Um sorriso me salvou

O local era a Judeia e a rua, no alto da cidade, era poeirenta. Em frente à casa onde morava, havia uma espécie de “sacada”- uma meia-lua que alargava a rua logo à frente do portão principal. A construção era grande, com pátios internos, cavalariças, fontes e jardins. Era um palacete e ali vivia Maximus, centurião romano, e sua esposa, a judia Ester, nascida de uma das famílias descendentes das 12 tribos. Ester chamou a atenção de Maximus desde a primeira vez que se viram e, embora tenha sido difícil conseguir a mão da moça em casamento, ele tudo fez para consegui-la.

Casaram-se. Ester sentia uma atração e um amor profundos pelo marido, mas se sentia na obrigação de odiá-lo, primeiro por ser ele um gentio, adorador de deuses pagãos; segundo porque era Romano, e Roma havia ocupado os estados judaicos, cobrando tributos, desterrando famílias e crucificando qualquer “traidor” que se interpusesse em seu caminho. Mas, ainda assim, seu coração amava aquele homem.

Maximus cobria Ester de todos os presentes e gentilezas possíveis. E, embora ele notasse a revolta em seu íntimo e a necessidade quase física que ela sentia de provocá-lo, Maximus sempre conseguia dobrar aquela mulher orgulhosa de suas crenças e origens. Ao final do primeiro ano de casamento, Ester se viu grávida do primeiro filho. Entrou em agonia – como podia ter sucumbido e se entregado tão fácil? Como permitira que aquele homem tomasse conta de sua vida e de seu coração daquela maneira? Como sua família pudera permitir tal heresia – uma filha de Israel casada com um Romano?! E ainda por cima, grávida!

Ester tinha ímpetos de abortar a criança, mas seu coração de mãe, e a barriga que começava a pronunciar-se, a enchiam de ternura por aquele bebê. Não havia contado a ninguém, nem mesmo o marido sabia. Pensava em livrar-se da criança, para logo depois suplicar perdão aos céus por ter sequer pensado em algo tão abominável. Então pensava em mentir, dizer que a criança não era de Maximus – queria vê-lo sofrer como deviam sofrer todos os filhos de Roma… mas logo em seguida pegava-o olhando para si com tamanha doçura e devoção que era impossível manter a mágoa que sentia. Ainda assim, não tinha coragem de contar a ninguém. A sogra suspeitava, sua mãe suspeitava, sua cunhada suspeitava… mas a todas negava a gravidez.

E então aconteceu o pior. Numa tarde em que Ester e Maximus discutiram além do normal, ele a empurrou quando ela tentava dar-lhe um tapa no rosto. Ester desequilibrou-se sobre uma mesinha de centro e caiu violentamente ao chão. Sentiu as contrações de imediato, e o aborto foi inevitável. Ela perdeu seu pequeno bebê aos três meses de gestação. Maximus, inconsolável, culpando-se por ter empurrado a esposa e pelo aborto da criança, passou a beber. Enterrou-se na bebida dia-a-dia, chegando sempre muito tarde e saindo sempre muito cedo. Não conseguia olhar para Ester, seu remorso e tristeza aumentavam quando via o rosto choroso da esposa. Então preferia não vê-la, não olhar para ela. Ao mesmo tempo, sentia raiva por ela não haver lhe contado, por ela não ter lhe dito que estava grávida. Porque ela não lhe contara nada?

Alguns meses após o ocorrido, Ester em profunda depressão se viu encostada à amurada em frente ao palacete. Às suas costas, a rua poeirenta; à sua frente uma queda de cerca de 12 metros até a via pública logo abaixo. Namorava a ideia de por fim à sua vida. Sentia-se infinitamente triste – perdera seu bebê e, ao mesmo tempo, o amor do homem que tanto a adorara… não conseguiria viver daquela maneira, sem que Maximus sequer a olhasse. Era demais para ela, e seu peito doída sem parar. Ouviu quando uma turba de gente subiu a rua em direção à praça central da cidade, que ficava alguns lances de degraus acima de sua casa. Olhou naquela direção e viu enquanto a pequena aglomeração se deslocava, notando que em meio ao vozerio, uma cabeça de homem se destacava. Não deu importância e virou-se novamente, fitando a queda além da amurada. Fechou os olhos enquanto as lágrimas desciam pelo rosto. Respirou fundo enquanto levantava o rosto em direção aos céus, pedindo perdão pelo que estava prestes a fazer. Mas foi então que ela o ouviu:

– Não chores, Ester…

Assustada, Ester abriu os olhos e percebeu o gigante ao seu lado: devia ter cerca de 1,90m de altura. Era longuilíneo, de pernas e braços compridos, mas tinha um torso largo e aparentemente musculoso. Exalava masculinidade e força, embora tivesse os olhos mais doces que ela já havia visto. À moda judia, tinha os cabelos na altura dos ombros, a barba bem aparada, e vestia uma túnica clara. Por cima, um manto carmim denunciava que aquele não era um Judeu de classe baixa, mas sim um lorde. Ainda assim, não era típico que um homem se aproximasse de uma desconhecida e, além de tudo lhe dirigisse a palavra.

– Perdão, Ester, não quis assustar-te. – ele sorriu e Ester pensou ter visto um raio de sol acender-se sobre sua cabeça. – Mas é certo que o caminho que buscas não é o mais feliz.

O homem virou-se e segurou Ester em ambas as mãos, enquanto ela sentiu um calor invadir-lhe o corpo todo. Caiu em prantos, não conseguia não chorar… quem era aquele desconhecido que parecia ler seus pensamentos?

– A felicidade que buscas está dentro de ti. Deixa de lado as convenções da sociedade e agarra a oportunidade de ser feliz que a Vida te dá! Gentios, fariseus, romanos, judeus, que importa quem somos aqui se perante o Pai somos todos seus filhos, Ester?

O homem deu um passo à frente e colocou a destra sobre a barriga de Ester. Ela sentiu um formigamento no baixo ventre e logo depois uma alegria a invadiu como se tudo estivesse pronto para um novo milagre em sua vida.

– Vá, Ester. Sê feliz, porque é só isso que o Pai quer de ti.

Então ele beijou sua testa e se afastou. Enfiou-se em meio à pequena multidão que o aguardava e seguiu caminhando em direção ao centro da cidade. Ester ficou ali, parada, como se um raio a tivesse atingido. Como ele sabia? Como ele a conhecia? Quem era aquele homem que afrontava os costumes judaicos ao falar e tocar uma filha de Israel? Ester esqueceu-se completamente da ideia de suicídio. Voltou para casa e, naquela noite, esperou acordada por seu marido. Contou a ele o que vira e ouvira e, embora Maximus não tenha compreendido metade do que Ester falava, acabaram por fazer as pazes e uma certa alegria voltou ao lar.

Quase dois anos após aquele encontro, Ester dava à luz seu primeiro filho. Radiante, nunca esqueceu-se do encontro com o Judeu que, segundo lhe contaram, chamava-se Yoshua ben Yoseph*.

(*Jesus, filho de José)

 

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