Yara e a Senhora das Águas

Eu “vi” essa história mentalmente durante uma de minha iniciações na Magia das 7 Ervas. Embora eu pareça saber o resto da história, é difícil colocar “no papel”. Sinto como se a lembrança de toda a história estivesse comigo, mas de alguma maneira estranha eu não tenho a chave de acesso. Então fica aqui a introdução, que eu dividi em duas partes para que o post não ficasse muito longo. Enjoy!

As Árvores

As ávores eram antigas e imensas. O cheiro de relva molhada impregnava as narinas até arderem. Yara andou resoluta até a porta localizada numa das grandes árvores anciãs – troncos gigantescos que abrigavam os laboratórios e residências dos mais antigos magos e estudiosos entes do elemento terra. Ali também se reuniam alguns entes de outras origens, como cristalinos, aquáticos, e até eólicos. Yara parou em frente à porta trabalhada e respirou fundo. Apertou lentamente o gatilho da trava da porta e esta se abriu com leve rangido.

O interior estava cheio de estantes de livros, mesas e bancos. Sobre as mesas, papéis, mapas e livros abertos. Se não estivesse acostumada com lord Herim, acreditaria que uma ventania espalhara tudo aquilo. Mas ela sabia que o velho estudioso tinha verdadeira paixão por sua organizada bagunça. Passou despercebida por dois ou três pupilos que liam entretidos e encaminhou-se à porta que dava ao páteo interno.

Uma grande abertura no centro daquela árvore recebia a luz direta do sol. A luz filtrava-se por entre inúmeras folhas e galhos, mas ainda assim chegava intensa àquele local e inundava tudo com feixes de luz amarelo-dourada. Ali, no centro, havia uma mesa rústica de pedra, e à sua frente um homem de dorso nu trabalhava. Yara recostou-se ao batente da porta e ficou observando-o. Entre suas mãos, ele manipulava a luz que descia por entre as folhas e a condensava na forma de uma esfera de mais ou menos trinta centímetros de diâmetro. Mexia as mãos rapidamente em volta da esfera, enquanto esta parecia encandescer-se, emitindo fagulhas que simulavam diminutos relâmpagos. Aquilo parecia luz líquida que, ao contato com as mãos daquele homem, ia aglutinando-se na forma que ele ora estipulava.

Quando deu-se por satisfeito, exclamou: In’maha lux! E a esfera por fim solidificou-se e pousou lentamente sobre a mesa rústica. O suor descia por sua têmpora, e ele estava ofegante. Foi então que viu Yara à porta. Sorriu para ela e fez um gesto com as mãos pedindo que aguardasse. Virou-se para um dos criados que aguardava e, colocando a esfera sobre um pedestal, testou-a – passou a mão sobre ela e esta acendeu-se qual lâmpada elétrica. Ele sorriu e entregou o pedestal com a lâmpada ao criado:

– Leve mais esta, Maluc. Está pronta.

Virou-se e lavou-se sobre uma tina d’água ao canto. Sua pele, de um branco faiscante, parecia reluzir iridiscente sob a luz solar. Era atlético, e tinha os cabelos e os olhos escuros como a noite. O rosto longuilíneo era bem proporcial, de nariz fino e levemente aquilino. Enxugou-se e vestiu a túnica branca sobre a calça escura. Virou-se e sorriu na direção de Yara:

– Minha querida, como está? Faz tempo que não vejo você!

Yara sorriu e desceu os dois degraus que a separavam de seu interlocutor.

– Luc, é bom te ver! – Abraçou-o longamente. Queria estar naquele abraço mais que tudo no mundo.

Luc incomodou-se um pouco com a demora em soltá-lo, e tentou parecer casual.

– Ora, vamos… não faz também tanto tempo assim, não é? Deixe-me olhar para você, vamos.

Afastou-se dela e olhou-a de cima abaixo. Yara tinha quase a mesma altura de Luc, e ao contrário dele, tinha a pele levemente bronzeada. Os cabelos, avermelhados, pareciam de fogo vivo, mostrando reflexos dourados aqui e ali. Embora Luc tivesse feições mais finas e aquilinas, Yara possuía um rosto mais arredondado, de lábios carnudos e cílios longos e curvos. Os olhos eram do tom do âmbar, e refletiam o sorriso de Luc naquele momento.

– Mas você está a cada dia mais linda, com certeza!

Yara sorriu e virou-se para entrar.

– Vamos, você sabe que esta luz exagerada machuca meus olhos. – queria esconder dele o que lhe ia n’alma.

– Claro, claro… vou pedir um chá para nós dois e então poderemos conversar.

Já dentro da saleta de estudos, Luc pediu aos pupilos que saíssem pois tinha assuntos a tratar com a nobre dama. Yara fora ter com ele em seu traje de montaria – vestia calças enfiadas por dentro das botas de couro cru, e uma túnica muito parecida com a que Luc utilizava, de mangas soltas e botões na frente. Sobre tudo isso, portava um manto com capuz, todo bordado e debruado em tons de ouro e cobre.

A cabeça era adornada por pequena tiara dourada que lhe prendia os cabelos para que eles não lhe caíssem aos olhos, e fora isso utilizava apenas duas pérolas em forma de gota como brincos.

– Luc, eu não vim aqui tomar chá… eu… eu preciso conversar com você.

Luc percebeu a hesitação em sua voz e pegou-lhe a mão.

– Mas é claro, Yara. Você sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa.

– É, eu sei. Mas não sei bem qual será sua reação à nossa conversa.

Luc franziu o cenho e aguardou.

– Nosso último mês de aula foi muito importante para mim, você sabe…

Luc fez menção de largar-lhe a mão, mas Yara segurou-a entre as suas.

– Você acabou de dizer que nós poderíamos conversar sobre qualquer coisa, Luc. E preciso falar sobre nosso último verão juntos.

– Yara, aquilo foi um erro. Eu…

– Um erro?! Negue! Negue que você me ama, Luc… vamos!

Yara destemperou-se e seus olhos, marejados de lágrimas, adiquiriram a cor do fogo líquido.

– Vamos, faça isso! Faça isso e me vou, nunca mais será importunado por mim, pode ter certeza!

Foi a vez de Luc pegar as mãos dela entre as suas.

– Não, não… calma. Calma, Yara… escute. Eu não vou negar minha afeição por você. Sabe disso. Mas esse sentimento deverá ficar guardado dentro de mim e só. Nada mais. Você sabe disso.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Yara. Ela puxou as mãos e enxugou-as. Respirou fundo antes de falar.

– Ouça bem, Luc. Eu fiz minha escolha. Eu escolhi você.

Dizendo isso, depositou intrincada aliança sobre a mesa de madeira. A peça era toda trabalhada em finíssimos filigranas em tons de cobre, ouro e prata. Luc ficou atônito e mal conseguiu balbuciar.

– Yara, não… não diga as palav…

Inhmit Yaramin ya con inhimot Lucifer ye. Dinmiroth alim nye!

A aliança reluziu e imediatamente apareceu no dedo anelar esquerdo de Luc. Yara estava emocionada, ofegante. Por um instante, Luc se imaginou unido a ela, sentiu brando calor forrar-lhe o peito ao sentir o metal da aliança em seu dedo. Mas logo uma sombra escura passou por seus olhos, e ele baixou o rosto entristecido.

– Você não deveria ter feito isso, Yara. Você sabe das implicações. A ordem ficará vibrando nas telas universais, você sabe disso!

– Fiz o que tinha que ser feito, Luc. Desfaça, se for esse o seu real desejo.

– Yara, eu sou cristalino. Você é ígnea. Como pode esperar que nossa união dê frutos?

– Eu não ligo… quero você, não me importa se terei filhos ou não.

– Você diz isso agora. Mas pense: você é sobrinha do imperador. Os entes do fogo governam este tempo, até que chegue a vez do vento. Até lá, vocês têm de garantir a linhagem da família, Yara. Seus entes precisam de você! O Imperador tem apenas um filho, e o rapaz ainda é muito novo. Você já está sendo treinada para assumir, caso ele venha a deixar esse mundo. Imagina-se sentada no trono sem ninguém a quem passar o cetro e a coroa?

– Eu já disse que não ligo! Há outros na linhagem, eu não sou obrigada a assumir o trono se não quiser!

– Verdade, você não é… mas e o fato de que nós dois seremos consumidos nesse amor, Yara? Nada resiste muito tempo ao calor do fogo, e você sabe disso. Você tentaria se apagar por mim, e eu me derreteria ao seu lado. Nossas almas acabariam adoecendo e estaríamos fadados a um fim muito rápido e, temo dizer, dolorido!

Yara chorava baixinho. Ela sabia daquilo tudo. Mas também sabia de casais, nas aldeias, que não seguiram as regras e que viviam muito bem juntos.

– Luc… e quanto aos aldeões? Eles não ligam para nada disso! Casam-se, têm seus filhos, são felizes! Porque nós não podemos?

– Yara, você sabe tão bem quanto eu que os elementos neles são muito mais dormentes do que são em nós. Nenhum deles pratica magia. Nenhum deles manipula os elementos e seus seres. Nós mantemos os elementos em harmonia, Yara!

– Luc, por favor… eu quero tentar. Quero você!

Luc respirou fundo e engoliu o nó na garganta. Precisava ser firme se quisesse demovê-la daquela idéia maluca.

– Não, não posso compactuar com essa sua irresponsabilidade.

Respirou fundo e elevou a mão esquerda à sua frente. Yara chorava sentida.

Ina inhmit Lucifer ye incon inhimot Yaramin ya. Dinmireth alim nya!

O anel fulgurou em seu dedo e caiu sobre a mesa. O metal estava apagado, como se tivesse sido chamuscado pela chama de uma vela. Yara chorava sentida. Tinha esperanças de que, uma vez que ele visse o anel em seu dedo, não conseguiria dizer não a ela. Mas ele a repudiara mesmo assim. Luc tentou abraçá-la.

– Yara, eu não tive escolha…

Yara saiu correndo para o bosque. Luc deu alguns passos na intenção de segui-la, mas por fim achou melhor deixá-la sozinha com seus pensamentos. Mais tarde levaria o veículo que ela deixara estacionado em frente à árvore anciã e então poderiam conversar melhor.

Yara correu por algum tempo. Logo sentiu o calor explodir em seu peito e se viu flutuando acima das árvores. Alguns dos entes ígneos ainda conseguiam transmutar suas formas corpóreas, geralmente aqueles de linhagem mais antiga e que tivessem sido iniciados desde a mais tenra idade. Esse era o caso de Yara. No entanto, a transmutação não podia ser mantida por muito tempo, a custo da própria vida do ser ígneo. Yara, na forma da fênix, não duraria muito tempo. Mas a verdade é que ela pouco se apercebeu do perigo que corria.

Olhou para baixo e viu água – a grande baía circular que desembocava no oceano tinha águas calmas e límpidas. Ali muitos dos entes aquáticos mais elementais viviam, e era a fonte de energia renovadora daqueles que já transitavam por mais tempo em terra firme.

“Eu não deveria ter sustentado essa forma por tanto tempo. Se cair agora, será meu fim…”

E, pensando nisso, Yara rumou para a margem. Mas não teve tempo de chegar ao chão para transmutar-se – despencou de algumas dezenas de metros dentro d’água.

Sentiu o corpo gelar, e lentamente sua visão ficou turva. Antes de desfalecer, no entanto, verificou que formas femininas a olhavam com medo e curiosidade, e sentiu-se abraçada por algumas delas.

(leia aqui a continuação deste ensaio)

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