A Guardiã de Mistérios – Parte Final

Todo o ambiente estava mudado. O que antes parecia uma caverna lúgubre e escura, agora lembrava muito o interior de uma catedral gótica. Vitrais multicoloridos surgiram aqui e ali, por onde adentravam fachos de luzes brilhantes. Atrás do trono, agora reconstituído em tons de ouro velho, estava uma grande rosácea luminosa que exibia lindíssima cruz central. Assentado em seu trono estava uma grande caveira vestindo um manto negro. Tinha quase dois metros de altura e segurava na mão esquerda um alfanje de cabo branco e lâmina tão transparente que parecia feita de vidro. A caveira mantinha a cabeça baixa enquanto olhava para a guardiã que agora estava ajoelhada nos degraus de seu trono: ela descobrira a cabeça e mantinha a posição em respeito aos mistérios ali assentados.

– Levanta guardiã, deixa que eu te agradeça.

A guardiã levantou-se, embora mantendo a cabeça baixa, e a caveira tocou sua testa com a ponta do alfanje.

– Recebe as lâminas da Morte para que possas continuar protegendo a Vida em todas as esferas.

A guardiã emocionou-se com o presente recebido.

– Sabes quem sou eu?

– És o legítimo regente deste trono, meu senhor.

– Sim, Eu Sou. Mas sou também um Orixá Menor. Sou aquele que rege sobre a morte nesta esfera da Vida. Sou o par magnético daquela que te espera, filha… tu bem o sabes.

– Senhor, eu… o senhor me desculpe, mas não desejo esta tarefa. Deixa-me aqui, onde sou mais útil… por favor.

– Ah, e quem fala agora?! A guardiã ou um espírito amedrontado que tem receio de fracassar na carne?

A voz do caveira ecoava pelas estruturas da catedral. A guardiã sentiu as lágrimas descerem pelo rosto. A caveira levantou-se e desceu os três degraus que a separavam da guardiã. Conforme descia, transformou-se: sua capa antes negra tornou-se branca e brilhante. Seu corpo regenerou-se completamente e via-se agora um ancião de longos cabelos brancos, ainda segurando o alfanje na mão esquerda. Ele também diminuíra de tamanho, e agora estava apenas alguns centímetros mais alto que a guardiã. Colocou então a mão sobre o ombro dela e continuou:

– Filha, muitos passam por isso. É normal sentir medo…

– Não, senhor… não é medo. Mas lá eu serei cega. Surda. Tudo o que eu sei, hei de esquecer. O senhor imagina quantos tentarão me derrubar? Como poderei ajudar a quem quer que seja dessa maneira?! Serei fraca perante aos ardis da escuridão…

– Filha, confia na providência divina. Aquieta teu coração e confia que o Pai sabe o que faz. Ele te quer na carne, então obedece a Vida. Nós estaremos aqui contigo, sempre. Tua Mãe te espera para dar-te a incumbência que terás. Vai e faz o teu melhor. Nós te olharemos e vigiaremos daqui.

Atrás da guardiã apareceu uma linda moça. Ela era pura luz rosa, e parecia transparente quando comparada aos demais ali presentes. O velho então tocou a fronte da guardiã e ela caiu em sono profundo, diminuindo de tamanho até a forma de um bebê de poucos meses de vida. O velho segurou-a com carinho enquanto a moça espargia sobre o bebê finíssimos fios brilhantes que formavam como que um casulo prateado à sua volta, deixando somente seu rostinho de fora. Quando a bebezinha estava totalmente embrulhada em fios prateados, o velho abraçou-a mais uma vez e a entregou à moça, que a recebeu com um sorriso.

– A Senhora das águas está à sua espera. – completou ele, e apontou para um portal que havia aberto à sua direita. Do outro lado, via-se uma praia de águas calmas de cor turquesa, e areia branca e brilhante.

A moça passou pelo portal e caminhou sobre a areia da praia. Conforme caminhava, a bebê que carregava crescia e acabou por transformar-se numa jovem adolescente de cerca de 12 anos. A guardiã já não se lembrava mais de quem era, mas estava contente de andar pela praia com aquela moça tão linda e alegre. Por fim parou de frente para a água e viu que uma mulher caminhava sobre as águas em sua direção – ela vestia um vestido diáfano de cor azul muito clara; em seu pescoço havia voltas e voltas de pérolas de todas as cores; seu cabelo era negro e descia em cascata pelas costas; a pele, muito branca, parecia coberta de pó de diamantes e sobre a cabeça ela usava uma coroa diamantada com uma grande estrela de cinco pontas central e outras seis distribuídas em volta. Era realmente uma visão belíssima.

A menina olhava a Senhora das águas de boca aberta e instintivamente caiu de joelhos na areia. A mãe d’água alisou seus cabelos com carinho e pediu que ela se levantasse.

– Filha, tenho uma tarefa para ti. Vais ao mundo auxiliar ao teu próximo. Vais ao mundo ser sacerdotisa dos mistérios divinos. Eu serei a regente desta tua encarnação e, juntamente com teu Pai guardião, seremos teu esteio, tua força, tua luz e tua sabedoria. Para esta tarefa hás de dar teu consentimento aqui, frente a todos que te cercam.

A menina então verificou que, perfilados à sua volta, haviam dezenas, talvez centenas de seres dos mais variados tipos – índios, negros, orientais, homens armados, mulheres belíssimas… todos traziam seriedade e confiança no olhar. Todos aguardavam ansiosos pela resposta da menina.

– Entendes o que te peço, filha?

A menina assentiu com a cabeça.

– Recebes minha coroa de bom grado, aqui perante teus irmãos?

A menina assentiu uma vez mais, sem ter muita certeza do que fazia. Sobre sua cabeça formou-se uma coroa dourada cujo topo atingia cerca de meio metro acima. Em questão de segundos ela caiu de joelhos e sentiu a cabeça tombar para frente ao peso da coroa que parecia ser feita de ouro puro e brilhante. A menina lutava para manter a cabeça reta, mas o peso era insuportável. Em seu coração ela sentia a dor e o medo se alastrar; medo do desconhecido; medo do peso daquela responsabilidade. Mentalmente via imagens tristes, sem compreender se aquelas cenas eram seu passado ou seu futuro. Sentia que não era capaz de carregar tamanha tarefa e foi sendo massacrada pelo peso daquela coroa. E foi então que ouviu a voz da Mãe d’água:

– Filha, confia. Tira o medo do seu coração. Confia no Poder Maior que nos criou a todos… se te livrares do medo que te consome, tua coroa será leve como uma pluma…

A menina respirou fundo, mas ainda assim estava difícil manter a coroa.

– Todos esses que te cercam estarão contigo. Todos nós seremos teu exército. Tu não estarás sozinha enquanto lembrar-te da Fé e do Amor do Cristo. Hás de ser vitoriosa! Agora, levanta!

E ela lembrou-se do rosto do Amado Mestre… sabia que o havia visto pelo menos uma vez. Lembrou-se dos olhar amoroso e límpido, das palavras seguras e bondosas. Sim, ela seria fiel à mensagem dele sempre, e só a lembrança daquele rosto encheu seu coração de calor e otimismo. A menina respirou uma vez mais e levantou-se. Não sentia mais o peso da coroa, que passou a brilhar ainda mais sobre sua cabeça. Todos à sua volta a aplaudiram e ela sentia a força da amizade e do carinho de todos eles. Abraçou a Mãe d’água com fervor e, novamente, tornou-se um bebê em segundos. A Mãe d’água depositou suas lágrimas sobre o rosto da pequenina e levou-a em direção ao mar…

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