Na China do Grande Khan – Parte II

Chinese Lady por Feimo

(clique aqui para ler a primeira parte deste ensaio)

Nem eu entendi bem como tudo acontecera, mas Xhin havia exposto certas idéias que eram contrárias às ordens do imperador, e isso foi sua ruína. Sua esposa foi mandada de volta ao pai dela, enquanto que Xhin foi exposto por Xheng frente todo o exército e conselheiros. Para não matá-lo, Xheng ofereceu-o o exílio, dando-lhe um cavalo, um odre com água, e uma faca, nada mais. Ele deveria cavalgar em direção ao sul e nunca mais voltar, era essa sua sentença.

Naquele dia, olhando em seus olhos, eu chorei. Vi o rancor neles, vi o quanto ele me culpava ao ver-me lado a lado com seu irmão quando este anunciou que eu seria sua primeira esposa. O exército aclamou-nos com fervor, porque viam em mim alguém com grandes qualidades estrategistas, além de uma beleza que florescia dia após dia.

Xhin nunca chegou ao sul. Xheng contratara mercenários e mandara que estes o seguissem e matassem, roubando o pouco que ele carregava consigo. Poucos dias depois, uma patrulha do palácio chegou com seus restos mortais – haviam-no encontrado às margens de um poço, assassinado.

Xheng deu ao irmão honras de estado, cremando seu corpo em ocasião solene e tornando-se então o governador oficial daquela província. Eu estava grávida de dois meses e não sabia de quem era meu filho. Embora não soubesse a verdade, algo em meu íntimo me dizia que a alegria nos olhos de Xheng era diabólica, e que a morte de Xhin não havia sido fruto do acaso. Mesmo assim, o remorso me corroía. Mais e mais eu via o quanto Xheng podia ser cruel com todos, e aquilo me dava medo.

Ele sempre tratou-me com deferência. Nosso filho nasceu e, no momento em que pus os olhos nele, soube que seu pai era Xhin. Quanto deitei-me com Xheng, naquela noite quente de verão, eu já o carregava em meu ventre, tinha certeza. Deste dia em diante, passei todos os momentos tentando defender a criança da influência malfazeja de seu tio, que se julgava pai do menino. Ele cresceu forte e bonito como o pai, mas sua alma de criança, dócil e fraterna, logo deu lugar a um adolescente voluntarioso que gostava de seguir os passos de Xheng em tudo.

Essa foi minha desdita – vi o fruto de meu único e sincero amor ser envenenado, dia a dia, pela má conduta e violência do tio. Vi como aquele menino dócil, pacato, sincero e bom tornou-se um tirano sangrento, seguindo os conselhos do homem que eu mesma escolhera como marido.

Eu vivi cercada de luxo… e tristeza. A desonra e o remorso me corroeram até o fim de meus dias, que foram longos e solitários. Tzu Tong Lee, meu filho, tornou-se um dos maiores conquistadores a mando do grande Khan e, quando este veio a falecer, sucedeu-o durante alguns poucos anos, quando então também foi assassinado. Em seu leito de morte, enquanto agonizava, eu contei-lhe tudo, pedindo-lhe perdão. Já contava mais de 70 anos, mas continuava sendo uma mulher forte e lúcida.

Lee morreu sem perdoar-me. E vinte anos depois, eu também deixei a China para juntar-me aos meus pares na pátria espiritual. Desencarnei sentindo grande remorso, e ouvindo claramente que Xhin gritava ao meu lado “traidora! mentirosa!”.

Sei que fiquei muito tempo num estado catatônico entre remorso e tristeza, sendo “vítima” das investidas dos irmãos nas trevas. Mas aqueles anos todos de solidão e remorso na carne abrandaram meu coração, e me fizeram compreender muitas coisas. Eu rezei, eu pedi aos deuses que me livrassem daquele tormento. E eu acordei num hospital, muito branco, muito limpo.

Ali recuperei-me. Ali revi muitas de minhas vidas, e refiz meu invólucro perispiritual. Mas eu era melancólica ao extremo, quase não sorria. Meu coração doía constantemente. Como remédio para a tristeza, deram-me a incumbência de cuidar do jardim… das flores, mais especificamente. Aprendi a conversar com elas e com as energias e seres que as faziam florescer belas e perfeitas. Naqueles momentos de quietude, as flores me davam seu carinho, e pouco a pouco meu coração foi deixando de doer. Aqueles pequenos seres luminosos eram como crianças, sempre brincando, sorrindo. Por isso eram tão belos, assim como as flores.

Quando finalmente eu havia me acostumado ao meu novo lar, e quase não pensava mais em Xhin ou em meu filho Lee, o Mestre apareceu.

Eu estava abaixada, doando energias a algumas flores que precisavam delas para transmutar os negativismos que haviam absorvido naquela manhã quando, de repente, senti um calor brando às minhas costas e vi um clarão.

Virei-me num salto e levei a mão aos olhos. Logo o clarão diminuiu e eu o vi. Ele era alto, mais de dois metros de altura. Vestia uma túnica branca bordada com símbolos em dourado – o tecido era fluido e parecia mudar de cor conforme ele se movia. Ele baixou o capuz e eu pude ver seus longos cabelos dourados e lisos, que caíam pouco abaixo de seus ombros. Ele tinha o rosto fino e anguloso, olhos da cor do âmbar, puxados à moda oriental. Era bonito e transpirava confiança, poder, serenidade. Um calor gostoso emanava dele e me envolvia dando-me a sensação de ser abraçada.

Fiquei estática, não conseguia me mover. Ele sorriu.

– Filha, é bom ver-te novamente. Está na hora. É tempo de reencarnar.

A notícia me atingiu em cheio. Reencarnar? E as flores? E os meus estudos ali? E se eu ainda não estivesse pronta, e se mais uma vez eu falhasse… o Mestre novamente sorria, baixando a cabeça. Parecia ler meus pensamentos. Afastou a capa e eu pude ver seus braços fortes. Em sua mão direita surgiu um bastão, quase de sua altura. No topo havia um diamante translúcido, seguido mais abaixo por outras sete pedras igualmente belíssimas e coloridas. O bastão era dourado, e estava coberto por símbolos estranhos. Ele chegou mais perto de mim, e tocou meu rosto. Eu chorei.

– Filha, você tem o que é preciso: a vontade de acertar. Não é possível evoluir assim, parada no tempo, cuidando de nossas amigas flores.

– Mas e Xhin? Ele também virá? Posso vê-lo antes de ir?

O mestre baixou os olhos com tristeza.

– Não filha, não há como. Ele ainda prende-se ao rancor, e por isso ainda estão tentando resgatá-lo. É bem possível que ele reencarne compulsoriamente, e assim livre-se do tormento. Vocês terão nova chance, isso é certo.

Eu caí de joelhos, chorando. O Mestre depositou a mão esquerda sobre minha cabeça e brando calor me envolveu. Pouco a pouco a serenidade me invadiu, e eu perdi os sentidos.

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