De Natural a Guardião do Amor

Dianae - Pan and Selene

Meu ser é antigo. Talvez tão antigo quanto a formação deste sistema planetário. Eu e meus irmãos somos sustentados pelo Amor e pela energia Geradora Universal. Trabalhamos incessantemente para que a energia geradora se espalhe e a vida se multiplique por todos os lados, sob todas as formas, sejam elas materiais ou não.

Hoje em dia ficamos conhecidos pelas alegorias e pinturas dos Sátiros. Embora não tivéssemos exatamente a forma que hoje nos é atribuída, ainda assim, muito do que dizem era real na época em que as religiões naturalistas eram maioria sobre o vosso planeta. Nossa música e a energia que gerávamos a partir de nossas danças, de nossa alegria, criava a atmosfera perfeita para que os seres se unissem e gerassem de si a Vida. Assim, éramos oferendados durante os rituais de plantio e colheita, e no início da maioria das estações do ano.

Era maravilhoso ver a energia do amor fluir e densificar-se sobre os corpos dos amantes. Era lindo ver o fruto daquelas uniões crescer nos ventres daquelas mulheres e depois poder vê-los nascer e crescer respeitando a natureza e os seres viventes. Era um tempo de pessoas e hábitos simples, mas cheios de sabedoria e riqueza espiritual.

Com o tempo, fui me sentindo cada vez mais atraído por aqueles rituais. Queria estar presente em todos eles, auxiliar e sentir a alegria inebriante que, ao que me parecia, somente os espíritos humanos conseguiam desfrutar. Impossível descrever as espirais de fogo líquido que subiam e geravam de si calor, abundância, amor, gratidão. Aquelas pessoas dançavam, cantavam e festejavam a vida de uma maneira totalmente desprovida de culpa, pois o pecado só surgiu com a cegueira do homem frente às verdades universais.

Muitas vezes colei-me ao máximo aos corpos fluídicos daquelas pessoas, só para sentir um pouco mais daquela alegria, daquela energia divina que só eles conseguiam gerar. Muitas vezes fui alertado pelos Sagrados Tronos Divinos de que aquilo não poderia continuar, de que eu estava passando do limite estipulado para interação entre seres naturais e espíritos. Mas ainda assim eu queria estar junto daquelas pessoas, e pouco a pouco fui deixando meus afazeres de lado. Mas eu não era o único – naquela época vários de nós estavam tão “apaixonados” por aquelas criaturas geradoras de vida e alegria que passaram a cruzar a fronteira entre dimensões durante rituais, tanto públicos quanto privados… para então unir-se energeticamente a homens e mulheres humanas. Estavam negativados, tanto humanos quanto naturais.

Grande foi o desequilíbrio naqueles tempos. E logo seguiu-se um movimento inicial de caça à bruxas e bruxos e aos conhecimentos naturais que por muito tempo haviam nos sustentado. Entrei em desespero. A alegria, o culto à vida, as energias geradas… tudo foi sendo consumido em sua própria negatividade.

Eu já não era um natural. Havia quebrado muitas regras, havia auxiliado no desequilíbrio daquelas pessoas e daquele sistema de forças. Mas meu “castigo” foi brando: minha consciência levou-me a humanização, e eu encarnei como espírito humano. Tive pouquíssimas encarnações, mas em todas elas a energia de encantamento e desejo que eu gerava era difícil de suportar e a maioria das incautas sucumbia a um pedido meu.

A cada morte do corpo físico, mais e mais minha consciência me alertava dos erros cometidos. Eu me sustentava nas “sensações” geradas através da união sexual, mas amor era algo que eu não conseguia sentir. Terminado o ato, eu me sentia vazio, oco, desprovido de toda a humanidade que, um dia, eu quis tanto conhecer. Caído em esferas negativas, chorei, implorei o perdão dos Tronos Divinos, pedi a todas as forças geradoras da vida que me permitissem ser útil de alguma outra maneira, pois já não suportava mais estar vazio daquela maneira.

E foi então que eu o ouvi.

– Ahahahahah… então, ex-natural do Amor, cansou de brincar de humano depravado? Ahahahahaha…

Era um ser enorme, todo coberto em manto negro. Eu não via nada dele, mas seus olhos tinham um brilho estranho, como um fogo líquido, azulado…

– O que foi? Perdeu a voz também? Essa voz tão linda que encanta a tudo e todos? Ahahahahaha… aposto que agora perdeu a vontade de cantar, não é? Ahahahahah…

Eu era só andrajos. Tinha a aparência de um velho ressequido, e mal conseguia me locomover. Meus cabelos estavam brancos e ralos. Meus olhos, vítreos e sem brilho. Minha garganta doía de sede…

Mentalmente, perguntei quem ele era. Pedi que, se estava ali para acabar com meu sofrimento, que eu dava graças ao Criador de Tudo por sua bondade para comigo. Pedi que ele olhasse por todos aqueles que eu havia, em minha ignorância, desencaminhado. Lembrei de meus irmãos naturais e pedi também pela saúde e alegria deles. Pedi que minha desdita servisse de exemplo para que nenhum deles mais viesse a cair como eu caí.

Finalizada a minha rogativa mental, lembrei-me de uma antiga canção que nós entoávamos com nossas vozes e instrumentos de sopro. Lentamente, comecei a entoá-la num murmúrio, enquanto grossas lágrimas molharam meu rosto. Ao longe, ouvi como se um eco daquela melodia se formasse… e pouco a pouco um círculo de luzes fechou-se ao meu redor. Abri levemente os olhos e vi meus irmãos: eles dançavam e sorriam à minha volta formando um círculo de energia dourada e brilhante.

Fechei novamente os olhos e pensei comigo: sou o mais feliz dos homens! Voltarei à Fonte de Tudo ao som do amor à natureza!

Um brando calor me envolveu, e eu novamente abri os olhos e percebi que uma dama de rara beleza me carregava no colo. Ela tinha duas vezes a minha altura e brilhava em todos os tons de rosa e dourado possíveis. Sua luz era tão grande que me ofuscava então fechei os olhos novamente e os mantive assim, enquanto ela caminhava lentamente comigo nos braços. O amor que dela emanava era tão grande, tão sublime, que me preencheu inteiro e eu sentia como se fosse explodir. Queria dar daquele sentimento a todas as criaturas, onde estivessem, sem exceção.

Ela recompôs meu espírito. Em pouco tempo me vi de pé, forte e saudável. Mas, o mais importante era que eu já não me sentia vazio. O centro do meu peito irradiava a mesma luz que eu via naquela adorável dama. Como eu não podia sustentar seu olhar, ajoelhei-me e preguei os olhos sobre os lindos pés descalços que pareciam flutuar poucos centímetros acima do solo poeirento. E então sua linda voz ecoou no meu cérebro espiritual…

– Filho querido… tudo tem um propósito. A força geradora que te criou, por alguma razão, te queria entre os homens de boa vontade. Tua negatividade desviou-te dos desígnios traçados para ti, mas a eternidade aguarda que levantes e caminhes o caminho reto da Lei da Vida. Vivenciaste aquilo que precisavas para compreender e tomar consciência daquilo que és: um Guardião do Amor, da Lei e da Vida. Veste-te, agora, com a roupagem negra deste teu Grau, enquanto manténs sob este manto a luz dourada com a qual eu te cobri.

Conforme ela falava, um manto negro e brilhante surgiu sobre mim, cobrindo-me dos pés à cabeça. Instintivamente olhei à minha esquerda e verifiquei que o grande ser que me encontrara estava também de joelhos à esquerda daquela dama. Via nele o carinho e a devoção que sentia por ela e me orgulhei de me tornar alguém igual a ele…

– Um dia tivestes o vazio dentro de ti enquanto buscavas o amor de forma desequilibrada. Agora, preenchi teu ser com o verdadeiro Amor à Vida e o Vazio há de cobrir-te para que todos saibam que tu tens o poder de esvaziar os desequilíbrios em meu nome.

Ela tocou de leve o topo da minha cabeça e eu senti como que um choque elétrico percorrer todo o meu corpo. Minha consciência expandiu-se e eu percebi o quanto homens e mulheres de todos os credos e origens estavam errando e desequilibrando-se em nome do amor. Meu ser encheu-se da mais profunda vontade de acabar com aqueles desmandos, de mostrar a cada um deles que aquilo não era amor, e uma raiva incontida me fez travar os dentes e fechar os punhos.

– Assim é a natureza de todo Guardião. Mas cuida que tua raiva não ultrapasse os limites da Lei Divina, ou ela há de acabar contigo antes de qualquer coisa. Agora eu te armo com esta espada dourada e te dou a insígnia de Guardião à minha esquerda.

Senti um jorro de energia me atingir em cheio sobre o peito, me atravessar e sair pelas costas. Além disso meus pés e palmas das mãos ardiam em fogo. Olhei para elas e um símbolo estava marcado em cada uma. Logo em seguida uma espada materializou-se à minha frente e fincou-se ao solo… brilhava como um sol e, aos poucos foi-se apagando.

– Pega tua espada e levanta, Guardião. Tua missão começa pelo estudo e desenvolvimento de tuas faculdades naturais no meio humano. Vais encarnar. Cuida para que não cometas erros demais e tenta semear o amor entre os homens da Terra.

E ela desapareceu. Ajoelhei-me e chorei, agradecido. Aquela sensação de calor interno, principalmente sobre o peito, nunca mais me deixou. Pela última vez encarnei e servi à Vida como Templário para então voltar ao Trono que me era designado, para estudar e auxiliar a quantos eu conseguir.

A raiva daqueles que erram em nome do Amor sob qualquer pretexto ainda me acompanha onde quer que eu esteja. Mas ela nunca é maior que aquela energia maravilhosa que me preencheu e que transborda de mim constantemente, me dando vida nova. Muitos outros mistérios me foram revelados, muitas coisas eu vi, ouvi e vivi. Hoje tenho a certeza de que meu lugar é aqui, onde minha amada mãe Oxum, senhora do Amor Universal, me colocou. Daqui só sairei no dia em que ela assim determinar.

guardião amor

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