Noite de Halloween (Shabbat de Samhain)

 

 

Dançaremos
a dança dos dias moribundos
e da vida que dorme.

Dançaremos
sobre folhas mortas, frias,
a chama humana e espiral da união.

Dançaremos
enquanto o Deus Cornudo cavalga
pelos céus

Dançaremos
à música da corrida de Seus cães
farejadores, uivando em coro

Dançaremos
com os fantasmas daqueles
que já se foram

Dançaremos
sob o olho escurecido de Samhain
Dançaremos.

Samhain2012-2

Eu cresci em uma pequena comunidade ao lado de uma grande colina, e digo isso, porque era lá que realizávamos nossas festas. Oito vezes por ano, todos subíamos ao alto da colina, e realizávamos os diversos ritos de comunhão e agradecimento à Deusa Mãe e ao Deus Cornudo (Cernuno).

Mas de todas as festas, sempre a que mais me atraiu era a da noite em que celebrávamos o fim dos dias quentes e início do frio e das noites mais longas (Samhain). Era o descanso da amada Deusa, que iria repousar pelos próximos seis meses para se refazer e poder novamente verter os frutos de seu ventre e de sua terra.

Naquela noite, enormes fogueiras eram acesas no alto da colina, e lá passávamos do entardecer ao amanhecer, em profunda comunhão com o que havia de sagrado nesta terra.

Derramávamos sobre o leito da Deusa todo o nosso amor por ela, e por seu par, o Deus Cornudo. Esse amor vinha na forma de nossas preces, de nossos cânticos, e do amor que era transmitido entre Druidas e Bruxas.

Naquele tempo o pecado Judaico ainda não havia se enraizado em todas as terras, e o amor daquelas relações era puro e verdadeiro. Era o amor que a Deusa e o Deus tinham por si e por seus filhos, e desse amor, frutos eram colhidos e recebidos com todo carinho por nós. Grandes Druidas e grandes Bruxas nasceram do amor celebrado naquela noite, assim como de outras noites de celebração.

Mas conforme o tempo passou, minhas obrigações de Druida me obrigaram a deixar o seio da minha família, pois às mulheres cabia a prática da magia, da cura, da preparação dos unguentos e poções. Os homens mais novos eram responsáveis pela caça e pela colheita das ervas e flores. E conforme amadureciam, eram mandados para as cidades, inicialmente para realizar o comércio, pois era uma época perigosa para qualquer mulher andar sozinha, e quando atingiam o conhecimento necessário, eram enviados para procurar as curandeiras, parteiras, magas e bruxas das cidades mais distantes e lhes transmitir novos conhecimentos.

Vale a pena lembrar que naquela época não havia o medo que hoje existe destas pessoas; ao contrário, em todo lugar, a curandeira era celebrada, e quando um Druida chegava era bem recebido, pois nosso interesse era sempre ajudar e ensinar.

E os anos se passaram, e eu quase sempre ficava afastado de minha família, de minhas irmãs e irmãos… mas todo ano, quando o outono se aproximava, eu retornava para celebrar mais uma festa e ver as fogueiras queimando e iluminando o céu.

Quantas vezes fui escolhido para representar a fertilidade do Deus Cornudo e assim amar o ventre gerador da Grande Mãe! Quantas vezes amei apenas ficar sentado, sentindo o amor que eles tem por nós me inundar!

Mas os tempos estavam mudando, a Cruz que se espalhou com grande facilidade pelo seu recado de amor e fraternidade agora queimava com aço e fogo. E foi assim que retornei ao lar ao final de mais um longo período viajando, e de longe o cheiro de carne torrada invadiu minhas narinas. Corri o mais rápido que pude para o alto da colina, e lá estava a grande Cruz fincada bem no meio e, ao seu redor, fogueiras terminavam de queimar, centenas delas… queimando minhas irmãs.

Duplamente covardes aqueles que matam em nome de Deus, pois são incapazes de atribuir-se a responsabilidade por seus atos criminosos!

Ali permaneci, estarrecido, ouvindo os gritos e gemidos de choro, e quem chorava não eram as almas de minhas irmãs queimadas, pois elas já estavam longe, amparadas. Quem chorava era a própria Deusa, que via seu chão sagrado maculado com o verdadeiro pecado: o sangue dos inocentes.

Odiei aquela cruz! Odiei cada Padre ou Frei que conhecia, mesmo racionalmente sabendo que eles não compactuavam com aquelas barbáries… e ali, naquela colina, morri odiando terem me tirado o que aprendi tanto a amar.

Mas a vida não é ódio, e ele nunca pode nos conduzir. Não tardou para o ódio me consumir e eu consumi-lo de volta, e então segui minhas existências amparado pelo Pai, que também é a Mãe, pois desde aquela época sabíamos que a fonte geradora é uma só – é a vitalidade fertilizadora Masculina, mas também é o ventre gerador Feminino.

Eu relato aqui curtamente minha história para que vocês entendam um pouco mais sobre essa noite que celebram hoje. Libertem-se das idéias pré-concebidas e saibam que a história sempre é contada pelos vencedores… e o pouco que resta da nossa fé é sombra do que foi outrora.

(Inspiração enviada ao meu marido e assinada por um espírito que se nomeou apenas como Druida. Nossos mais sinceros agradecimentos por suas palavras esclarecedoras.)

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Para saber mais:

(Introdução, revisão e formato por esta que vos escreve tão raramente hoje em dia…)

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