Às margens do Rio Boro (uma história cigana)

Às margens do Rio Boro, há muitos anos atrás, havia um clã cigano. O clã, descendente diretos dos Roma, era próspero e vivia em paz e harmonia. Sua matriarca, sábia, enérgica e já sexagenária, tivera dois filhos homens. O mais velho, forte e alto, tinha uma personalidade branda e fechada. De coração de ouro, embora extremamente rígido consigo mesmo e com os outros, não admitia erros, desvios de conduta. Falava pouco e, quando queria expressar o que lhe ia n’alma, colocava todo seu sentimento no violino que seu pai, grande artesão, lhe deixara. O outro, mais novo pouco mais de um ano, tinha personalidade apaixonada e era amante da música, da poesia e da dança. Tinha sempre um sorriso nos lábios e cativava a todos com suas brincadeiras e bom humor.

Muitas vezes, essas duas almas, profundamente arraigadas em suas maneiras próprias de ser, tiveram atritos.  Muitas foram as discussões e as brigas que os pais, sabiamente, separavam. Por várias vezes o mais velho reclamou a sua amada mãe sobre as maneiras exageradas e fanfarronas do irmão, ao que a mãe respondia: – Você é o mais velho, meu filho. Ensione-o com seu exemplo. Mas lembre-se: as diferenças devem ser celebradas. Não há no mundo uma só flor, uma só folha, um só riacho que se iguale a outro. Todos têm seus defeitos… e suas qualidades.

O filho ouvia, mas raramente conseguia por em prática aquilo que sua sábia mãe lhe falava. Faltava-lhe a paciência e a experiência de vida que só o tempo poderia ensinar.

Quanto ao mais novo, amava seu irmão e sonhava um dia ser apreciado por ele. Tentava de todas as formas chamar-lhe a atenção, travar uma amizade mais profunda com ele, mas em vão fazia convites para a pesca, a caça, ou mesmo para a dança noturna em volta da fogueira.

A verdade é que ambos, à sua maneira, invejavam-se mutuamente. O mais velho invejava a alegria espontânea, o sorriso franco e as maneiras despreocupadas do irmão que, julgava, era mais feliz que ele por não possuir preocupações na vida. Enquanto que o mais novo invejava as maneiras austeras, o respeito e o temor que todo o clã sentia por seu irmão que, para ele, era tal qual um deus de sabedoria e força.

Se deixassem seus egos de lado, muito aprenderiam um com o outro. O mais duro abrandaria seu coração, trazendo alegria e juventude a seus modos. O mais bonachão controlaria um pouco mais suas maneiras infantis, adicionando maior sobriedade e temperança à sua personalidade. Ao invés disso, cada um a seu modo queria que o outro mudasse simplesmente.

Os atritos continuaram a ocorrer, até que uma família de fora juntou-se àquele clã. Eram um casal e três filhos, sendo uma moça a mais velha dos três, contando seus 19 anos quando ali chegaram. Pediram abrigo e foram acolhidos.

A moça, gentil e belíssima, logo cativou os corações dos rapazes daquele clã. Dificilmente seria aceita como esposa pelas famílias mais austeras pois, embora também fosse cigana, pertencia a um clã estrangeiro. A matriarca, no intuito de demonstrar o acolhimento que todos deveriam ter no coração, e verificando o interesse crescente de seu filho mais velho por aquela ciganinha, tratou logo de noivá-los com grande festa e a aquiescência de ambos os jovens.

Mas a menina não era constante em seu afeto, e quando a noite chegava e a música e o canto se faziam ouvir ao redor da fogueira, ela dançava ao som da doce voz de seu futuro cunhado. Ninguém dançava tão bem quanto aquela morena de olhos cor de mel, e sua personalidade afeita à música e festa logo passou a querer mais e mais as atenções do irmão de seu noivo.

Em pouco tempo declararam-se um ao outro e, temendo a ira do irmão mais velho e da própria matriarca, puseram-se em fuga, deixando para trás o coração magoado do noivo, abandonado às vésperas de seu casamento.

Eles viajaram muito, moraram em vários clãs, e declaravam-se casados, embora nunca tivessem, realmente, passado pelo sacramento ofertado aos noivos ciganos. Com o tempo, a moça engravidou, e na lida rude e dura do dia-a-dia passou a sentir falta da constância, da fortitude e da firmeza de caráter de seu ex-noivo. Seu “marido”, por sua vez, sentia saudades indizíveis de sua terra, de sua gente, e grande parte de sua alegria e brilho foram, com o tempo, esmaecendo.

Por fim as brigas passaram a ser constantes e, num ato impensado, a moça se foi junto a uma caravana que passava rumo à Europa Ocidental, deixando seu marido atordoado ao chegar em casa e ler, com os olhos marejados de lágrimas, que ela havia-se ido, deixando com ele seu filho.

O marido traído em seu orgulho e amor passou a embebedar-se e, quando numa noite ergueu a mão para a criança que chorava num canto, percebeu que chegara ao seu limite. Escreveu longa carta, pedindo perdão aos seus e dizendo-se arrependido por toda a dor que os fizera passar. Viajou com o menino até bem próximo de seu clã e ali montou seu acampamento provisório. Jantou e brincou com o filho, beijando-o e dizendo o quanto ele o amava. Quando a criança finalmente dormiu, depositou-a na carroça simples, junto com alguns pertences pessoais e o anel de ouro que o identificaria perante os demais integrantes de sua família.

Levou a carroça até bem próximo do clã assentado, e então bateu nas ancas do cavalo, que continuou o caminho por si só, indo pastar no centro da “praça” que o acampamento formava. O dia raiava e ele aguardou até que viu as primeiras senhoras saindo para as lides do dia, tendo a certeza de que encontrariam seu filho e o acolheriam. Os ciganos jamais abandonavam uma criança à sua própria sorte, mas aquele menino, ele sabia, seria celebrado como seu herdeiro, neto de sua sábia e amada mãe.

Ele então caminhou tranquilamente até as margens do rio e, acorrentando-se a uma pesada pedra, atirou-se à correnteza. Tirou a própria vida, não sem antes, mais uma vez, pedir perdão silenciosamente ao irmão, à mãe, e à sua própria esposa, a quem ele auxiliara no desvirtuamento.

Ainda conta-se, às margens do Boro, que ali ronda um jovem muito belo, de olhos cor do céu e de voz cristalina que, em noites de lua, encanta os enamorados. Mas ai daqueles que tentam segui-lo! Acabam por precipitar-se nas águas revoltas daquele rio de lágrimas…

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Essa história me foi confiada pelo espírito que se auto-denomina Cigana Carmen. Faz muito tempo que eu a guardo comigo, mas hoje achei que estava na hora de compartilhar com vocês. Talvez, se o tempo permitir, um dia ela transforme-se num livro… um belo romance de superação e aprendizado dessas adoráveis almas. Salve a roda e a fortuna! Salve o povo cigano!

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Um pensamento sobre “Às margens do Rio Boro (uma história cigana)

  1. Gostei muito do conto. Espero que se torne um livro. Acredito muito na espiritualização das pessoas através de histórias psicografadas. Um dia estava cochilando e ouvindo músicas na TV. Um espírito se achegou, pediu que eu anotasse o nome (sabem de minha memória…) e a oferecesse a um rapaz que fazia anéis em prata para mim. Heartache Caravan – de Dee Dee Bridgewater – agora eu a ofereço a você. Beijos.

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