O Telefonema

Mad Dogs, de Jack Vettriano

Triiimmm… triiimmm…

O susto com o barulho do toque daquele telefone antigo, em baquelite preto, a tirou repentinamente de seus devaneios.

– Alô?… oi mãe… não, mãe, estou bem… foi só um desmaio, mãe, estava calor, só isso…

Anna sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquele incidente no baile da embaixada chegaria aos ouvidos de sua mãe, Madeleine. Mulher aristocrática, de modos refinados e com muitas conexões na alta roda da União Européia, Madeleine era ex-mulher de Hasaf Mundab, comerciante de petróleo no extremo oriente. Casara-se muito cedo, aos 18 anos, e portanto ainda era uma mulher muito bonita. Quando suas conexões habituais não bastavam, Madeleine usava de seus enormes olhos azul-safira e do sorriso enigmático para arrancar de seus interlocutores tudo aquilo que lhe interessava.

A filha, Anna, era sua maior preocupação. Desde criança, embora muito bonita, demonstrava certa introspecção. Por mais que a mãe tentasse fazer dela uma atriz de cinema, uma modelo de alta costura, ou simplesmente uma socialite bem sucedida, Anna não correspondia aos esforços maternos. Tinha muito de seu pai no sangue, e portanto faltava-lhe a desenvoltura e perspicácia dos Rousseau, longa linhagem da aristocracia francesa, onde figuravam homens de estado, diplomatas, bon-vivans e muito, muito dinheiro.

– Anna, meu bem… eu preciso saber como você está realmente. Estou preparando-me para a viagem. Acredito que, com o jatinho de seu pai, devo chegar aí em menos de duas horas…

Ah, não! Essa não!, pensou. Ter a mãe apontando todos os seus erros de etiqueta a todo e qualquer instante era pior que qualquer pesadelo. Pior do que ter desmaiado na frente de um dos homens mais bem sucedidos da Inglaterra, agora nomeado Embaixador da Boa Vontade pela ONU, pelos seus esforços em acabar com o trabalho escravo no mundo.

– Mamãe, por favor… você não precisa sair de Paris agora, não há motivo pra isso! Eu estou bem, foi só um mal-estar momentâneo… – e então ela decidiu que era hora de usar medidas extremas – e além disso, eu estou com a agenda cheia. Não poderei dar-lhe a devida atenção, mãe.

Anna sabia que a mãe morderia a isca. Tudo que Madeleine queria era ver a filha circulando na alta sociedade como um patinho feio que virou cisne. Tinha sonhos megalomaníacos de casar a filha com algum príncipe ou duque. Se isso não fosse possível, pelo menos algum old money de boa estirpe lhe traria a tão almejada paz de espírito.

– Agenda cheia? Cherie… desde quando você tem agenda?

– Mãe, é sério. O baile na embaixada foi só a ponta do iceberg. São várias as comemorações por conta da nomeação de Sir Winfred para o cargo de Embaixador da Boa Vontade…

– Ah… eu não entendo, Anna, realmente não entendo como um homem como Darcy Winfred, um nobre, nomeado pela própria rainha da Inglaterra antes mesmo de nascer, pode aceitar uma… uma… o que diabos é isso, afinal de contas? Honraria? Prêmio?

– Nomeação, mãe… nomeação…

– Que seja. Isso é tão fora de propósito que chega a me dar náuseas.

Anna suava frio. Primeiro porque era quase hora do almoço, e ela não havia nem mesmo tomado seu dejejum. Segundo porque ainda não sabia se conseguiria escapar à viagem iminente da mãe.

– E também não sei porque você, Anna Rousseau Mundab, filha de Lady Rousseau, tem que prestigiar algo desse nível.

– Não sou só eu, mãe. O próprio príncipe Charles esteve presente por alguns minutos para prestar homenagem a Sir Harold Winfred e seu filho, recém nomeado.

Sabia que a mãe se surpreenderia com o fato.

– Charles? Charles esteve presente?

– Isso.

– Ah… muito bem então. Você tem certeza que não quer minha companhia?

– Mamãe, não se trata de não querer… eu realmente estou muito ocupada…

Va bien, mon cherie. Sua mãe sabe quando é demais. Tenha uma boa semana. E mande notícias, sim?

– Claro, mãe, mando sim. Um beijo. Je t’adore.

Je t’aime beaucoup, mon cherie.

Click. O barulho surdo do desligar de telefone do outro lado fez Anna respirar fundo. Tinha se livrado do crivo materno, pelo menos por enquanto. Seu estômago reclamou e sentiu náuseas. Olhou o relógio, 11:30 da manhã. Não tinha vontade de descer para tomar o café com os outros hóspedes da embaixada. Pegou o diretório de serviços para verificar o ramal da copa.

Triiimmm… triiimmm…

Anna sobressaltou-se. Será que sua mãe tinha decidido vir a qualquer custo?

Triiimmm… triiimmm…

– Alô?

– Miss Rousseau?

Anna geralmente usava o sobrenome materno em viagens pela UE. Facilitava, e muito, seu acesso como jornalista a vários gabinetes, fóruns, embaixadas.

– Sim, sou eu. Quem fala?

– Um momento, por favor.

O telefone emudeceu um segundo, e então uma voz grave e modulada chegou a seus ouvidos.

– Miss Rousseau, aqui quem fala é Darcy Winfred. Nos conhecemos no baile patrocinado pela ONU, há dois dias. Estou ligando para saber como a senhorita está, e se aceitaria tomar um brunch comigo, esta tarde.

O fone na mão de Anna tremia. Por um segundo achou que desfaleceria ali mesmo, sobre a cama. Respirou fundo.

– Sim, claro…

Foi só o que conseguiu dizer, com a voz tremida e aguda demais para seu gosto. Pensou ter ouvido um sorriso de satisfação do outro lado da linha.

– Bem, por sua resposta devo presumir que tudo vai bem com a senhorita. Às 12:30 está bom? Mandarei o motorista buscá-la, tudo bem?

Aquela voz enchia sua cabeça e dificultava articular seus pensamentos. Meu Deus, Anna, você é uma jornalista!, pensou.

– Ah… isso… sim, pode ser.

Novo sorriso de satisfação.

– Ok, ficamos combinados então. Ah!… e, Miss Rousseau, traga um traje de banho. Está fazendo muito calor nessa época, e não queremos que sua pressão despenque. – e novamente o sorriso.

Click. Traje de banho? Onde diabos ele ia levá-la?

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