O Templo da Chama Violeta

Ela era branca, de olhos num tom azul-violeta que não existe nesse mundo. Tinha os cabelos muito loiros e lisos, cortados pouco abaixo dos ombros, em linha reta, e uma franja, igualmente reta, cortada na altura das sobrancelhas. O rosto parecia de porcelana, tamanha a perfeição. Nariz, olhos, boca – tudo convergia numa simetria e beleza angelicais.

Ela vestia um vestido branco fluido, à moda grega, de braços nus e cingido à cintura por cordões dourados. Trazia, em ambos os braços, braceletes largos em ouro – um na altura do ombro quase, e outro no pulso. Havia inscrições antigas neles, lembrando hieróglifos. Trazia uma “malha” de cristais sobre a cabeça que cobria quase que totalmente seus cabelos.

Nos pés, sandálias trançadas. Na mão esquerda trazia um cajado branco. No topo havia um magnífico citrino, que parecia resplandecer a luz solar. Ela me olhou por um segundo e sorriu:

Um diamante. Símbolo da pureza de formas e de constituição. Um diamante amarelo, representante da Lei neste mundo…

Nunca vou me esquecer daquele rosto, daquele sorriso, daquele olhar…

Ela estava parada à beira de uma clareira no meio da floresta. Ao centro havia uma pirâmide, toda branca, encimada por uma estrutura dourada que lhe deixava o topo a descoberto. Por aquela abertura, entrava (ou saía?) um raio violeta que pulsava constantemente. A construção era gigantesca, e o mármore branco refletia o verde das árvores em volta. Eu via aldeões carregando jarros d’água, meninos andando sobre elefantes, casais passeando de braços dados. As “ruas” eram bastante largas e pavimentadas com tijolos dourados. À volta da pirâmide viam-se construções menores, mas todas mantinham o branco total em suas paredes. Aquilo era um centro espiritualista – uma “aldeia” de sacerdotes e seus discípulos, dedicados a manter a chama violeta do templo central intacta e pulsante.

A moça estava ali para assumir seu posto de dirigente daquele centro, mantenedora da chama e guia espiritual daquela região. Surgira à borda da clareira através de um portal dimensional. Viera de longe, preparara-se muito para aquele momento. Estava imbuída de grande poder, conhecimento, intenção e… orgulho.

Novo flash e aparece ao seu lado um outro sacerdote. Um homem também de beleza magnífica. Ele olhou para ela e ela baixou levemente a cabeça em sinal de respeito.

Estás pronta? – ele perguntou mentalmente, e eu pude ver seus olhos brilharem naquele tom violeta estranho.

Sim, foi a resposta mental dela.

Ele parecia preocupado, mas afastou o pensamento pessimista e prosseguiu a pé em direção à entrada da pirâmide, seguido de perto por sua discípula. As portas do templo eram enormes, douradas e recobertas de símbolos. O sacerdote ajoelhou-se, e foi imitado por ela. Levantou-se em seguida e bateu seu cajado por três vezes no solo, pronunciando fórmulas mágicas que pareciam ecoar por toda a aldeia como se estivessem sendo repetidas através de alto-falantes.

As portas se abriram. Um ancião os recebeu, e de repente estavam todos no salão central do templo. Centenas, talvez milhares de pessoas se reuniam naquele grande salão. Ao centro, o raio violeta se projetava, pulsando. A uns três metros do solo, um cubo perfeito, e que parecia feito de pura ametista, flutuava e girava cadencialmente, à despeito de seu tamanho imenso. Logo abaixo, no solo, havia um círculo dourado, sobre o qual sentava-se uma senhora, em posição de lótus.

Após a cerimônia, a nova sacerdotisa substituiu a anciã em sua tarefa de manter a chama pulsante e de servir de guia espiritual àquela gente.

No entanto, a nova sacerdotisa não foi bem-sucedida. Cega por seu próprio orgulho, ávida pelo conhecimento hermético dos grandes iniciados, ela mentiu, distorceu, tomou a justiça em suas próprias mãos e manchou-as com o sangue e as lágrimas de muitos. É certo que pensava estar ajudando àquela gente, mas não estava. Achou que ao controlá-los estaria livrando-os de cometerem erros, mas acabou ela mesma por cometê-los todos. Era o final de um ciclo na Terra, e aquele centro espiritual morreu com ela.

(Essas imagens me vêm à mente quase sempre. A sacerdotisa era eu, e apesar dos erros cometidos, sinto saudades daquela Terra, daquele verde, e daquelas pessoas que se perderam num tempo esquecido e enterrado de todos. Quem sabe um dia eu consiga me lembrar de tudo e possa por no papel a história da sacerdotisa. 🙂 )

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2 pensamentos sobre “O Templo da Chama Violeta

  1. Muita linda a mensagem, como todas as outras, porém algumas me fazem acessar fragmentos da minha própria existência, tão bem descritos os detalhes de tudo o que você viveu.

    Luz no Caminho,

    Bruno Borges

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