A alma do cigano

A alma do cigano é livre. Talvez não haja, sobre a Terra, espírito mais livre que este. Acredito que só se compare ao do animal selvagem, vivendo na natureza.

O cigano reverencia o céu, pois ali está o teto que lhe protege e lhe proporciona espetáculos de indescritível beleza. Os dias de céu azul e sol quente, as tardes de chuva que molham a terra, o arco-íris que colore as nuvens; as noites de infinitas estrelas brilhantes nos fornecem o pano de fundo perfeito para o fogo, a dança, a alegria.

O cigano não polui, não mata aquilo que não pode alimentá-lo, não prende a liberdade de ir e vir de nada nem ninguém. Respeita o poder do feminino e assim vive numa sociedade igualitária, onde cada um tem seu papel, mas todos – homens, mulheres, velhos e crianças – tem algo a dizer e contribuir.

O cigano escolheu as matas, os bosques, as margens de rios, riachos e cascatas como seu lar. Ali ele acorda cedo, trabalha como ninguém na forja – pois o cigano é filho do fogo, e como tal sabe lidar com ele como ninguém –, cuida dos trabalhos mais pesados. O cigano respeita sua esposa, lhe provê com carinho e atenção, e sabe que a lua é companheira do sol e, como tal, guarda todos os seus segredos. Ele sabe que é a ela que deverá recorrer para seu sustento, pois a magia se faz desde a comida que se ingere, até a roupa que se usa; da geração de um bebê à dança ritmada e esvoaçante de sua saia, só a beleza e força dela poderão completá-lo para que ele se torne inteiro.

O cigano respeita os anciãos, pois a força do jovem só terá direcionamento se for aconselhada pela sabedoria do mais velho. A justiça se faz com a razão, e a emoção do mais novo só pode ser contida quando direcionada pela experiência daquele que já viveu.

O cigano cultua a natureza como religião, e suas forças como divindades. Sendo assim, o cigano é rico, próspero e abundante, pois nada toma para si que não seja necessário ao seu conforto e sobrevivência. Assim trabalhando, vive em comunhão constante com as forças naturais, e por não aviltá-las nunca, está sempre sob sua proteção e guarda.

O cigano corta demandas, faz magias, filtros e rezas. Protege os seus e todos aqueles que vierem buscar seu auxílio e de seu povo pois, para ele, todos os indivíduos são irmãos. Acalenta as crianças, dá-lhes histórias ricas e cheias de princípios humanos para que aprendam enquanto brincam. Ensina-as a serem indivíduos úteis à sociedade, lembrando-lhes sempre do orar e vigiar, uma vez que é muito fácil desviar-se do caminho.

Ninguém canta e dança como o cigano, pois ele sabe que movimento é poder, e poder é magia. Quando a música se levanta, o violino chora e o pandeiro marca o passo ritmado da cigana, todos os seus movimentos são magia pura. O guizo no tornozelo, as pulseiras tilintando nos braços, os cabelos voando ao vento… todo o conjunto daquelas danças e cantos livram seu povo do mal, consomem as más energias, limpam seus corpos espirituais e etéricos.

Salve o povo cigano, sua magia, seu saber! Salve os filhos do vento e do fogo, da terra e do mar! Salve a fartura e a riqueza, o amor e a felicidade!

Kali yê!

(este texto me foi inspirado ontem pela Cigana Carmen)

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