Na China do Grande Khan

Tang Dinasty por Feimo

Meu nome é Mei Ling. Aos 12 anos fui tomada como escrava. Uma das tribos das estepes invadiu meu povoado. Queimaram tudo… minha mãe morreu, assim como meu pai. Meus dois irmãos menores foram levados também como escravos, e vendidos durante a viagem. Minha irmã mais velha matou-se em meio ao desespero de ver seu noivo morto. Eu fui uma das poucas que sobraram. Para os padrões da época, eu era bonita, chamava a atenção. O líder daquela tropa de bárbaros achou que eu seria bem-vinda por seu senhor, então levou-me intacta até ele.

Tzu Tong Xhin e seu irmão Tzu Tong Xheng reinavam nas estepes. Eram filhos do grande Khan, e faziam parte de seus esforços armados para uma China unificada. Nunca antes houve tanta matança, tanto choro, mas também nós nunca tivéramos alguém que nos regesse como monarca absoluto. Àqueles que o próprio Khan designava, eram dadas honrarias, terras, palácios. Aos outros, a ponta da lança era normalmente seu fim.

Tzu Tong Xhin acolheu-me como sua preferida. Ele tinha 19 anos, e era o mais velho, por alguns minutos, entre os dois. Xheng nascera depois, e portanto era general dos exércitos, enquanto que Xhin seria senhor daquelas terras, ambos nomeados por seu pai, o grande Khan.

Xhin tinha alma de agricultor, e não de monarca. Ainda assim, eu pressentia, seria um excelente governador, pois era perspicaz e sabia ler muito bem a alma humana. Xheng era por demais volúvel, instável, audacioso e violento. Por vezes era admoestado pelo irmão que, embora poucos minutos mais velho que ele próprio, parecia ter sido abençoado pelos deuses com uma sabedoria ancestral.

Logo Xhin tornou-me sua amante. Eu passei de serviçal preferida à sua confidente. Eu gostava dele, mas minha alma infantil ainda sentia grande raiva daquele povo. Se eu tivesse uma oportunidade, por certo mataria os dois. Afinal, não importava o quão belo e amável Xhin pudesse ser, eu ainda era sua escrava, e ele meu senhor.

Quando completei quinze anos, já num corpo de mulher, as brigas constantes entre os dois irmãos tornaram-se terríveis. Mantinham-se juntos e não se matavam por simples medo do grande Khan. Sabiam o quanto o grande imperador zelava pela irmandade entre os clãs, e principalmente pela honra familiar dentro deles. Eu via Xheng olhando-me, estudando cada um de meus movimentos. Percebia seu interesse quando arrumava-me para qualquer de nossas confraternizações.

O palácio havia sido terminado poucos meses antes, com seus pátios internos, grandes colunas, tapeçarias e janelas decoradas. A mim foram dados aposentos contíguos aos de Xhin que, embora me amasse, não podia fazer de mim sua primeira esposa. Aquilo me deixava louca! Se os deuses me ajudassem, eu ficaria grávida, e então seria mãe do primogênito. Mas minhas regras eram instáveis e eu nunca sabia quando era o tempo certo para engravidar.

A parteira auxiliava-me com chás e poções, pois prometera-lhe honrarias se me tornasse mãe do futuro governador. Mas mesmo assim, nada adiantava, e eu continuava sendo a concubina.

Numa noite quente, eu andava pelo corredor interno, observando os jardins, o lago, e a lua imensa no céu. Estava especialmente melancólica naquela ocasião – era a noite de lua-de-mel de Xhin com uma garota de 15 anos, escolhida a dedo pelo grande Khan. Me martirizava a idéia de que ela pudesse vir a ser a escolhida para carregar no ventre o herdeiro que eu tanto queria.

Xheng aproximou-se sem que eu notasse e depositou um beijo em minha nuca. Assustei-me.

– Ah! Você! Desculpe-me, meu senhor, não consegui dormir, e…

Curvei-me e fui afastando-me dele, sem dar-lhe as costas.

– Não, não… fique. Preciso falar com você Mei Ling. É importante.

Xheng era muito parecido com o irmão. Mas enquanto Xhin era calmo, e transparecia uma indiferença e frieza constantes, Xheng era como o próprio sol. Seus gestos eram tempestuosos, sua voz ribombava feito o trovão, e seus olhos… bem, seus olhos pareciam navalhas a perfurar qualquer um que o desagradasse. Mas naquela noite Xheng parecia preocupado… e muito atraente para uma moça que fora negligenciada numa noite tão linda.

– Eu sei o que lhe vai n’alma. Pensa que não vejo o quanto você se arrasta atrás daquele tolo do Xhin? A verdade é que você mesma era filha do líder de sua aldeia. Xhin poderia tê-la apresentado ao grande Khan como sua escolhida. Mas não o fez. É um fraco. Pensa que baixando a cabeça nosso pai o amará mais, o distinguirá entre tantos outros.

Xheng, enquanto falava, puxou-me para ele, e andava comigo na direção do jardim. Seu toque era quente, mas muito respeitoso. Segurava meu braço com grande apreço, e vez ou outra tirava um fio de cabelo do meu rosto, que a brisa teimava em trazer de volta. Eu vestia um camisolão de seda branca, e por cima um robe também branco com desenhos em dourado, verde e vermelho. Eram flores… Xhin havia me presenteado com o robe de mangas amplas, porque ele dizia que somente as mais belas flores poderiam vestir-se daquela maneira. Mas naquela noite, ele não tinha olhos para mim.

– Ouça Mei Ling, sente-se aqui, ao meu lado. Eu… eu acho você uma mulher magnífica. Tenho verificado o progresso de Xhin enquanto estrategista e governador, e sei que muito se deve aos seus conselhos. Eu sei que ele a consulta antes de tomar qualquer decisão importante. Então, porque casar-se com outra? Porque não elevar você à posição de primeira esposa?

– Porque eu não posso lhe dar um filho… é por isso…

Naquele momento, não pude segurar as lágrimas. Chorei muito. Xheng abraçou-me, e logo estávamos nos beijando. Aquilo era o céu para mim. Embora eu tivesse passado anos nos braços de Xhin, eu nunca havia me sentido daquela maneira antes. Xheng era exímio amante, e seu temperamento tórrido ajudava no processo. Nos entregamos à paixão ali mesmo, na relva macia, sobre o robe de seda pura que Xhin havia me dado na noite anterior, como “presente de casamento”. Nós também havíamos nos amado naquele dia, mas ao contrário de Xheng, ele preocupava-se apenas com sua linhagem sucessória, e portanto o ato tornara-se simplesmente procriatório para ele. Não havia mais o carinho e o cuidado dos primeiros tempos, quando passávamos horas abraçados, nos amando.

– Há muito eu sonhava com este momento Mei Ling. E agora que o consumei, não vou mais deixá-la ir. Farei de você minha primeira esposa, e juntos, governaremos esta província.

A idéia me pareceu maravilhosa. Eu seria primeira esposa! Nunca mais os serviçais me olhariam no rosto, como se eu fosse mais uma criada. A água do meu banho seria mais quente, meus perfumes melhores, minha seda a mais pura. As pessoas se curvariam diante de mim, e Xheng me daria o crédito por aconselhá-lo, eu tinha certeza. Governaríamos juntos e faríamos daquela província a mais rica e próspera de toda a China!

– Diga-me uma só palavra, Mei Ling, uma só palavra de encorajamento e eu cuidarei de tudo…

Xheng beijou-me apaixonadamente e eu concordei. Durante semanas encontramo-nos às escuras, e ao final de mês e meio Xhin foi acusado de traição.

(clique aqui para ler a continuação deste ensaio)

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