Ditaduras

Lembro-me bem de uma aula de Urbanismo. Falávamos sobre as migrações do campo para a cidade, e os impactos daquela gente toda, despreparada, em meio ao “El Dorado” das grandes capitais. E em meio à teoria da aula, minha professora nos presenteou com um teorema interessante sobre as necessidades do homem, que dizia mais ou menos isso:

Primeiro o homem procura sobreviver, onde englobamos a alimentação e as necessidades básicas de eliminação de resíduos e de procriação. Nesse estágio, o homem é como o animal, e pode inclusive ferir e matar para conseguir a comida que o sustente ou o companheiro que mais o interesse. (Quantos milhões no mundo vivem nessa situação, satisfazendo somente suas necessidades básicas?)

Uma vez tendo satisfeitas e asseguradas essas necessidades, sabendo que não morrerá de fome durante os próximos dias ou coisa do tipo, o homem passa então ao viver, quando ele quer um teto sobre a cabeça e uma cama para dormir. E daí nascem os “morros”, as favelas, os sem-teto, os sem-terra, as caixas de papelão sob a ponte, os programas sociais do tipo “Minha Casa, Minha Vida”, COHAB, urbanização de favelas, etc.

E só depois disso o indivíduo passará a preocupar-se com o bem-estar – a geladeira nova, a TV de plasma, o carro novo, o computador, a internet rápida, roupas, sapatos, cortes de cabelo, jóias.

Como dizia o filósofo, “nem só de pão vive o homem”… e eu completo: mas quando este lhe falta, nada mais o interessa.

Por isso governos no mundo inteiro não têm interesse real na eliminação da pobreza, da miséria, da ignorância – gente com fome é gente dominada. Gente com medo é gente cominada. Gente ignorante é gente dominada. Essas pessoas não têm tempo, nem condições, de se preocupar com nada mais além de alimentar a si e aos filhos, que normalmente são numerosos (uma vez que procriar faz parte das necessidades básicas, certo?), e sobreviver.

Ditaduras no mundo todo vivem disso. Até as silenciosas, como aquelas mascaradas sob a égide do apelo divino.

Nessa série de lutas diárias pela sobrevivência, e depois pela manutenção de “padrões de vida”, inúmeras são as preocupações… mas raramente o homem lembra de si como co-autor da realidade circundante ou, em outras palavras, como seres imortais.

Um bom exemplo é o pensamento instituído basicamente pela Igreja Católica Apostólica Romana, que possui grande parcela na instauração desta realidade. Ao separar o homem de seu Criador, instituindo dogmas e ritos para acesso a Ele, o pensamento católico criou milhões e milhões de “dependentes”.

Tome-se os povos identificados como Celtas, por exemplo, que viviam nas regiões do norte da Europa. Extremamente prósperos e muito hábeis nas artes e nas ciências, cultuavam a natureza e desconheciam o fator “pecado”. A sexualidade era algo normal, inerente ao ser humano, e nem por isso promíscua. O divórcio era instituído e ninguém era obrigado a estar com alguém sem que esta fosse sua vontade. Mulheres e homens tinham igualdade de direitos, e os delas muitas vezes suplantavam os deles.

Acreditavam na vida após a morte e no fato de que “aqui se faz, aqui se paga”. Crendo serem responsáveis por cada um de seus atos e palavras, procuravam não prejudicar o próximo, pois sabiam que, um dia, deveriam ressarcir a “dívida”. E eram guerreiros destemidos justamente por isso também, pois não temiam a morte.

E então o mundo católico invade aquela sociedade, criando papéis antes desconhecidos, erguendo templos, criando a figura do sacerdote como “atravessador” entre o indivíduo e Deus que, agora, deve passar a ser único. Instituem o pecado, Satanás, e taxam de demoníaco tudo aquilo que poderia vir a desmenti-los enquanto autoridades máximas da “espiritualidade”.

Assim extingue-se a comunicação com os seres da natureza e com os espíritos dos mortos. E pouco a pouco todo o mundo ocidental se separa de sua origem divina e põe nas mãos do Papa, ou de alguma outra “autoridade espiritual”, sua salvação no além-túmulo, como se uma única pessoa pudesse reverter o carma de milhares com simples orações “da boca pra fora” e pagamentos em dinheiro.

Ou seja: um povo que tem suas necessidades satisfeitas nem sempre é um povo que evolui de maneira livre e respeitosa, infelizmente.

E quando dizemos que ter acesso à informação é algo a que todos deveríamos ter direito, deveríamos primeiro, e sobretudo, buscar a informação que vem de dentro, da Fonte. Só ela pode realmente criar povos democráticos, onde cada um responde por seus atos.

O acesso à internet, à informação e à tecnologia criam revoluções sangrentas e, muitas vezes, necessárias. Mas só a descoberta de si como ser imortal pode realmente transformar toda essa “massa de manobra” em seres despertos e livres.

Acendam a chama e iluminem o mundo!

Namastê!

Anúncios

2 pensamentos sobre “Ditaduras

  1. Belo post, muito real. Somos uma civilização ocidental que se baseia na culpa e nas verdades acreditadas sem qualquer massa crítica. Domenico di Masi comenta brilhantemente a instituição do mecanismo do limbo na religião católica, como um território entre o divino e o diabólico, como uma fronteira movediça entre o paraíso e as atribulações terrenas.

    O desmascaramento efetivado por Freud, no que se refere à culpa, deixa muito claro que os paradigmas são, em verdade, apenas instrumentos de dominação social, ética e moral. O fascismo com que os regimes tratam aqueles que apresentam uma face contestadora é inegável. Primeiro, trata-se da demonização, depois do simples e puro aniquilamento, sem que possamos ver no outro e em sua cultura uma possibilidade de crescimento real.

    Enquanto o conhecimento e a convivência forem relegadas, enquanto as culturas forem tratadas como mercadoria e os traços sociais forem rejeitados a partir de um modelo em todo já carcomido e insensível, não teremos a capacidade de nos vermos no outro. Enquanto acreditarmos cegamente, e passearmos de dogma em dogma, em um circuito neurótico e em todo danoso, viveremos assim, de destruição em destruição, de negação em negação, de arbitrariedade em arbitrariedade.

    Não é somente o conhecimento que poderá fazer com que possamos conviver em paz; de certo modo, a necessidade deverá fazer com que comportamentos irracionais mudem. Talvez a grande questão do mundo seja a ecologia. Talvez a busca da paz seja o reverenciamento aos mortos que fomos deixando, aqui e ali, e das culturas e etnias morimbundas que hoje passeiam pelo mundo.

    Se não contrapormos uma inteligência e uma mente humanitária à selvageria, continuaremos produzindo estupidezas à rodo. Rótulos se desgastam, mas, mesmo assim, continuam produzindo vítimas.

    Desnecessário dizer que gostei do que li. Convido-a a visitar meu blog, bastando para tanto digitar blog do besnos no google, ou em outro buscador.

    Grande abraço, hILTON BESNOS

    • Obrigada Hilton. A verdade é que, por mais que a “ditadura” (de pensamentos, econômica, militar, familiar, religiosa…) seja difícil, é mais fácil deixar nas mãos dos outros as próprias escolhas; afinal, assim poderão sempre culpar alguém…
      Com certeza vou dar um pulo no seu espaço.
      😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s