Dores de mãe

Ontem eu sofri minha primeira decepção comigo mesma como mãe. Eu sei que somos todos seres humanos passíveis de falha. Sei também que erramos todos os dias. Mas quando um erro ou falha machuca alguém que você ama mais que tudo nesse mundo, a coisa complica. Belah ciau do trocador, e por conta disso usará uma tala de gesso no braço pelas próximas duas semanas. O pulso sofreu uma fratura inclusa, segundo o ortopedista. Algo de gravidade pequena, mas que precisa de imobilização para curar.

Toda vez que olho para ela com aquele braço imobilizado eu me lembro da minha falha. Do meu descuido. Da minha humanidade.

Mães deveriam ser super-humanas – sem falhas, sem erros. Sem descuidos bobos que resultam em acidentes que podem causar dano permanente.

Eu fiquei o dia todo ontem com um nó na garganta. A cada “dói” que minha filha disse ontem, eu pedi para que a dor fosse minha. Cada vez que eu vi o arroxeado do olho direito, eu pedi a Deus que não permitisse que aquela queda tivesse afetado o osso da face.

E depois de passado todo o desespero, à noite, com minha filha ressonando no berço, saudável apesar do descuido de sua mãe, eu agradeci. Agradeci por ela ser perfeita, pois no meio do meu desespero eu me lembrei de quantas mães tem que ver seus filhos recém-nascidos passarem pelos mais variados procedimentos cirúrgicos. Lembrei que todas elas passam pela mesma agonia que eu tive que suportar, só que a dor delas dura muito mais. Às vezes, dura a vida toda…

Eu nasci com 7 meses incompletos, em Dezembro de 72, numa cidadezinha pequena no interior do estado de São Paulo. Nada de alta tecnologia na UTI neo-natal, como hoje se encontra na maioria das maternidades. O obstetra entregou-me à minha mãe e pediu que ela me levasse para casa, porque lá eu teria melhores cuidados do que no hospital.

Eu não mamei no peito, não aceitava o leite da minha mãe. Meu tio-avô, por ignorância ou por maldade, ou mesmo pelas duas coisas juntas, dizia que minha mãe tinha “leite ruim”, e que ela não era uma boa “vaca de leite”.

Se isso já não fosse ruim o suficiente, eu nasci com o olho direito fechado por conta de um hemangioma que cobria todo o lado direito do meu rosto. Isso fez com que eu tenha hoje pouquíssimas fotos de mim enquanto bebê. Minha mãe me trouxe de ônibus, durante mais de ano, para a capital para um tratamento com raios X, que dissolveram os coágulos de sangue por baixo da pele e possibilitaram que meu olho finalmente se abrisse.

Mas tudo tem seu preço: eu não desenvolvi o foco de visão no olho direito, ou seja, eu só tenho visão periférica nesse olho. Além disso, minha miopia chegou aos 21 graus. Usei lentes de contato desde os 5 anos de idade até os 24, quando finalmente fiz a cirurgia a laser para corrigi-la.

E no meio de toda essa luta, minha mãe conseguiu que eu estudasse, aprendesse inglês, piano, desenho, pintura e tudo o mais que eu dizia ter interesse. Li muito, e durante anos tive muito complexo por conta da falta de visão total.

Mas eu fico pensando, se eu me senti miserável ontem, como foi que a minha mãe se sentiu todo esse tempo? Como ela agüentou todo o processo? Como ela superou tudo isso, se é que superou? Que tipos de traumas um sofrimento desses causa numa pessoa, que é mulher e mãe?

Por tudo isso, eu agradeci. E continuo agradecendo. E continuo pedindo a Deus que me dê mais atenção, mais presteza, mais “poderes”, para cuidar tão bem da minha pequena perfeita quanto minha mãe cuidou de sua pequena cheia de problemas.

Beijo no coração de todas as mamães. E papais também. 😉

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