Descanse em paz, minha irmã

Dia 19 desse mês foi meu aniversário. Fiz 39 anos. Nesse mesmo dia, levei minha gata, Nube, ao hospital veterinário para internação. Ela estava com problemas para comer desde meados de Outubro, e já não comia nem bebia quase nada nos últimos 8 dias antes da internação.

Foi difícil. Nube sempre foi medrosa, e eu sabia o quanto seria sofrido para ela. O ultrassom mostou duas pedrinhas, uma em cada ureter, entre o rim e a bexiga. Ou seja, ela estava com ambos os rins comprometidos… gato não faz transplante; gato não faz hemodiálise; então, como salvá-la?

A única maneira seria rezar para que aquelas pedrinhas descessem até a bexiga. Então internei minha amiga, minha irmã. Eu já não dormia por conta disso há quatro dias, e naquela noite foi ainda pior. Alguns dias antes eu havia sido diagnosticada com uma conjuntivite que estava também muito forte, me dando muito trabalho. Eu estava com a visão embaçada, passava o dia todo sem conseguir ler, escrever, ver TV, ou mesmo trabalhar. Dirigir era difícil, então uma amiga me levou até o hospital veterinário.

Eu deixei a Nube lá. Era uma segunda-feira.

Na terça-feira, acordei com a certeza de que ela não voltaria. Pedi que minha mãe cortasse um pedaço de pano branco. Ela me perguntou “porque?”, e eu respondi: “é uma mortalha, mãe.

Saí de casa às 13:00, pois minha visita estava marcada para às 14:00. Fui sozinha, mesmo enxergando mal. Era algo que eu tinha que fazer só. Chorei todo o trajeto.

Meu coração doía, pesava. Respirei fundo, entrei no hospital, perguntei se eles poderiam antecipar a visita, mas não deu. Tive que aguardar dolorosos 45 minutos.

Depois uma veterinária me chamou e subimos juntas para o segundo andar. Ela me apresentou o resultado dos exames de urina da Nube, e eu mal prestei atenção – eu só queria vê-la.

A veterinária desceu e voltou com um “bercinho” em forma de cabeça de gato. Dentro, minha gata estava toda encolhida, deitada. Na pata direita a agulha do soro. No nariz, uma sonha nasogástrica para alimentação. No pescoço, aqueles cones de plástico para que ela não retirasse a sonda. Ela estava suja e totalmente apática. Não levantou a cabeça, não me olhou. Eu falei com ela e levei a mão para agradá-la, ela rosnou para mim. Aquilo doeu muito, porque eu vi os olhos dela marejados de lágrimas…

Eu continuei conversando com ela e agradando; ela relaxou, mas ainda assim não me olhou.

A veterinária nos deixou a sós e foi buscar o Danoninho, para ver se a Nube reagia. Ela retornou e eu passei o dedo com a guloseima próximo do narizinho dela… nada.

Eu então tomei a decisão mais difícil da minha vida.

– Eu queria, por favor, que você acabasse com o sofrimento dela. Eu não quero mais ver minha gata assim…

A veterinária perguntou se eu estava certa daquilo, e eu, em prantos, disse que sim. Ela me explicou que a Nube jamais retornaria ao normal, e que a minha decisão era a maior demonstração de amor que eu poderia dar a ela. A veterinária me abraçou e saiu para buscar os papéis.

Eu tirei o cone da Nube. Chorei feito louca. Meu peito parecia que ia explodir de dor. Mas eu vi que os olhos dela me agradeciam, e isso me encheu de coragem. Eu continuei chorando e dizendo a ela que tudo ia acabar logo, que ela iria logo para casa, que o sofrimento estava no fim.

A veterinária voltou, eu assinei tudo, e ela pediu que eu aguardasse a clínica que viria fazer o procedimento. Eu agradeci e voltei a agradar e conversar com a Nube. Mais alguns minutos e uma outra veterinária entrou no consultório. Ela me explicou o procedimento e pediu para que eu tirasse a Nube do berço.

Eu segurei minha irmãzinha de pelos no colo, feito um bebê. Ela ronronava tranqüila. A veterinária aplicou a anestesia, e a Nube dormiu nos meus braços, enquanto eu a embalava suavemente feito uma criança. Baixinho, eu cantei enquanto a balançava para frente e para trás – “O velho Omolu vem caminhando devagar… o velho Omolu vem caminhando devagar… apoiado em seu cajado, ele vem nos ajudar… apoiado em seu cajado, ele vem nos ajudar.

Depois, a veterinária aplicou o remédio que fez o coração da Nube parar de vez. Foi tudo muito rápido, e ela foi-se embora em menos de trinta segundos.

Então eu pedi que ela retirasse os tubos e o soro e me deixasse a sós com minha irmãzinha por alguns minutos. Assim foi feito.

Eu estendi o pedaço de pano branco sobre a mesa. Deitei gentilmente o corpinho peludo dela sobre o tecido. Ageitei-a como se estivesse dormindo, e entre suas patinhas coloquei seu patinho de pelúcia, que a acompanhou a vida toda e que ela tratava como se fosse seu bebê. Clamei as tronos da evolução, da vida, da lei e da justiça. Pedi que Obaluaê abrisse seu portal de luz e a envolvesse. Pedi que Omolu, através de seus representantes, fizessem o seu desligamento e a protegessem para que seu corpo não fosse vítima de vampiros astrais. Pedi que todos os vestígios de dor, sofrimento, medo e doença fossem naquele momento transmutados e eliminados, e que seu corpo espiritual fosse totalmente restabelecido e reenergizado. Cruzei sua cabecinha, suas patas e suas costas com pemba branca. Acendi uma vela e irradiei o topo de sua cabecinha enquanto recitei um Pai Nosso. Apaguei a vela e a embrulhei com carinho. Abracei aquele embrulho e chorei terrivelmente – eu queria muito levá-la para casa, não queria que o corpinho fosse cremado na prefeitura. Mas, infelizmente, eu não tinha onde enterrá-la.

Beijei sua cabecinha e saí sem olhar para trás.

Só Deus sabe a dor, o sofrimento, a angústia que eu senti naquele dia. Só o tempo há de curar essa saudade.

Antes de ir embora, eu sussurrei no ouvido dela que, se ela pudesse, que voltasse para mim. Dizem por aí que a alma dos animais muitas vezes reencarna e dá “um jeito” de voltar para seus antigos donos. Eu gosto de acreditar que isso é verdade e que, um dia, aqueles grades olhos azuis vão me olhar de frente de novo.

Por ora, é adeus.

Que Deus a acompanhe, minha irmã. Você me amparou, me deu motivos para risos e alegrias incontáveis vezes. Foi minha companheira, minha guardiã. Respeitou meu espaço, meu silêncio, minhas ausências. Sempre me deu seu carinho e seu amor sem reservas. Sou-lhe grata infinitamente por tudo isso.

Agradeço a Deus por ter tido tão formidável amor e amizade durante os nove anos de sua formidável vida.

Muito obrigada, Nube. Mamãe te ama hoje e sempre. Fique em paz.

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3 pensamentos sobre “Descanse em paz, minha irmã

    • Obrigada, Regis. Ainda estou muito triste pra isso, mas com certeza o tempo há de curar as feridas e aí quem sabe, né?
      Beijão! 😉

  1. Sei muito bem o que é pasar por essa dor…Cheguei a ter 16 gatos…fora os que consegui doar…todos achei na rua !!! Hoje tenho 06 e a cada doença, sofrimento, despedida é uma dor terrível. !!!Chorei muito lendo …me lembrei de todos os meus que se foram e pela sua dor…só quem ama sabe como é !!! Hoje a minha Nenem e a mais velha com 17 anos e teve 02 AVC.(acidente vascular cerebral)..mas ta aqui….uma pequena sequela..não sabemos até quando ……em fim AMO meu filhos amor incondicional (Nina, Popó, Blanco, Mila, Nenem, Chica)…Cada um tem seu jeitinho, seu gênio, suas manias !!! Boa sorte ..bj..SYLL

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