104 anos de Umbanda…

Hoje eu queria dividir com vocês meus quase 40 anos de vida em algumas linhas de texto. Não porque eu queira que vocês digam “olha só, como ela é especial”, mas sim porque eu queria que, através da minha historinha, as pessoas enxergassem um pouquinho mais à frente do nariz… vamos lá.

Eu nasci no interior paulista. Nasci prematura, com vários problemas de saúde – tive uma miopia absurdamente alta, chegando aos 21 graus; cheguei a uma quase leucemia; dormia à base de remédio tarja preta até quase 5 anos. Apesar de tudo isso, da precariedade da cidade onde nasci, da falta de dinheiro, da não-existência de internet, etc., minha mãe foi constantemente intuída e eu fui cuidada por excelentes médicos, tanto físicos quanto espirituais.

A primeira cirurgia espiritual que fiz foi para driblar a leucemia iminente, e funcionou, porque o problema sumiu. Foi um Caboclo o “cirurgião”, embora não saiba até hoje o nome da entidade, porque o centro era Kardecista… mas eu vi o espírito que me operou, e sei que era um índio muito alto e forte.

Depois, sucederam-se os contínuos passes, porque eu era uma criança constantemente assediada: à noite, no meu quarto, via vultos, baratas, insetos, vampiros, lobisomens, tudo saindo debaixo da minha cama… o que para algumas crianças é apenas imaginação, no meu caso era assédio espiritual mesmo. E eu não dormia, chorava, e fazia xixi na cama. Então, remédio tarja preta era a solução… até que eu não conseguia mais andar direito.

Frente à perda de forças nas pernas, minha mãe parou imediatamente o tratamento “da Terra” e continuou somente com o tratamento espírita. Os Guardiões de esquerda foram meus salvadores – fecharam o portal embaixo da minha cama, puseram-se dentro do meu quarto e me guardaram, noite após noite, sem nada dizer. Eu os via e tinha medo deles – aqueles homens altos em suas capas negras que deslizavam pelo quarto como se não tivessem pés… rs… Mas, ainda assim, eles me protegeram.

Com mais idade, passei a ter sonhos muito lúcidos… vidas e vidas descortinavam-se à minha frente. Os tremores eram constantes, o suor excessivo também. Muito alta, magrela, “CDF” – hoje eu seria “nerd”, usando óculos fundo-de-garrafa, eu nunca fui o modelo de beleza que as meninas gostariam de ser aos quinze anos. Ainda assim, comecei a namorar cedo, casei aos 21, divorciei-me aos 29. Neste período todo, trabalhei muito, acordei antes do sol nascer, dormi tarde, cuidei da minha casa, lavei e passei muita roupa, estudei muito e me pós-graduei.

 

Ou seja, eu NUNCA tive uma vida fácil… não desta vez. E, no entanto, eu NUNCA culpei ninguém pelos meus problemas. Eu reclamei sim, eu desejei uma vida mais fácil, menos complicada. Mas eu sempre soube que, se alguém podia transformar a minha vida difícil em algo mais simples, esse alguém era EU. Não era Deus, nem meus pais, nem ninguém. Era EU a chave.

 

Porque eu digo isso? Porque, se você quer abraçar a UMBANDA como sua religião, entenda que ela não tem pózinho mágico. Ela não resolve seus problemas. Ela ajuda, ela te dá forças, ela te dá esclarecimento, ela te dá recursos para se tornar alguém melhor… mas, a CHAVE é VOCÊ. Se você fizer a sua parte, ela faz a dela; se você não fizer, ela te chuta a bunda.

 

Hoje, eu continuo não tendo uma vida muito fácil. Mas eu viajei quatro continentes, eu falo três idiomas, eu já li mais livros na vida do que cabem no meu apartamento; eu sou mãe, esposa, funcionária de multinacional, arquiteta, tradutora, escritora, médium… eu sou UMBANDISTA. A Umbanda é parte de mim, uma parte muito importante. É ela que me sustenta hoje na minha caminhada. Aquele buraco que eu sentia quando sentava no avião com destino ao outro lado do mundo… desapareceu. Aquela tristeza, os tremores, a tontura, o desequilíbrio… tudo, foi embora. E, quando volta, eu sei me livrar deles. Hoje, acredito, eu ajudo tanto quanto sou ajudada. Eu não tenho dúvidas de quem eu sou, de onde eu vim e de para onde eu quero ir.

 

Se você gosta de reclamar, de viver a vida da vítima, de colocar a culpa dos seus problemas nos outros… talvez a Umbanda não seja para você. Porque, mais cedo ou mais tarde, dentro da Umbanda, você será obrigado a MUDAR, a CRESCER. Você será confrontado com os seus erros e acertos, com as suas dúvidas e certezas, com aquilo que você “acha” que sabe da Vida… E, como dizia o saudoso Chico Xavier, quem não vai pelo amor, vai pela dor…

 

Muita gente diz que religião é ilusão, que fé é para os ignorantes, os sonâmbulos. Eu digo a eles que sentem frente um preto-velho e ouçam, sem questionar. Abram o coração e sintam a energia, e tentem, se puderem, não se emocionar. Ouçam a risada dos Guardiões e não tremam, se conseguirem (rs…). Recebam o passe do Caboclo com seu palavreado simples e neguem a leveza de alma que sentirão depois do atendimento. E depois digam que tudo não passou de ilusão… é só isso – a Umbanda fala por si, não preciso falar por ela.

 

A minha gratidão às falanges de Umbanda que fizeram tanto por mim, mesmo antes de eu saber que meu lugar era aqui, ao lado deles. O meu muito obrigada aos meus Guias que me guardaram, me intuíram, me guiaram até o lugar certo, na hora certa, para que a minha missão de vida se iniciasse.

 

Em Dezembro eu faço 40 anos de vida e pouco mais de 5 anos de Umbanda. Saravá aos meus irmãos de Fé, saravá aos meu Guias, Mestres e Mentores espirituais. De tudo que eu vivi na vida até aqui, esta, sem dúvida, é a melhor parte… é a parte que eu levo comigo para onde for. 🙂

 

Saravá os 104 anos da UMBANDA!

Anúncios

7 pensamentos sobre “104 anos de Umbanda…

  1. Sarah minha grande amiga, irmã, confidente, ombro amigo para onde corro e que tem no meu ombro o mesmo conforto, sua história desta vida é a tradução do seu encontro com a conclusão de muitas jornadas por caminhos tortuosos, com sentimentos distorcidos, valores invertidos e metas não cumpridas.
    Vivenciar a Umbanda nesta encarnação é por em prática tudo que você aprendeu em todos os anos de existência de seu espírito, é aplicar o que você já tem dentro de você há tempos e só precisava dessa fé inabalável que cresceu junto com você nesses 40 anos para não tropeçar novamente.
    Tenho muito orgulho de tê-la ao meu lado nessa caminhada e mais que isso de sermos irmãs pela eternidade a fora.
    Espero que lá na frente, lá no futuro nossos caminhos continuem se cruzando e que sá continuemos nossos trabalhos lado a lado como fazemos hoje.
    Um grande bj.

    • Li… é isso mesmo. Ninguém se encontra por acaso. Nem aqui, nem lá, nem em lugar algum. Que a gente possa continuar a caminhada sempre em boa companhia, minha irmã! Axé!

  2. Linda história Sara… A Umbanda é realmente maravilhosa… é nela que encontro as forças e o apoio para os meus dias… tenho 2 filhos, uma menina que fez 6 anos essa semana e 1 menino de 3 anos, que faleceu no mês passado… a dor da ausencia dele é horrivel, realmente indescritivel, mas o consolo e amparo que as entidades me passam me mantem forte. Ele esta muito bem agora, em Aruanda com a vó e o vô… brincando com as outras crianças e aprendendo com os caboclos… só tenho a agradecer por ter tanta sorte em saber que alguem que amo tanto esta tão bem e receber sempre noticias dele ou visitas…. bjs fortes! Carina

    • Carina, obrigada. Sua dor dói em mim, com certeza. Nenhuma mãe deveria enterrar um filho, jamais. Acredito que nào deve haver dor maior no mundo e, sinceramente, admiro a sua coragem. Não sei se suportaria. Acredito que a saudade seria demais para mim… 🙂
      Mesmo assim, como você diz, receber as visitas de alguém que você ama tanto e lhe faz tanta falta é uma bênção, um bálsamo que somente a espiritualidade poderia te dar. Tenho certeza que ele está em ótima companhia. E esta certeza é, por certo, o alívio da sua dor: saber que hoje fazem por ele aquilo que você jamais poderia fazer por ele em vida. 🙂
      Força para você, hoje e sempre.
      Um beijão,
      Sarah

  3. Não foi e não esta sendo facil… choro todos os dias de saudades dele, meu filho era um grude comigo… e eu amava ele mais do que tudo, mas a vida não é assim não é? … feitas por nossas escolhas… O Henri precisou vir apenas para vivenciar algumas coisas… Algumas pessoas me perguntam se eu não fiquei revoltada em algum momento, e eu sempre digo que não… e isso porque a escolha de vir para ficar por pouco tempo e o momento de partir sempre partiu dele, não foi Deus e nem as entidades que tiraram o meu filho de mim, a escolha de partir foi dele…
    Eu precisei enterra-lo duas vezes…. primeiro optei pela cremação, mas não sabia que por ele ser filho de Omulu e ter um problema motor leve, deveria ser enterrado para sua melhor recuperação no plano espiritual. Fomos até São Paulo, fizemos a cerimonia (na minha familia tem muitos evangelicos… nesse momento dificil um tio meu pediu para falar algumas palavras, e eu disse a ele que ele poderia falar sim, mas depois de mim… e eu naquele momento de dor, me levantei e fui até a frente e falei com todo o meu coração pela benção de ter sid mãe de uma criatura tão iluminada… falei por uns 5 minutos e percebia que todos se comoviam e ao mesmo tempo quase não acreditavam no que eu fazia lá… mas eu não estava sozinha, você sabe, antes de chegar lá pedi para a minha cabocla me ajudar e quase senti ela me segurando e me ajudando…). O Henri realmente foi levado pois era a hora dele e ele morreu sem ter um motivo de obito, a cremação não pode ser realizada e a noite apenas começamos a sentir a presença de uma entidade forte em casa… eu não dormia nem o meu marido… era Omulu pedindo que não fizemos a cremação…. acendi uma vela e pedi esclarecimento…. e então resolvemos trazer ele de volta para Campinas, onde ele foi enterrado…. no cemiterio senti Omulu de uma maneira que nunca conseguirei explicar… ele parecia feliz e agradecido por ter feito o correto… eu tremia, mas era uma sensação muito boa….
    Recebo quase todos os dias noticias dele…. ou da Vó, do vô, da Cabocla ou pelas entidades da casa…. ontem mesmo fizemos uma gira de desenvolvimento (eu ainda estou em desenvolvimento) e veio uma criança, que vive com ele agora e disse que agora ele é feliz, diferente d equando estava na carne, que tinha o problema motor e não conseguia falar nem correr… mas ele não era perfeito no fisico, mas só fisicamente… mas ele entendia tudo e cativava sempre com aquele coração bom que ele tinha… ele escolheu vir assim para nos ensinar e tambem aprender…..
    Eu agora estou escrevendo um livro sobre ele e como ele mudou a minha vida…. a minha e de tantas pessoas… se você quiser eu te mando por email um texto que escrevi 4 dias apos o seu falecimento, escrevi para todos pois é muito chocante uma criança partir assim… sei que abalou muitas pessoas…
    Eu sempre gostei de você e dos seus textos e faz tempo que eu queria compartilhar isso com você….
    bjs fortes, Carina

    • Eu consigo imaginar Carina. Acho que ninguém consegue realmente entender uma dor dessas, mas consigo imaginar o que você sente. A dor de não tê-lo mais perto de você deve ser mesmo devastadora.
      Ainda assim, a religião que você escolheu, o caminho da espiritualidade são o testemunho de que aquele que crê e tem fé a tudo sobrepuja e vence. Não importa o tamanho da dor, da perda… você é um espírito desperto, e isso ninguém tira de você.
      Parabéns. 🙂

  4. Acho que todos que amam de verdade conseguem imaginar… não precisamos perder alguem amado para entender esse tipo de dor… esse medo da perda já nos acompanha a muitas encarnações….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s