Neferari e o Guardião

Egito

Eu não confiava em homem algum. Mulher alguma era minha amiga. Sozinha, sentada nas escarpas daquele vale de lágrimas, eu chorava minha desdita e tentava concatenar os pensamentos. Onde estaria o grande Deus Osíris? Se ele pesara meu coração sem meu conhecimento, com certeza eu não teria passado no teste… sentia-o pesar e doer em meu peito, enquanto a sede queimava minha garganta.

Olhei para meus braços, mãos, pernas e pés. Estava coberta por chagas, arranhões, sujeira. Minha túnica funerária, antes branca e perfumada, agora era só andrajos. Meu corpo, ao que tudo indicava, ainda assim continuava excitante aos olhos de alguns dos seres que vez ou outra passaram por mim. Eles me machucaram e eu fugi deles, e agora só fico aqui em cima, no morro escarpado, onde a maioria não alcança por estarem já mutilados. Com certeza eu estava no inferno… mas eu não via as serpentes e Ammit parecia não ter ainda devorado minha alma, uma vez que eu continuava viva no além-túmulo. Qual direção deveria seguir? E porque nenhum dos deuses egípcios aceitava minhas preces?

Eu já não dispunha mais do ouro de meu pai. Nem poderia pedir aos servos que me preparassem uma bandeja de frutas para ofertar no templo. Como faria para ser então ouvida?

Depois de muito sofrer, chorar e pedir, decidi então que só me restava um último sacrifício a fazer: daria meu coração, aquele que tanto me pregara peças quando em vida, aquele que me fizera definhar em tristezas, ofereceria meu coração ao grande Deus Rá, senhor do sol e da vida, em troca do fim dos meus sofrimentos.

Durante o “amanhecer” de um daqueles dias sombrios, quando víamos apenas uma lúgubre claridade avermelhada, encarei o que eu pensava ser o grande disco solar naquela dimensão infernal, ajoelhei-me contrita e então fiz minha oferta:

– Ó grande Rá! Senhor do Sol e da Vida! Ouve a minha súplica! Eu, Neferari, ofereço-te meu coração em sacrifício! Ofereço-te meu coração e juro, por meu Kha, servi-lo por todo o sempre! Aceita meu coração e livra-me deste suplício! Apaga minha memória e livra-me da vergonha e da soberba! Lava minha alma em teus raios de luz, e aquece meu corpo espiritual para que eu não mais sinta frio, fome, sede ou dor. Leva-me para os teus domínios, ó Glorioso Rá! Faz de mim tua serva e hei de me sentir abençoada para todo o sempre!

Chorei muito enquanto fazia minha prece. A claridade, que durava apenas alguns instantes, foi se esvaindo. No lugar dela, uma tormenta iniciou-se. A chuva era fria e caía abundantemente. Encolhi-me e me deixei ficar ali, ao chão, enquanto a água parecia lavar minha feridas e meu pranto. Por fim, exausta, acho que adormeci.

Quando acordei, jazia em uma cama confortável, sobre tecidos que lembravam o mais puro linho. As cores variavam do negro ao roxo e ao lilás bem claro, com objetos de decoração em tons de dourado e prata aqui e ali. Na cabeceira da cama onde eu estava, reconheci o disco solar alado e meu coração sossegou. Chorei sentida e agradeci por ter sido acolhida como neófita. Quem sabe ali eu poderia ter a chance de aprender e, no futuro, ver novamente meu coração ser pesado contra a pluma? Quem sabe então ele não estaria tão leve quanto as nuvens no céu de verão?

Notei que estava nua, coberta por uma colcha muito macia. Olhei meus braços, minhas pernas, e tudo havia voltado praticamente ao normal. Vi que eu ainda guardava algumas marcas arroxeadas e pequenos arranhões, mas nada além disso. O cheiro do sândalo exalava por todos os lados e aquilo me trazia conforto e bem-estar. Vi uma bacia dourada junto a uma ânfora, e deduzi que serviria para lavar as mãos e o rosto. Ao lado da cama, uma mesinha baixa de madeira escura continha uma bandeja circular com nozes, figos, tâmaras e uvas. Havia dois pedaços pequenos de pão e uma ânfora com algo que se parecia com leite. Meu estômago reclamou e eu ataquei aquela refeição como nunca havia feito antes. Em meio àquele ataque de péssimos modos, fui interrompida por uma criada, ou pelo menos assim me pareceu. A moça era belíssima, e trajava-se de branco, à moda egípcia. Trazia braceletes dourados em ambos os braços, e os cabelos eram ruivos, descendo até pouco abaixo da cintura. Ela sorriu para mim e disse-me que o Mestre ficaria feliz em saber que eu já estava me alimentando.

– Mestre? Quem é ele, escrava? Quem é o teu Mestre, diga-me!

A moça sorriu mais uma vez:

– O Mestre é a resposta às nossas súplicas, irmã. E eu o sirvo por gratidão e não por ser sua escrava. Ele também me tirou do inferno, como fez com você.

Enrubesci pela noção de que aquela serva se achava no mesmo patamar que eu. E o que era pior – ela sabia sobre onde eu estivera. Será que teria me visto naqueles andrajos?

– Duvido muito que nossas condições sejam similares. De qualquer maneira, gostaria de saber se há algo que eu possa vestir e se podes me levar ao teu Mestre.

A moça gargalhou com gosto, enquanto jogava a cabeça para trás e punha as mãos na cintura de modo desdenhoso. Fiquei enraivecida com aquilo, mas tentei não demonstrar. Senti certa tontura, e acabei por me sentar novamente na cama, enquanto segurava minha cabeça que não parava de rodar. Naquele instante, ouvi uma voz profunda ribombar dentro do aposento:

– O que acontece aqui, Surya?

Ergui a cabeça e o vi. Era um homem alto, corpulento. A pele era branca, e os olhos e os cabelos muito negros. Usava barba e bigode, e portava sobre o corpo uma grande capa negra que deixava à vista apenas a ponta de seus sapatos.

– Ora, ora… se não é nossa hóspede que acordou?

Percebi que continuava completamente nua e rapidamente tentei me enrolar nas cobertas, mas perdi os sentidos e caí. Quando voltei a mim estava novamente sobre a cama. O homem que eu havia visto estava sentado num banco ao meu lado, olhando-me, enquanto estendia ambas as mãos sobre a minha testa. Feixes multi-coloridos de energia saíam de suas mãos, e eu sentia um calor gostoso me invadir. Quando aquilo finalmente parou, ele baixou as mãos, olhou para mim e sorriu um sorriso bonito de dentes muito brancos:

– E então Neferari, como se sente?

Tentei me sentar mas o mundo girou novamente. Ele me auxiliou colocando uma almofada às minhas costas. Sentou-se na beirada da cama e passou levemente a mão sobre minha cabeça, como a ajeitar meus cabelos.

– Quem é você? Se você também é um servidor do grande Rá, porque veste-se assim? De onde vêm essas roupas estranhas?

O homem, a imitar sua serva, gargalhou alto enquanto pegava minha mão direita entre as suas. Beijou minha mão e foi como se uma descarga elétrica me atingisse. Levei um susto e quis retirar a mão, mas ele continuou segurando-a, enquanto olhava para mim de forma muito intensa e enigmática. Eu não consegui sustentar seu olhar, baixei os olhos e só consegui balbuciar:

– Não me machuque, por favor…

Chorei sentida, enquanto o homem segurava minha mão e me olhava. Ele tinha mãos macias e quentes, e aquele calor parecia me confortar e me dar abrigo. Será que era mau? Mas se era um demônio ou coisa assim, porque me salvara?

– Eu não sou um demônio, Neferari. – disse ele levantando-se da cama e caminhando em direção à porta. – Não para você. Aqui você ficará até que tenha consciência de seu novo estado de vida. Se quiser, poderá estudar comigo quando eu tiver tempo de lhe ensinar. Mas, lembre-se: engula seu orgulho. Aqui quem manda sou eu, e aquele que me desobedece perde direitos e ganha castigos, entendeu? Você, por enquanto, tem alguns direitos comigo, moça. Mas se permitir que seu ego atrapalhe seu aprendizado, muito em breve fará um estágio em minhas cavernas-presídio. Acredite: você não gostaria de lá. Agora, durma. Amanhã venho te ver novamente.

Ele fez um gesto com a mão esquerda no ar e eu simplesmente apaguei.

=======================================

(Trecho do livro que conta a história de Neferari, até sua redenção dentro das hostes de Umbanda. O livro ainda está em processo de desenvolvimento.)

Anúncios

2 pensamentos sobre “Neferari e o Guardião

  1. minha amada eu quero deixar essa mensagem para vc eu fiquei xocada de ouvir eu creio eu sei que esiste a umbanda e pessoas que servem a satanas como por engano / so esiste um DEUS esse e jesus cristo filho de DEUS quanta confuçao deve esta na sua cabeça tantas visao contato com seres estranhos como esses eu creio que de fato vc vil de verdade nao duvido de vc ninguen mente nesas coisas embora alguns duvide ; os seres espirituais essistem agora quero tbm lhe avisar tenho plena certeza do que digo so temos um DEUS e um salvador seu nome e jesus livro de JOAo 17 v 3 vc esta se entregando a muitas coissas malignas da para vc saber vc nao e tampada de entendimento para nao entender o que acontece com vc essas visao DEUS revelou a vc o seu estado fisico para que vc saia da casa maldita da umbamda e va casa de DEUS IGREJA EVANGELICA servir ao unico DEUS ou entao isso que vite vai acnntecer com vc sim satanas muou sua aparencia para te enganar oh NEFERARI ne esse o seu nome saiba disto ; jeusus aceita todo pecador vc ja fes pacto com o diabo mas jesus venceu a morte e o diabo para te dar a vitoria so jesus tem as chaves do imferno saiba disto tbm o diabo mente o tempo todo isso nos ensinou jesus ele e o pai da mentira nos ensinou jesus; ele e o unico BOM PASTOR jesus disse eu sou o bom pastor que dou a minha vida pelas sua ovelhas vc esta comprada pelo sangue de jesus se o receber e deixar esta locura de umbanda e servir a outros deus q na verdade nao e deus porq DEUS E SO UM o nosso dEUS JEOVA E SEU FILHO JESUS JOAO 17 v 3 acete a vida nao entregue sua vida ao diabo tudo que esta fora da do evangelho e diabolico

    • Boa tarde, Graça. Agradeço sua visita.
      Primeiro, eu sou Umbandista, estudo e atuo como médium há anos já. Eu tenho a minha fé, e nela não existe espaço para o diabo.
      Agora, quanto à minha confusão, eu acredito que confusa é você que, embora sendo evangélica, perde seu tempo lendo e criticando a religião alheia. Qual o problema? Está precisando procurar em outros lugares algo que sua religião não te dá? Ou sua fé é tão fraca que você precisa convercer outras pessoas para se sentir em paz?
      Por favor, respeite minha religião como eu respeito a sua. Não perca seu tempo falando do diabo, porque eu jamais acreditei nele. Vá viver sua vida e deixe que os outros vivam as deles. Preocupe-se contigo, que eu cuido de mim, ok?
      Seus próximos comentários não serão publicados, uma vez que seu português, além de tudo, é quase impossível de compreender.
      Axé!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s