Yara e a Senhora das Águas (parte II)

(para ler a primeira parte deste ensaio, clique aqui)

As Ninfas

As ninfas acharam estranho uma moça como aquela sob as águas. Afogamentos aconteciam aqui e ali, mas normalmente eram aldeões que vinham pescar, ou banhar-se, e acabavam por nadar fundo demais. Mas aquela moça não era como eles. Ela vibrava em outro nível, e parecia não estar em seu elemento.

Elas puxaram Yara até a margem, e a deitaram na relva úmida. Aplicaram-lhe alguns passes magnéticos, mas a energia delas parecia machucar ainda mais o sistema físico da moça. Então clamaram pela mãe das águas, pois só ela saberia o que fazer.

Em instantes, toda a natureza ao redor da baía pareceu parar. Os sons sumiram, os pássaros não voavam sobre as águas, e até as pequenas ondas não eram vistas. Próximo de onde estavam, as águas começaram a borbulhar e uma luz azul-prateada ofuscante começou a elevar-se. Primeiro na forma de uma grande bola de energia, que depois foi-se alongando verticalmente até que tomou a forma de um corpo feminino.

A luz ofuscante recrudesceu e as ninfas puderam ver o ente divino que sustentava toda a massa de água naquele planeta – um ser feminino de infinita beleza e longos cabelos azuis escuros, quase negros. Parecia vestida com as águas do mar, em um longo vestido de mangas soltas que cintilavam com todas as cores das águas. No colo trazia pérolas de todas as cores ornamentadas num colar de sete voltas. A pele era alva e iridiscente como o gelo sob o sol e sobre a fronte ostentava intrincada coroa prateada encimada por magnífica estrela do mar que cintilava todas as cores do arco-íris como madrepérola. Estava de pé sobre as águas, a poucos metros delas, e tinha pelo menos dois metros de altura.

Aquele ente divino falou às ninfas em pensamento.

O que tens aqui para mim, ó crianças das águas?

As ninfas, ajoelhadas e de rosto ao chão como estavam, nem se moveram.

Vamos, crianças… qual de vós me dirigirá a palavra? Se quereis que eu auxilie, tens de dizer-me algo…

A ninfa que parecia ser a mais madura, elevou o tronco e conversou telepaticamente com o ente divino, embora com receio de encará-la.

Senhora Mãe Divina das Águas… perdoe-nos o apelo, mas este ser feminino, que parece um ente superior do fogo, caiu em nossa baía. Parece estar desfalecida, e embora tenhamos tentado reanimá-la, ela não parece querer voltar à vida.

A mãe das águas parecia pensar. E então emitiu seu veredito:

Mas se este ser que é dono de si não deseja voltar à Vida, quem sois vós, crianças, para querê-la de volta? Deixai-a onde está, e muito em breve aqueles que são de sua raça a encontrarão.

Houve certo desconforto entre as ninfas. Moveram-se agitadas, embora continuassem ajoelhadas e de cabeças baixas.

Senhora, perdoa-nos a impertinência… mas ela parece ter o coração partido. Não parece escolher este caminho com livre onisciência do que faz. Parece fugir de algum sofrimento que lhe corta o coração e lhe destroça a alma. Por isso nos compungimos dela, Senhora. Queremos dar a ela uma segunda chance…

A senhora das águas calou-se durante longos minutos. Parecia ponderar o que a ninfa lhe dissera, ao mesmo tempo em que sondava a alma daquele ente feminino ora desfalecido.

Vejo que tens razão criança. Mesmo assim, advirto-te: ela tomou a decisão, ainda que inconscientemente. Talvez lhe seja penoso demais viver separada daquele que ama. Se ela retornar à Vida por meu intermédio, não mais será una com sua espécie – será tocada pelo elemento aquático, e a ele pertencerá dali em diante. Sua essência ígnea se manterá, adormecida, no entanto. E quando finalmente deixar esta forma física por determinação do Alto, só então veremos que rumo seguirá. Vês que podes causar-lhe mais dano que remédio? Queres mesmo assim que eu a traga do limbo antes que ela cruze o portal?

Novo alvoroço entre as ninfas. Aqueles seres eram de pureza infantil, e viam em Yara uma moça linda que não queriam perder.

Sim, Senhora. É isso mesmo que viemos pedir-te.

Aquele ser das águas então fechou os olhos e pareceu respirar fundo. Elevou os braços aos céus, de onde infinitas gotas d’água caíam como diamantes, e um longo tubo de luz desceu sobre ela. Pareceu concentrar toda aquela energia dentro de si, e então espalmou ambas as mãos na direção do peito de Yara. Um feixe de luz saiu do coração da senhora das águas e acertou em cheio a fronte, o peito, e as mãos da desfalecida. A luz de tom branco-azulado pareceu penetrar o corpo de Yara e espalhar-se por todos os seus órgãos e membros. Quando finalmente a senhora recolheu as mãos, Yara havia transformado-se: os cabelos, antes ruivos, agora eram de um negro azulado; a pele, antes bronzeada, agora era branca como a luz da lua. Ela abriu os olhos e não sabia bem o que acontecia. Teve tempo suficiente para encarar a mãe das águas que lhe disse:

Levanta-te, ó Yara. Ouve a voz daquela que te trouxe de volta à Vida! Irás com minhas filhas ao fundo das águas mais profundas, e lá estudarás e aprenderás sobre tua nova condição. Lá curarás as feridas que trazes em teu peito; esquecerás as mazelas de teu passado ígneo; sentirás a tranqüilidade das águas cálidas e serás una com elas e com todos os outros seres e entes que as habitam. Durante mil anos estarás entre nós sem voltar a superfície. E só então andarás novamente entre os entes sobre a crosta. Aceitas minha oferta, filha ígnea das águas?

Yara ajoelhara-se extasiada diante daquele ser de magnífica beleza e que emanava um amor e paz profundos. Olhava em seus olhos límpidos e sentia-se amada, acolhida, via-se criança nos braços de uma mãe amorosa e bela. Queria por tudo segui-la, e assim o fez.

– Sim, aceito.

Símbolos azuis acenderam-se na testa, no peito, nas costas, e nos pés e mãos de Yara. Brilharam por poucos segundos e depois feneceram deixando apenas brando calor em sua pele. A mãe d’água sorriu e acenou com a cabeça afirmativamente antes de desaparecer completamente.

Yara parecia acordar de um transe. Olhou-se nas águas calmas da baía e por um instante não se reconheceu. Não teve tempo de fazer perguntas – as ninfas a pegaram pelas mãos e levaram-na para o fundo, sempre rindo, cantando e abraçando-a. Como crianças que acabaram de ganhar uma nova boneca, alisavam seus cabelos, passavam as mãos por seu rosto e mãos. E Yara sumiu sob as águas do mar e o encanto das ninfas.

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