História de Neferari

Era o reinado de Seth II, e o Egito firmava-se como a grande pérola do Nilo. Tínhamos de tudo: riquezas, conhecimento, um grande território, terras férteis, clima propício. A miscigenação era comum, uma vez que muitos povos foram conquistados e outros tantos migravam para nosso hospitaleiro país.

Eu era jovem e muito bonita. Longos cabelos negros, pele amorenada, e olhos verde-escuros. Diziam que eu, Neferari, era a Bela entre as belas de Mênfis. Estava apenas entrando na adolescência, mas muitos já eram os pretendentes à minha mão. Embora um casamento pudesse ser forçado à mulher no antigo Egito, isso não era uma prática muito comum. Tínhamos muita igualdade entre homens e mulheres, principalmente com o meu status social e financeiro.

Eu conheci Nefer numa manhã em que levava oferendas ao Deus Sol, Amon. Eu contava quinze anos, e ele vinte e oito. Ele era tudo que eu queria num homem – alto, bronzeado, de feições másculas mas muito harmoniosas. Até os cabelas raspados, por conta do sacerdócio, davam a ele um predicado a mais. Me encantei instantaneamente, e fiz de tudo para aproximar-me. Ele foi cortês, mas não passou disso.

Fiquei dias lembrando de sua voz, seus grandes olhos escuros, seu sorriso franco. Passei a mandar grandes somas ao templo, no intuito de fazer-me perceber pelos sacerdotes, e por ele em especial.

Qual não foi minha surpresa quando descobri que Nefer estava comprometido. Sua noiva, uma prima que vivia em Buto, mudaria-se para Mênfis dentro de 4 ou 5 luas, quando então formalizariam a união. Nefer havia adquirido uma propriedade às margens do Nilo, e parecia muito feliz.

Aquilo me corroeu por dentro. Como um homem podia ignorar-me daquela maneira? Quem ele pensava ser?

No dia da procissão em favor do Deus Sol, arrumei-me com esmero. Mênfis nunca vira-me tão bela quanto naquele dia. Minhas melhores jóias, um vestido novo, sandálias, cabelos, pele. Tudo, tudo eu fizera pensando nele. E meu esforço não foi em vão.

Naquele dia ofereci um banquete em homenagem a Amon, ofertei ricas oferendas, e consegui que Nefer sentasse bem próximo a mim durante a refeição.

Alegando um mal estar momentâneo, consegui que ele me acompanhasse aos jardins de minha casa, e lá o seduzi. Ele não ofereceu muita resistência, e nós nos tornamos amantes. Mas ele não desfez o compromisso com sua prima, e faltava pouco tempo para o casamento.

Quando a moça mudou-se para Mênfis, eu quase fiquei louca! Odiava aquela mulher e fiz planos de livrar-me dela. Nefer foi categórico em dizer-me que nunca prometera-me nada e que eu sabia que ele era comprometido.

A verdade é que, embora ele sentisse indizível atração por mim, nossas freqüências vibratórias não combinavam. Nefer era sublime, um homem de princípios espirituais sinceros, um servidor do grande Deus Sol. E eu era uma menina mimada e rica, nada mais. Muitas vezes, durante o tempo em que estivemos juntos, ele tentou ensinar-me, trazer-me à razão, mas eu só queria saber das festas, das fofocas, das jóias e do divertimento.

Ele terminou tudo comigo quando sua noiva chegou de Buto. Não respondia a meus recados, devolvia meus presentes, nunca me atendia quando eu ia ao templo.

Mas algo aconteceu: eu estava grávida. Minha mãe, que era viúva, mandou-me ao templo de Bastet para que lá ficasse até que a criança nascesse. Chamou-me de inconseqüente e disse que, para o meu bem, era melhor que eu doasse a criança ao templo quando nascesse.

No começo senti ódio daquele ser que crescia dentro de mim. Mas, com o tempo, e com a atenção constante das sacerdotisas de Bastet, meu coração abrandou-se. Eu amadureci muito durante aqueles meses de gestação e serviço no templo, e quando minha filha nasceu e eu vi seus grandes olhos negros como os do pai, não pude abandoná-la.

Comuniquei minha decisão à minha mãe que, por vergonha da sociedade de Mênfis, decidiu afastar-me de seu convívio. Para que eu mantivesse a criança, teria que viver isolada, numa propriedade rural que possuíamos próxima ao delta do Rio Nilo. Dedicou-me uma quantia mensal, para que eu sustentasse a mim e à criança. Nunca viu a neta, e nunca mais quis ver-me.

Durante anos lutei com a raiva, a mágoa, a saudade. Nefer havia sido meu primeiro e único amor, mas eu não soubera cativar seu coração. Só percebi isso no final de minha vida, que foi curta, pois deixei a carne aos quarenta anos, vítima de minha própria tristeza.

Em meu leito de morte, escrevi uma longa carta destinada a Nefer, pedindo a ele que assumisse a filha e desse a ela o amor que ele não pudera dar a mim mesma. Nefer chorou muito ao saber de meu desencarne naquele estado. Sentia-se culpado por ter-se deixado envolver naquele romance comigo. Assumiu sua filha com paixão, e cobriu-a de amor e carinhos por todo tempo em que esteve encarnado.

Nefer, ao desencarnar, assumiu seu grau novamente, tornando-se chefe de legião. Era sábio, muito sábio, e muito rápida foi sua ascensão; seus domínios aumentaram consideravelmente. Implacável com os rebeldes, dedicado aos sofredores de alma e coração. Como forma de redenção íntima, Nefer acolhia com grande compaixão e firmeza muitas mulheres que, depois de transmutadas em seus negativismos, eram encaminhadas às legiões de guardiãs ou à outras esferas da evolução.

Eu fui uma delas. Por ele fui acolhida, cuidada, ensinada. Não sabia quem era aquele guardião que me tratava com tanto desvelo, tanto carinho. Não conseguia lembrar-me dele como Nefer. Ele nunca revelou-me quem era, mas ensinou-me com energia e jamais me permitiu fraquejar.

Hoje, centenas de anos depois daquele nosso último encontro na carne, ainda guardo na memória o seu carinho para comigo. Hoje eu sou responsável por meus próprios domínios e tento, seguindo o exemplo dele, distribuir o mesmo carinho, a mesma transmutação, a mesma dedicação à Lei e à Justiça que esse grande guardião me ensinou.

Meu amor por ele permanece. Foi transmutado numa mescla de todos os amores possíveis – o amor pelo homem, pelo mestre, pelo irmão, pelo amigo.

Na minha desdita, ele procurou-me. Retirou-me do meu infortúnio, oferecendo-me o estudo e o trabalho como forma de redenção. Ensinou-me os Mistérios Divinos e mostrou-me que eu poderia evoluir pelo conhecimento, não pela dor.

Por isso tudo, e por muito mais que eu aqui não posso revelar, sou-lhe grata!

(Belíssima história de redenção ditada por uma guardiã de esquerda.)

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