diga alguma coisa ou ele irá embora!

– Aqui, deixe-me ajudar. – lentamente tirou o casaco do smoking que usava, e passou-o por cima de seus ombros.

Ela sentiu o cheiro de seu perfume, com notas de almíscar e sândalo, e o coração disparou. Por um instante, eles ficaram bastante próximos, e ela pode notar um leve sorriso nos lábios dele, como se soubesse exatamente o tipo de reação que causava em garotas como ela.

– Assim está melhor, não? – o sorriso deu lugar a um olhar inquisitivo, ansioso – Está tudo bem com você?

Seu coração batia nos ouvidos já. Não conseguia escutar mais nada. De repente a música foi sumindo, e ela viu somente as estrelas, e depois, a escuridão a engoliu. Ouvia pessoas chamando por ela, esfregando seus pulsos. Sentia o corpo dele bem próximo ao seu, o perfume… aquele perfume… a lembrava de algo que não conseguia explicar.

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2 pensamentos sobre “O Baile

    • Ahahahaha… ok, mas devo avisar que é praticamente um livro em andamento. Surgiu do nada e vem tomando forma. 😉

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