Um dia…

Um dia eu quis ser pianista. Comecei a estudar piano clássico aos 10 anos de idade, depois de muito pedir que queria um piano. Quase seis meses depois ganhei um piano de verdade (de segunda mão, da marca M. Schuartzmann) dos meus pais.

Por 5 anos aquele piano foi meu amigo. Quando eu estava triste, sentava, tocava e chorava. Quando eu estava feliz, sentava e tocava… e às vezes chorava também. Morava numa casa e, muitas vezes, os vizinhos batiam à porta e pediam que eu tocasse uma música ou outra para eles. Era divertido.

Quando comecei os estudos do colegial técnico (segundo grau), acabei tendo que largar os estudos de música, pois as aulas eram em período integral e eu morava numa cidade e estudava em outra – tive estafa, e as aulas no conservatório dançaram, óbvio.

Mesmo assim eu continuei tocando quando dava e tinha vontade. Com o tempo as coisas ficaram mais complicadas, eu tocava cada vez menos, e por fim, aos quase 30 anos, doei o piano pois não havia lugar para ele no meu apartamento em São Paulo.

Foi difícil separar-me dele. E mesmo hoje, quase dez anos depois de ter me desfeito do piano, ainda me lembro da sensação de tocá-lo, do som acústico, do peso das teclas. Foi bom enquanto durou. Foi muito bom.

Naqueles anos eu também pintava. Sempre gostei de desenhar, e eu fazia pelo menos um desenho por dia. À lápis, normalmente em tamanho A3 ou A2, de preferência em papel canson bege. A pintura normalmente era com técnica de lápis de cor, crayon preto ou nanquim (bico de pena). Várias das minhas professoras tinham quadros meus, assim como minha mãe ainda tem alguns. Minha prancheta nunca estava vazia, e naqueles momentos de criação eu me transportava a outros lugares… era mágico. Com o tempo e as muitas atividades – estudo, trabalho, viagens – eu deixei de pintar. Ainda guardo todos os materiais, papéis, lápis, réguas, mas nunca mais consegui ter tempo e sossego para pintar. Uma pena, pois eu sinto muita falta disso também.

Sonhos

Lembro-me de dois sonhos que me marcaram muito naquela época. O primeiro deles eu me encontrava num local que parecia uma taberna rústica. Eu me sentei num banco de madeira, de frente para um palco, e ali então surgiram moças de vestidos brancos diáfanos, transparentes. Elas cantavam uma melodia maravilhosa e dançavam, pareciam anjos. Eu assisti todo o espetáculo, e então um homem veio até mim. Eu me levantei e ele me cumprimentou, pegando na minha mão e beijando-a de leve, como se fazia antigamente.

Ele era bonito, de pele branca e olhos e cabelos negros. Tinha um porte altivo e eu me lembro de olhar para ele como a perguntar “quem é você?”, ao que ele respondeu: Caruso.

Então ele me fez uma mesura como a dos toureiros e deixou a sala. Eu acordei.

Semanas depois eu encontrei uma referência numa enciclopédia que tinha em casa: Enrico Caruso foi um cantor lírico italiano, nascido em 1873. Um dos tenores mais brilhantes da época. Lembro-me que me emocionei muito quando li o pequeno texto sobre ele. A foto não conferia muito com a aparência dele no sonho – ele parecia mais alto, estava bem mais magro. Mas os olhos eram exatamente os mesmos, por isso eu acho mesmo que tive o prazer de ouvir uma de suas composições no astral. Eu tinha uns 15 anos.

Num outro sonho me lembro de andar por um caminho asfaltado de pedras num imenso gramado muito verde. O caminho, à minha direita, era ladeado por pinheiros cuidadosamente podados e de uns 2 metros de altura cada. A atmosfera era úmida, e uma bruma leve cobria tudo, como se fosse muito cedo ainda. Eu andei um pouco mais e cheguei à uma casa toda branca e de estilo modernista – linhas retas e simples. Ouvi o som de um piano lá dentro. Parei e me dirigi à porta, que estava entreaberta. A sala era enorme, e ao fundo era fechado com panos de vidro do chão ao teto que deixavam ver o gramado lá fora. No centro havia um grande piano de cauda branco. Um homem estava sentado ao piano e tocava enquanto mantinha a cabeça encostada à parte de cima do móvel. A música era melancólica mas muito, muito bonita. Eu fiquei ali parada ouvindo-o tocar. Lentamente ele ergueu a cabeça, sorriu para mim, e continuou tocando. A música tornou-se menos melancólica, mais alegre e festiva. Quando terminou a peça, ele se levantou, ficou de pé ao lado do piano e fez uma mesura, agradecendo-me, pois eu bati palmas para ele. Ele usava roupas de época, do século XVII ou XVIII acho. Ele estendeu a mão e eu a segurei, sentando-me ao seu lado ao piano. Perguntei mentalmente o porque dele deitar a cabeça sobre o móvel enquanto tocava. E ele respondeu “força do hábito”. Além disso, segundo ele, a vibração da madeira do piano era algo que o ajudava a compor – era como se a madeira “chorasse” sob a vibração da música. Nós tocamos algo juntos, eu errei várias vezes, ele me corrigiu, e eu me despedi. Ele me levou à porta, acenou num adeus, e eu acordei.

Sempre tive a sensação de ter sido Beethoven. Mas só confirmei as suspeitas quando assiti Minha Amada Imortal.

A doutrina espírita kardecista possui alguns títulos que descrevem um local chamado de Vale das Artes. Segundo esses relatos, artistas das mais variadas épocas e locais, quando desencarnam, acabam encontrando-se, por afinidade energética, naquele local.

Eu sinto falta daqueles sonhos, daquelas “visitas”. Eu sempre acordava muito feliz depois de um sonho desses. Muitas vezes tenho vontade de voltar a desenhar e a tocar só para realinhar a minha conexão d’alma com esses seres tão incríveis.

Um dia, quem sabe… um dia. 🙂

Anúncios

Um pensamento sobre “Um dia…

  1. QUE BELEZA que é a certeza,não somente acerca da imortalidade,mas também da multidimensionalidade da Vida Eternamente Viva!!! A respeito do Ser em sua última encarnação mundialmente conhecido como Ludwig van Beethoven,sem exagero algum,afirmo ser ele o Mentor e educador desta minha personalidade,posto que,na adolescência,quando li a primeira biografia dele,escrita por Emil Ludwig,senti tão imensa identificação,não somente com a música,mas com o Ser ali biografado,que foi aflorando em mim toda uma complexa e mavórtica e grandiosa personalidade,eu,que era tímida,medrosa,frágil. Durante o tempo em que estudei academicamente música,tive um total de 263 sonhos – alguns,verdadeiros contatos – com esse Ser tão querido e grandioso,em minha opinião, O MAIOR COMPOSITOR MUSICAL já vindo a este mundo. Deixo aqui consignada uma homenagem a Beethoven,por parte do também admirável poeta Hermes Fontes,para vossa apreciação: BEETHOVEN A SUSTENIZAR,EM MÁXIMA ALTAÇÃO,ALÉM DAS ESTRELAS,BRAVO E BELO,BRUSCO E BOM, … BEMOLIZA NO BEIJO DAS BALADAS…. E OS BANDOLINS E OS ATAMBORES BRADAM,REBRADAM,BRAMEM,REBRAMEM…. BEETHOVEN, BEETHOVEN…. MAGNÍFICO,MESMO!!! Acessem um pouquinho de minhas composições,gênero música erudita futurista. Acessem,no you tube,vídeos ergosons.Saudações a todos!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s