Modelos de pai

Eu me lembro que minha filha, recém-nascida, virava a cabecinha na direção da voz do pai. Acostumada a ouvi-lo falar muito próximo à minha barriga enquanto era gestada, reconhecia e buscava o pai sempre que o ouvia falar.

Hoje, lendo uma isca intelectual do site Café Brasil, em que Andre Bressan perguntava para que servem os pais, fiquei matutando… é mesmo, para que eles servem?

Porque todo mundo fala de pré-natal, amamentação, cesárea, parto natural, parto normal, doula, traumas pós-parto, etc. Mas eu nunca vi nenhuma campanha em prol da paternidade participativa. Pergunta: quantos pais vocês conhecem que realmente dividem de igual para igual com as mães a criação de seus filhos? Mais que isso: quantos homens vocês conhecem que tem consciência de sua importância no papel de pais?

Meu pai

Um pouco sobre a minha experiência como filha de um pai despreparado (na minha opinião):

Nós éramos muito apegados enquanto eu era criança, ou seja, enquanto eu via nele o “super-herói”.

Quando a puberdade chegou, e eu passei a enxergar defeitos, tudo ruiu. Meu pai não foi um exemplo de homem. Não dividia os trabalhos em casa com minha mãe, embora ambos trabalhassem fora, e quando dividia, fazia tudo com mau-humor, reclamando.

Era machista ao extremo. E a diferenciação que ele fazia entre aquilo que era lícito para sua filha, e aquilo que seu filho tinha direito, era gritante. Por muito tempo meu pai tratou meu irmão na “sola da bota”: achava que, ao tratá-lo com violência, faria dele um macho de verdade. Meu irmão, espírito extremamente sensível, mostra até hoje as marcas emocionais deste tratamento. E eu, que sempre fui muito mais combativa que meu irmão, era recriminada porque eu não sentava direito, porque menina não faz isso ou aquilo, etc.

Resultado, eu desafiava. E o que é pior: sempre fui muito boa com as palavras. Como as argumentações dele não tinham base, ele gritava, e me batia (sim, nas décadas de 70 e 80 não era crime um pai bater em seus filhos). Foram anos infernais aqueles. Nós dois vivíamos em conflito, ora porque eu defendia meu irmão, ora porque eu defendia minha mãe (que ele traía e abandonava noites sem conta), ou porque eu me defendia.

Muitas vezes ouvi meu pai dizer que minha mãe estava me criando errado e que com toda a liberdade que ela me dava eu certamente me tornaria uma puta. Também o ouvi dizer muitas vezes que minha mãe era muito mole com meu irmão, e que por isso ele viraria bicha.

Gritarias eram constantes, nada se resolvia através do diálogo porque uma vez que alguém discordasse dele, o orgulho e a raiva tomavam conta e a conversa terminava ali. Depois ele sentava-se no sofá na frente da TV ou saía de casa batendo a porta, para voltar de madrugada.

Por muitos anos eu vi minha mãe chorar escondido. Vi minha mãe envelhecer a olhos vistos. Senti muita raiva. Uma raiva absurda, eu queria sumir com aquele homem. Vocês sabem o quanto dói numa filha ver sua mãe chorar? Então sabem do que eu estou falando…

Depois veio a maturidade, eu comecei a trabalhar, entrei na faculdade, casei. Nesta época, “expulsei” meu pai de casa. Ele já tinha outra há certo tempo, tudo o que eu fiz foi dar o ultimato. E então eu finalmente tive paz. Pelo menos nessa área de minha vida. 🙂

Marcas

  • Com este exemplo de pai, é normal que hoje eu tenha horror a gritaria.
  • Não gosto de homem que se acha machão, e raramente peço ajuda ao sexo masculino.
  • Nunca quis me casar, e até hoje não sei o que me deu para entrar de cabeça naquele primeiro casamento (Freud explica).
  • Não lido muito bem com homem dentro de casa, principalmente se o cara for do tipo que não lava prato, ou fica grudado na TV vendo futebol. Prefiro que cada um tenha o seu espaço. Evito me sentir ultrajada com esses comportamentos que, eu sei, ainda são típicos da banda masculina. E assim eu preservo a relação.
  • Não gosto de depender de homem nenhum, principalmente na área financeira.
  • Não suporto homem fraco, que não tem opinião própria, ou que não sabe dialogar e explicar seu ponto de vista de maneira inteligente e educada.
  • Não ligo a mínima para traição. Se o cara quer pular a cerca, problema dele. No dia que eu fico sabendo, sumo. Não tem conversa – falta de respeito comigo não rola.
  • Fora outras coisas que devem estar “debaixo do tapete” e que eu ainda não identifiquei, mas provavelmente exteriorizo sem perceber.

Modelos

Então, na minha opinião, os pais servem de modelo:

  • Modelo de conduta perante a vida.
  • Modelo de força e inteligência.
  • Modelo de elegância (os olhinhos da Belah brilham quando vê qualquer um de nós dois arrumados para sair).
  • Modelo de delicadeza e educação.
  • Modelo de espiritualidade e fé.
  • Modelo de justiça e lealdade.
  • Modelo de civilidade, acima de tudo.

Ou seja, o pai serve para tudo aquilo que a mãe também serve, guardadas as devidas proporções. Se o pai não pode amamentar porque não possui glândulas mamárias, ele pode alimentar seu filho através de mamadeiras.

Trocar fraldas. Brincar junto.

Manter a calma durante aquelas birras homéricas, assim dando o exemplo de controle emocional que a criança ainda não tem.

Aplicar os castigos com moderação, para que a criança seja educada, e não punida.

Educar seus filhos com igualdade, sabendo que o papel da mulher na sociedade é o mesmo do homem.

Apoiar suas iniciativas, provendo suporte emocional e material, sempre que necessário e possível.

Lembrar-se que o seu cansaço após um dia de trabalho também é o cansaço de sua companheira, mesmo que ela trabalhe somente em casa. A criança percebe isso, e se ela inferir que a mãe sofre por conta da sua preguiça, você se ferra.

Enfim, o pai serve para dividir a educação e a formação dos filhos, com igualdade. E serve como suporte à mãe gestante, durante uma fase em que nos encontramos extremamente vulneráveis, tanto fisica quanto emocionalmente.

Pai serve para tudo isso, e muito mais… falta alguém lembrá-los disso diariamente. 😉

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2 pensamentos sobre “Modelos de pai

  1. Oi Sarah!
    Muito bom seu blog! concordo com tudo que disse. Traição, qualquer tipo de traição, eu não tolero. Posso estar apaixonada, mas termino na hora, sem dó nem piedade. Oras, se homem consegue ser tão fiel a um time pq não vai ser fiel a mulher né? 😉
    Beijocas!

    • Oi Ila!

      Obrigada pela visita. E obrigada pelos elogios.
      Eu te visito todos os dias, viu? Adoro seus desenhos… 🙂
      Encontrou os posts sobre Yemanjá? Espero que sim.

      Um abração e volte sempre!

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