A Guardiã de Mistérios – Parte 1

guardiã

Andava pelas densidades negativas próximas à crosta. A paisagem era sempre escarpada, com pouca ou nenhuma vegetação. Como estava próxima à dimensão dos encarnados, os dias eram marcados por uma luminosidade difusa, e as noites eram pontuadas de certo “luar” melancólico. Vestia-se inteiramente de branco – a roupa assemelhava-se ao uniforme dos antigos Ninjas, com calças ajustadas abaixo dos joelhos e sapatos que mais lembravam meias. Os cabelos, compridos e negros como a noite, estavam trançados do topo da cabeça até as pontas e a capa, com capuz, cobria-lhe totalmente, deixando ver apenas o nariz fino e a boca rosada. Toda debruada em dourado, os desenhos eram de símbolos entrelaçados. Conforme caminhava, o branco da capa parecia iridiscente, furta-cor… dir-se-ia inclusive que aquele era um tecido “vivo”.

Caminhava lentamente, como quem não tem destino certo, e viu-se subitamente atacada por um desencarnado que vinha em sua direção em desabalada carreira, gritando-lhe impropérios, brandindo os punhos fechados de maneira ameaçadora. O desencarnado expunha partes do corpo sob a roupa que estava rota e parecia ter vindo da Europa do século XVIII…

– Maldita! Assassina! Você vai se arrepender de cruzar meu caminho! Desgraçada, eu te mato agora!

Um tanto surpresa de início, a Guardiã serenou e respirou fundo. Suas mãos e os antebraços até a altura dos cotovelos transformaram-se em puro cristal transparente. Ela então apontou-as na direção do espírito que lhe atacava e projetou o Mistério em sua direção. Ele estancou, preso ao chão por “sapatos” de cristal transparente que o imobilizaram até os joelhos. Continuou tentando mover-se, desequilibrava-se e gritava furioso. A guardiã aproximou-se e ele tentou aplicar-lhe vários golpes com os punhos, sem sucesso. Ela cruzou os braços e suas mãos voltaram ao normal. Como ele continuava gritando impropérios, ela simplesmente fez um gesto com a mão esquerda no ar, e sua voz cessou – ele não conseguia mais abrir a boca, nenhum som era emitido.

A guardiã então respirou, retirou o capuz, olhou-o fundo nos olhos e falou pausadamente, numa voz que parecia ecoar ao infinito:

– Da maneira como vejo, você enganou, ludibriou, chantageou, e por fim conseguiu um casamento vantajoso comigo. Como se isso tudo não bastasse, você me espancou, usou e abusou durante anos. Eu, não aguentando mais a situação em que você colocou-nos a ambos com seu ego e sua arrogância, e depois de ter implorado a você inúmeras vezes que me libertasse daquele inferno, finalmente sucumbi ao erro e te envenenei. Não me alegro com isso. Mas, ainda assim, e verificando o seu sofrimento, compadeci-me de você e cuidei, zelosamente, de todas as suas dores e necessidades até que finalmente sua morte chegou. Ainda em vida, paguei por esse erro com a fome, a miséria, o medo, a vicissitude, e o estupro constante de meu corpo. Alguns anos depois eu também desencarnei.

A guardiã fez uma pausa como se recordando o passado distante, respirou uma vez mais e continuou:

– Da maneira como eu vejo, não te devo nada, uma vez que errei e aprendi com meus erros. E para comprovar minha teoria, ativei mistérios divinos contra você, sem nenhuma dificuldade. Se eu fosse a devedora nessa história, a Lei Maior jamais me teria atendido… e no entanto aí está você, e aqui estou eu.

Terminou a conversa com um sorriso de canto de boca, que muito enfureceu o desafeto à sua frente. Liberou sua voz, que então começou a gritar impropérios novamente:

– Lei? Que Lei?! A lei aqui quem faz sou eu, você não é NADA! Sua vadia, sua bruxa!!! Você é o demônio e eu hei de me livrar de você de uma vez por todas, com ou sem essa sua lei ridícula! Ahahaha! Lei! Você e sua lei são duas idiotas! Voc…

O desencarnado não teve tempo de proferir mais nada. Inflando-se de ódio contra o blasfemo à sua frente, a Guardiã transformou-se. Sua altura triplicou-se; no lugar de suas vestes brancas, uma longa cauda de serpente negra se formou. As escamas pareciam diamantes negros, brilhavam conforme o réptil movia o guizo que chacoalhava sem cessar. Elas subiam pelo corpo da guardiã e cobriam seu torso e seios como se fossem um vestido negro. Seu rosto, antes sereno e belo, adquiriu feições de raiva, com dentes longos e pontudos. Os olhos, antes claros e brilhosos, agora estavam vermelhos e injetados. Suas mãos eram garras e, com elas apontou em direção ao desencarnado que, paralisado por aquela visão assustadora, parecia derreter transformando-se numa massa disforme e escura.

A criatura falava, e o som de sua voz cortava como o aço:

– Blasfemo!!! Tu não dirás mais nenhuma palavra, pois agora és maldito! Daqui não sairás até que tenhas purgado todas as palavras insanas que jogastes aos meus pés! Hás de aprender a honrar a Lei Divina, e JAMAIS falarás a uma Guardiã de Mistérios como acabas de fazer, jamais!!! Voltas à tua forma primeva e purgas teus males neste chão duro e poeirento, maldito!

A cauda sibilava, e o desencarnado tornou-se pouco mais que um homúnculo nu, enlameado em sua própria maldade e ignorância. Contorcia-se e gemia em posição fetal, já alheio a tudo à sua volta. Em um piscar de olhos a guardiã retomou sua forma de luz – suas vestes brilhavam mais que antes e ela ergueu a mão direita em concha sobre aquele ser em sofrimento:

– Fica, pois, aqui neste lugar. Sente na pele tudo aquilo que fizeste de mal, principalmente às mulheres de tuas vidas. Tua consciência há de recordar-te de tudo, até que compreendas que é a Lei da Vida quem determina como, quando, onde e porquê. Para proteger-te e ajudar-te, coloco ao redor de ti esta gaiola de luz cristalina. Aí, feito o animal que ainda és, ficarás confinado até que estejas pronto para retomares tua caminhada. Estas grades de pura luz cristalina serão tua prisão, mas também tua proteção… nada, nem ninguém, há de fazer mal a ti enquanto estiverdes sob a proteção da Luz Cristalina. Conforme fordes ganhando consciência de teus atos, a luz desta cela doar-te-á a energia que necessitas para recompor teu corpo espiritual, emocional e mental. Quanto mais consciente de teus erros e mais arrependido estiverdes, mas fracas estas barras cristalinas ficarão, até que nada mais sobrará dela. De dentro de tua prisão tu hás de nascer de novo, consciente do ser divino que és…

A guardiã respirou e uma gaiola de luz cristalina formou-se ao redor daquele que jazia ao chão. Ela projetou uma vez mais e as barras solidificaram-se em cristal translúcido e pulsante. Enquanto assim procedia, mentalmente percebeu a aproximação de um guardião às suas costas, e então estendeu a mão esquerda na direção contrária e deu a ordem mentalmente: Pára e ajoelha!.

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