Quanto custa uma amarração?

A noite estava estrelada e uma lua cheia iluminava a rua poeirenta daquele bairro afastado de periferia. O barracão era simples, mas estava limpo e arrumado com esmero. O congá continha poucas imagens, mas estava enfeitado de flores, velas e incenso caseiro feito de ervas aromáticas, imprimindo ao local uma atmosfera de tranquilidade e acolhimento.

Uma fila enorme já se formava na porta, e pouco a pouco os filhos de fé foram chegando. As roupas eram simples, mas muito brancas. Chegavam em silêncio, cumprimentavam a assistência ainda na fila, e entravam de cabeça baixa, em reverência aos poderes assentados naquele local.  Ao adentrar no espaço da gira, ajoelhavam-se, cruzavam o solo, e então levantavam-se a caminho do congá. O chão de terra vermelha batida tingia seus uniformes, mas aqueles filhos de fé não se importavam, pois aquelas marcas eram a confirmação de sua submissão aos poderes divinos. Muitos deles ainda paravam diante do congá, e ali ajoelhavam-se e encostavam a testa no solo, fazendo pequena prece aos seus guias e orixás. Todos deixaram seus pertences nos vestiários que se localizavam ao fundo, passando por um corredor localizado à direita, por trás do congá. Ali também havia duas salas de cerca de 6 metros quadrados cada, destinadas ao recolhimento dos irmãos de fé em oração, onde estavam assentados muitos elementos dos orixás, guias-chefes e guias de esquerda daquela casa.

Às 19:00 horas em ponto os portões se abriram para a consulência, e às 19:30, uma senhora de cerca de 80 anos adentrou o terreiro com sua saia rodada alvíssima. Baixa e corpulenta, tinha a pele morena e olhos brilhantes de um tom esverdeado que parecia ver além das pessoas. Só sua presença já fez com que o zumzumzum da conversa fosse baixando de tom até que o silêncio passou a reinar soberano no local. Aquela senhora deitou-se com o rosto colado sobre uma esteira estendida na frente do congá e ali fez sentida prece de agradecimento por poder, uma vez mais, servir de instrumento aos seus amados guias de Umbanda e aos seus orixás. Naquele momento, o guia chefe da casa intuiu-a sobre a palestra da noite. A senhora suspirou fundo e, auxiliada por um filho de fé, levantou-se e encaminhou-se até uma cadeira que fora posicionada de frente para a consulência.

Ali não haviam microfones, nem ar condicionado, e a luz elétrica era pouca. Ainda assim, sua voz soou potente e límpida, sendo ouvida por todos que não conseguiam desgrudar os olhos dela:

“Boa noite, meus filhos. Que a paz de nosso amado Pai Oxalá esteja com todos. Bem-vindos a esta casa de caridade, cujo intuito é servir à espiritualidade maior da Umbanda. Hoje nossos trabalhos serão realizados sob o comando de nossos guardiões e guardiãs de esquerda – nossos amados Exus e Pombogiras. Enquanto rezava e agradecia a bênção de poder servi-los, nossos amados irmãos espirituais me pediram que contasse a vocês sobre a dura realidade dos trabalhos de amarração. É uma infelicidade que muitos de nossos irmãos na carne ainda acreditem que este é o melhor caminho para a felicidade. Uma infelicidade e um engano. Amarrar, meus filhos, significa submeter à sua vontade; significa anular a vontade do outro e torná-lo um boneco, um joguete, um robô. Um ser amarrado a você será sempre isso: um boneco sem vida e sem vontade própria, cuja força vital vai se esvaindo rápido. Por isso, nosso alerta: desista desse intento agora, antes que seja tarde. Mas, se apesar desse alerta, você ainda persistir no seu intento, eu tenho o dever de alertá-lo sobre as consequências deste ato desumano. Primeiro, que fique bem claro, esta é uma casa de fé; aqui nós não fazemos este tipo de trabalho, e se essa é sua intenção, peço que se vá. Mas antes, imploro que ouça meu relato. – a dirigente respirou fundo e fechou os olhos, parecia tomada por uma força superior. Quando abriu os olhos e começou a falar, sua voz soou alta e clara, carregada de magnetismo, e mais masculina que o normal.  – Do alto de seu orgulho, você decidiu amarrar o alvo de seu afeto à você. Seu desejo é que ele não veja mais ninguém, e só seja feliz ao seu lado; que ele só tenha olhos para você, e que nada nem ninguém se interponha em seu caminho. Tanto buscou e procurou que finalmente encontrou um desavisado para concluir o serviço. Pagou caro, vendeu parte do que tinha, mas o importante é que conseguiu o que queria: ele finalmente agora é só seu. Só tem olhos para você, te cobre de carinhos, tornou-se um cachorrinho aos seus pés, faz tudo que você pede. Em breve estão casados, desfrutando da vida em família, felizes e realizados. Você engravida e passados cerca de dois anos de sua união, seu príncipe encantado começa a virar sapo. Você nota que ele envelhece mais rápido que o normal; os cabelos estão ficando grisalhos antes do tempo, e a pele, antes viçosa e firme, já mostra sinais do envelhecimento precoce. Mas nada disso importa, porque você o ama, não é mesmo? Você então nota que seu companheiro já não se mostra tão entusiasmado e não tem mais vontade de amá-la como fazia antes. Ele se cansa rápido e suas noites de namoro resumem-se a menos de quinze minutos de união. Mas, o que importa isso se você o ama? O tempo passa e ele não consegue mais cumprir seu papel de homem na cama. Os cabelos estão brancos, embora ele tenha pouco mais de trinta anos apenas. Vocês procuram médicos, fazem tratamentos, mas nada funciona, seu amado está impotente. Mas o importante é que vocês se amam e estão juntos, certo? Você então nota que ele fica cada vez mais tempo em casa, quase não brinca com as crianças, e sempre você tem que decidir tudo sozinha: da compra do supermercado às roupas que ele veste. À esta altura ele já engordou bastante, como resultado da falta de energia e de vontade que tomam conta de sua vida. Ele também está tendo problemas no trabalho, e ultimamente anda perdendo muito dinheiro e bebendo além da conta. Mas, com certeza, o amor de vocês há de superar tudo isso. Você já não tem tempo para nada, lava os cabelos quando dá, não faz mais as unhas, e o dinheiro agora está curto, porque seu amado perdeu o emprego e passa os dias com o traseiro grudado no sofá, os olhos vidrados na televisão. Esse tormento já dura quase dez anos e você não sabe quanto tempo mais agüentará. Ele então começa a presentar sintomas febris, e acaba sendo diagnosticado com câncer de próstata. O dinheiro que já era curto, fica mais escasso, e você passa a trabalhar três períodos para comprar parte do medicamento necessário. Mas o importante é que ele é o homem da sua vida e há de recuperar-se. Alguns anos de sofrimento e dores e, finalmente, 15 anos depois de tê-lo amarrado, você tem de comparecer ao enterro de seu grande amor. Não fosse a amarração, ele viveria pelo menos até os 70 anos de idade; ou seja, além de amarrá-lo, você o matou. Mas, enfim, ele foi amarrado a você, e no momento em que seu espírito se vê desligado do corpo inerte, ele é imediatamente transportado para o seu lado. Na dimensão espiritual, ele é um autômato, seus olhos não tem cor, parecem nuvens cinzentas. Ele não tem vontade alguma, só deseja uma coisa: estar com você. E assim, dia a dia, ele gruda em seu campo vibratório. Você dorme mal, não consegue se relacionar como ninguém, as crianças adoecem, e em sua casa, por todo lado, sente-se um cheiro de cadáver insuportável. Você então deicde buscar auxílio espiritual. Vinte anos depois de ouvir a esta palestra, você se lembra da casa de caridade que pode ser sua única salvação. Então você comparece aos trabalhos, chora, reza e pede a Deus que tenha compaixão de sua alma. Aqui dentro você se sente um pouco melhor e isso lhe dá esperanças. Na consulta com o guia, ele lhe dá um passe e manda que você ore em casa; mas a verdade é que o guia nada pode fazer – o trabalho negativo foi feito por você segundo sua vontade e só você poderá desfazê-lo. Como? Arrependendo-se, servindo ao Altíssimo e, quem sabe assim, quando do seu desencarne, talvez, esse homem que você tanto ama venha a te perdoar e você finalmente se veja livre de sua própria insanidade. – a senhorinha então fechou os olhos e respirou fundo uma vez mais. Um lágrima silenciosa desceu de seus olhos. Ela então abriu-os e encerrou a palestra – É isso, meus filhos. Guardem esse alerta em seus corações. Não se esqueçam que orgulho e cobiça não são amor. Agradeço a sua presença esta noite e peço concentração e silêncio durante os trabalhos.”

Levantou-se encaminhando-se ao congá com seus filhos de fé perfilados atrás de si. A consulência estava silenciosa e pensativa; alguns poucos levantaram-se e se retiraram, ignorando o alerta da espiritualidade. Os médiuns ajoelharam-se e deram início aos trabalhos.

(Esse texto é uma obra de ficção, inspirado por minha amada Guia Chefe, Vó Benedita de Aruanda)

Para saber mais:

AMARRAÇÃO, psicografado pela Sacerdotisa Dinan Dhom Pimentel Sátyro

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Um pensamento sobre “Quanto custa uma amarração?

  1. EXTRAORDINÁRIO este texto,que de ficcional nada tem,é verdadeiríssimo,sumamente sábio,sapiente – e ….. emocionante!!! Não me canso de afirmar,sempre e sempre di-lo-ei,aqui na web e muitas mais vezes ao vivo – A UMBANDA É,EM SI MESMA,SACERDÓCIO SAGRADO,SABEÍSTA,UNIVERSALISTA E KÓSMICO – e também Ela necessita de uma imensa faxina,libertando-se de maus médiuns e consulentes carregados de orgulho e trevas,bem como libertando-se também de bruxos imundos,feiticeiros espurcos,enfim,libertando-se de tudo o que configure soberba repugnante,desamor,egoísmo e todo tipo de desequilíbrio do ego inferior terreno. Não dá para entender,nem aceitar,não no contexto da Kosmosofia e da Kosmoconsciência,que permaneçam,por muito mais tempo,neste orbe,pessoas tão,tão imensamente desqualificadas,a ponto,quer de se sentirem donas de orixás ou de guias,quer tentando evocar tais forças contra seus eventuais desafetos,quer usando tais forças para atenderem seus interesses espurcos e mesquinhos,e digo isso,quer quanto aos maus praticantes de magias imundas e sortilégios idólatras,quer quanto aos consulentes eivados e pejados de maus sentimentos e péssimos instintos de posse e domínio nefandos,funestos,mesmo. Estamos numa época que nos traz…..RAPIDÍSSIMA COLHEITA de tudo o que é plantado – cautela,portanto,com O QUE FAZEMOS NO CAMPO DO OCULTO,nunca é demais alertar,no sentido mais abrangente e geral possível e aqui cabível.

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