Sina de Guerreiro…

Eu vi essa imagem… e imediatamente me contaram essa história. Linda…

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No alto daquele monte escarpado e íngreme, uma figura negra observava. A paisagem era desoladora, cheia de escarpas, solo poeirento. Nenhum verde, nenhum azul. Só a luz difusa e avermelhada cortava a escuridão. Ouviam-se gritos, lamentos. Criaturas estranhas rastejavam no solo, outras tinham asas pontudas e escamosas, outras ainda chafurdavam aqui e ali no lodo. Algumas cavernas pareciam ser habitadas por seres ainda mais repugnantes… tinham os olhos vítreos e, se alguém os olhasse por determinado tempo, perceberia um lampejo de inteligência passar por eles.

E aquele sentinela, lá no alto, a tudo observava. Vestia um manto negro como a noite, com um capuz que lhe escondia totalmente as feições. Seus olhos viam tudo aquilo, impassíveis. Em seu peito, um coração sofrido batia. Estava ali há muito tempo. Há tanto tempo que já esquecera-se de contar. Um dia fora um daqueles desprezíveis seres que agora vigiava com determinação. Agora já não sentia mais o desespero de antes… a fome, a sede, a dor das chagas no corpo. Somente sua consciência vez ou outra ainda o cobrava, e por isso ali permanecia. Sua espada servia ao alto, mas enquanto ali permanecia, por muitas vezes julgava-se mais maldito que aqueles que ora vigiava.

Naquela manhã lúgubre sentia um tanto a mais sua solidão. Enquanto observava aquelas criaturas desformes, ávidas por vingança e sensações vãs, pensava em como seria bom estar longe dali, sentir o sol na pele, a brisa fresca do mar, ou quem sabe o cheiro doce dos pinheiros nas montanhas. Duas criaturas engalfinhavam-se por um naco de “comida” jogada no chão… o Guardião deixou por instantes suas memórias e voltou a observá-los – pareciam mais duas bestas do que humanos. Prescrutou o mental de cada um deles e descobriu que ambos haviam usurpado o direito de muitos à vida, deixando milhares à míngua enquanto desperdiçaram recursos preciosos na matéria. Naquele tempo longínquo, riram-se do sofrimento alheio. Agora, rastejavam e vociferavam como as feras que sempre foram em vida…

O Guardião enxeu-se de revolta pela imbecilidade daquelas criaturas, e sem sair de onde estava desferiu longo golpe com seu chicote prateado. Ouviu-se um estalido monstruoso, como se um raio partisse de si e explodisse bem no centro de onde os dois lutavam. Ambos foram arremessados para longe, caindo desacordados sobre o pó daquele chão árido. O Guardião sorriu intimamente, mas logo voltou ao seu estado lúgubre e cismado. Lembrou-se do quanto gostava de viajar, e fez planos. De repente, sua saudade ficou tão grande, que ele refugiou-se numa oração íntima ao seu Pai. Pediu que sua consciência se abrandasse. Pediu que suas memórias ruins lhe fossem tiradas. Pediu paz. Beleza. Perfeição.

Sentiu um brando calor aquecer-lhe o peito enquanto mantinha os olhos fechados. A mão esquerda, sempre sobre o cabo da espada, estava pronta para agir caso fosse preciso. Por trás dos olhos fechados, começou a divisar um ponto brilhante que parecia expandir-se à sua frente.

– Filho meu, abra os olhos…

O Guardião emocionou-se, sentiu o peito apertar e o choro descer por seus olhos.

– Pai, não posso… – respondeu baixinho, soluçando.

O ser iluminado aproximou-se um pouco mais e diminuiu um pouco a luminosidade que o envolvia. Pousou a destra sobre a cabeça do Guardião e espargiu sobre ele finíssimas luzes prateadas que adentravam seu corpo espiritual harmonizando-o. O Guardião sentia-se amado, abraçado, acolhido qual criança no colo de seu pai.

– Agora, Filho meu, abra os olhos.

O ser pousou as mãos sobre os ombros do bravo soldado. Havia retirado-lhe o capuz, e via-se então o belo cavaleiro que ali se destacava. Tinha a pele branca, os cabelos levemente aloirados assim como sua barba cortada e bem-feita. Os traços eram finos, aristocráticos. Era um belo homem aquele guerreiro… mas via-se triste, cansado.

E ele então abriu os olhos e viu seu Pai à sua frente. Não conseguia falar, não se movia. Apenas chorava enquanto olhava para aquele ser de pura luz cintilante à sua frente. A algazarra daquelas criaturas imundas havia cessado, tudo silenciara. Quando o Guardião olhou em volta, percebeu-se transportado à uma imensa pradaria. A relva verdejante cintilava todas as cores do arco-íris. As árvores frondosas davam sombra e ar fresco. Ao longe, podia ouvir as ondas do mar batendo.

Baixou os olhos encantado e olhou para si – sua túnica agora era branca como a neve, e sua espada parecia feita de pura luz. Respirou fundo e enxeu os pulmões com aquele ar doce e puro como nunca havia feito. Estava feliz.

O mestre sorriu.

– Filho, tu me serviste bem. Há muito aguardava este teu anseio de melhora, de progresso. Agora, tu me servirás aqui, através do estudo, e não mais no embaixo. Ali já coloquei novo Guardião, sabedor de suas faltas, ansioso por progredir.

O Guardião ouvia tudo aquilo alarmado… o que ele faria dali para frente? Como agiria? Depois de tanto tempo punindo e guardando, não sabia mais como ser diferente.

– Sossega teu coração, Filho meu. Vem caminhar comigo.

O Guardião levantou-se e, quando olhou em volta, já estavam ambos sobre a areia da praia. O mar tinha todos os tons de azul e turquesa… era lindo!

Aquele ser caminhava calmamente enquanto falava:

– Há muitas maneiras de evoluir, Filho meu. Uns evoluem pela dor, pelo sofrimento, outros pelo exemplo, pela abnegação, pelo serviço. Outros ainda pelo estudo, pelas ciências, ou mesmo pela magia, pelas forças ocultas… é natural que o ser, durante sua evolução, passe por uma ou mais destas vias evolucionárias, Filho meu. Tu mesmo já passou por muitas…

Aquele ser iluminado agora já passara o braço por sobre os ombros do Guardião, como a dar-lhe sustentação durante aquela conversa.

– Mas uma coisa, Filho… uma coisa nunca muda: uma vez soldado, serás sempre assim. Tu escolheste esta espada que trazes contigo há eons. Ela te acompanha desde então, seja em espírito, seja em matéria, mas sempre esteve aí. Como símbolo de tua escolha, ela também foi evoluindo, angariando força, sabedoria, coragem, determinação… fé. Tua espada hoje, Filho meu, é o reflexo de quem tu és: o reflexo de tudo aquilo que viveste, de tudo que aprendeste, de tudo aquilo que viste e ouviste e das escolhas que tu fizeste dentro de teu conhecimento de vidas e mais vidas.

O Guardião mantinha a cabeça baixa, ouvindo com atenção ao que dizia seu Pai. Conforme ouvia aquelas palavras, em sua mente assomavam muitas cenas… cenas boas e ruins, felizes e tristes, como a comprovar cada uma das palavras que ouvia.

– Agora, Filho meu, tua espada descansa enquanto tu hás de servir-me aqui, estudando, aprimorando teus conhecimentos herméticos, tuas capacidades intrínsecas que carregas aí dentro de ti desde que foste exteriorizado pelo Criador. Encara este tempo aqui Filho como as “férias” merecidas depois de tanto trabalho duro.

O Guardião sorriu e seu Pai parou a caminhada, virando-se de frente para ele e olhando-o nos olhos. Aquele olhar era quase impossível de sustentar… aquele ser tinha olhos lindíssimos, de um azul que parecia mudar de tom conforme ele passava sua mensagem.

– Agora tu sorris, Filho meu, e eu me regozijo com tua alegria. Mas ouve: tu te cansarás disto aqui muito mais rápido do que te cansaste de teu estágio nas trevas. Tua fibra, tua natureza íntima de guerreiro te trairá, tu verás. Cansar-te-á dos livros, creio eu, muito antes de eu vir buscá-lo. Mas não te preocupes: assim como eu sabia o tempo certo de te retirar de teu exílio, assim também hei de vir buscar-te no “paraíso”.

Dizendo isso, o ser luminoso sorriu, deu um passo para trás e aumentou sua luminosidade. O Guardião caiu de joelhos e beijou-lhe os pés descalços.

– Eu te abençôo e parabenizo, Filho meu. Fica em paz até nosso reencontro.

Dizendo estas palavras, uma luz intensa o envolveu e ele sumiu. O Guardião ainda caminhou por um tempo na praia, sem saber ao certo onde ir, o que fazer. Por fim cedeu à beleza do mar e, despindo-se, mergulhou nas águas límpidas. Teve a companhia das ninfas aquáticas que o cercaram de carinho e amor, auxiliando o Guardião a fechar em seu peito muitas das feridas que ainda carregava. Quando finalmente saiu do mar, o crepúsculo se anunciava, tingindo o céu de lindíssimos tons de dourado. Despediu-se das ninfas, agradecendo-lhes e prometendo voltar sempre que possível, vestiu-se e caminhou em direção ao seu futuro…

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3 pensamentos sobre “Sina de Guerreiro…

  1. .Belíssimo relato!!! É sempre o chamamento íntimo e verdadeiro do Ser consciencial que o conduz exatamente ao encontro daquilo com que REALMENTE se identifica,se sintoniza.Recomendo a todos uma belíssima história de Evolução,a obra pode ser acessada por : Psicografia Vida Eternamente Viva – é a história real de um também precioso Guardião,um valoroso Exu de Lei. Leiam,muito a apreciarão!

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