Recordar é viver… eu ontem quis ser diferente

Ontem eu fui apresentada ao blog do DiVasca. E há alguns meses já, eu sigo a Ila Fox diariamente. São pessoas que fazem, do seu talento, seu sustento. E eu os admiro.

Sou arquiteta formada. Estudei 6 longos anos pagos com meu próprio trabalho. Foram anos difíceis, de muito estudo, muita ralação. Escolhi a arquitetura porque sempre desenhei muito bem, adorava criar.

Apaixonei-me pelo curso logo na primeira aula – História da Arquitetura Contemporânea, ministrada pelo Prof. José Roberto Cannizza. Nunca esqueci aquela aula, e foi ali que me decidi definitivamente pelo curso. Desenhando, projetando, eu nunca vi o tempo passar. Eu sempre me lembro da célebre frase “escolha algo que você gosta de fazer, e você não terá de trabalhar um único dia de sua vida”. Para mim, desenhar, era isso. Era o meu lazer, que eu sonhava tornar minha profissão.

Infelizmente, na época, a Internet estava engatinhando. Ter um site era coisa de doido. Blogs não existiam, e conta de email tinha uns 150 Kb de armazenamento.

Meu trabalho de graduação foi a adequação do Shopping Center Vale à nova Lei de Acessibilidade, que definia os mínimos requerimentos para o acesso de deficientes físicos às instalações comerciais, públicas, etc.

A administração do shopping, na época, nem quis me receber. Dois anos depois de formada, o shopping todo estava adequado à nova lei – tudo que eu havia definido no meu Trabalho de Conclusão de Curso foi instalado no shopping. Por exemplo, eu projetei um elevador, quadrado e com painéis de vidro, num certo local. Eles fizeram o elevador exetamente naquele local, só que redondo, sem vidros. Usaram o projeto, nunca me pagaram, nem me avisaram. Meu trabalho está lá, na biblioteca da faculdade, para comprovar o fato. Mas direito autoral no Brasil é piada, e a ética tirou férias faz tempo e não tem planos de voltar ao país.

Ainda estudante, em meu penúltimo ano de curso, fiz um estudo de reforma e logomarca para uma sorveteria que ficava em frente ao Parque Santos Dumont, também em São José dos Campos. O estudo ficou tão bom que o cara usou o projeto, mudou um pouquinho a logomarca, e aplicou tudo, numa boa. O único problema é que ele nunca me pagou nem me deu a mínima. Com a reforma, ele acabou vendendo a sorveteria, que valorizou-se pela nova definição de cores, marca, etc. E eu nunca mais o vi… mas tive que engolir esse sapo e ver o meu projeto lá todas as vezes que passava em frente ao parque. E o que é pior: eu morava bem perto.

Eu era muito boa no que fazia, essa que é a verdade. Talvez se tivesse me formado há menos tempo até tivesse tido mais acesso, mais informação, mais condições de levar meu trabalho adiante. Mas da maneira como as coisas eram, foi impossível. Pagar contas, comer, vestir, eram imposições da vida às quais eu não podia me furtar. Acabei por enveredar pelo caminho das línguas, tradução, editoração e redação técnica.

Não me entendam mal, eu gosto do que faço. Do mesmo jeito que adorava desenhar, eu amo escrever. Mas não posso me furtar a um sentimento de nostalgia, e até de certa tristeza e frustração, quando me lembro da prancheta, do nanquim, dos lápis de cor, do giz pastel, da aquarela… até hoje me lembro do cheiro característico da borracha apagando os traços de grafite no papel. Ou das horas gastas desmontando as canetas nanquim e lavando pacientemente todo o mecanismo para que não secassem e deixassem de funcionar. Eu tinha um calo monstro no dedo… ossos do ofício… rs…

Mas o que eu queria deixar registrado aqui é que as pessoas, quando vêem uma logomarca, um projeto, um estudo de cores, a maioria tende a pensar que aquilo tudo saiu do nada. Como se o arquiteto, o ilustrador, ou o designer tivessem simplesmente agitado uma varinha e magicamente aquilo tudo apareceu exatamente como foi pedido, exatamente como elas queriam. Na verdade, quanto melhor o profissional, quanto mais antenado, mais capaz, mais criativo, melhor será o trabaho funal, e mais as pessoas terão a sensação errada de que aquilo tudo saiu sem esforço.

Mas não é assim. Por trás de um bom profissional de criação existem anos de estudo. Milhares de horas gastas lendo, olhando, estudando outros profissionais, tendências, materiais, processos, etc. A vida de um profissional de criação é quase tão doida quanto a de um médico – o estudo é constante, as mudanças de métodos e materiais também, a quantidade de grana e tempo gasta na atualização constante é enorme, enfim… tudo para que, quando alguém pague por seu trabalho, aquilo flua de maneira quase “mágica”.

Lembrem-se disso quando admirarem uma sala bem decorada, um quadro que te inspire, uma roupa de bom corte, um sapato lindo, um anel deslumbrante, ou mesmo a marca da bebida que você mais gosta. Tudo isso é fruto de muito estudo e dedicação, e não saiu de graça.

Hoje quero deixar aqui meu abraço especial a todos os profissionais de criação que ainda continuam mantendo-se com seu talento. Parabéns, vocês são verdadeiros guerreiros! 😉

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2 pensamentos sobre “Recordar é viver… eu ontem quis ser diferente

  1. Já passei também pela situação da pessoa usar algo que você fez, e você sabe que teve dedo naquilo, e não tem o que fazer. É muito triste, hoje as pessoas não respeitam o conhecimento alheio, simplesmente se preocupando em resolver os seus problemas.

    Já fiz projeto que me pagaram valor simbólico, e que depois foi vendido por valor absurdo, tipo, quando me foi apresentado, eu ia fazer um favor, mas depois virou um produto.

    Faz parte, vivendo e aprendendo. Também comecei a acompanhar esse blog a alguns dias, e a maneira que ele usa para divertir o assunto é a realidade que acabamos vivendo.

    =)

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