Yara e a Senhora das Águas (parte II)

(para ler a primeira parte deste ensaio, clique aqui)

As Ninfas

As ninfas acharam estranho uma moça como aquela sob as águas. Afogamentos aconteciam aqui e ali, mas normalmente eram aldeões que vinham pescar, ou banhar-se, e acabavam por nadar fundo demais. Mas aquela moça não era como eles. Ela vibrava em outro nível, e parecia não estar em seu elemento.

Elas puxaram Yara até a margem, e a deitaram na relva úmida. Aplicaram-lhe alguns passes magnéticos, mas a energia delas parecia machucar ainda mais o sistema físico da moça. Então clamaram pela mãe das águas, pois só ela saberia o que fazer.

Em instantes, toda a natureza ao redor da baía pareceu parar. Os sons sumiram, os pássaros não voavam sobre as águas, e até as pequenas ondas não eram vistas. Próximo de onde estavam, as águas começaram a borbulhar e uma luz azul-prateada ofuscante começou a elevar-se. Primeiro na forma de uma grande bola de energia, que depois foi-se alongando verticalmente até que tomou a forma de um corpo feminino.

A luz ofuscante recrudesceu e as ninfas puderam ver o ente divino que sustentava toda a massa de água naquele planeta – um ser feminino de infinita beleza e longos cabelos azuis escuros, quase negros. Parecia vestida com as águas do mar, em um longo vestido de mangas soltas que cintilavam com todas as cores das águas. No colo trazia pérolas de todas as cores ornamentadas num colar de sete voltas. A pele era alva e iridiscente como o gelo sob o sol e sobre a fronte ostentava intrincada coroa prateada encimada por magnífica estrela do mar que cintilava todas as cores do arco-íris como madrepérola. Estava de pé sobre as águas, a poucos metros delas, e tinha pelo menos dois metros de altura.

Aquele ente divino falou às ninfas em pensamento.

O que tens aqui para mim, ó crianças das águas?

As ninfas, ajoelhadas e de rosto ao chão como estavam, nem se moveram.

Vamos, crianças… qual de vós me dirigirá a palavra? Se quereis que eu auxilie, tens de dizer-me algo…

A ninfa que parecia ser a mais madura, elevou o tronco e conversou telepaticamente com o ente divino, embora com receio de encará-la.

Senhora Mãe Divina das Águas… perdoe-nos o apelo, mas este ser feminino, que parece um ente superior do fogo, caiu em nossa baía. Parece estar desfalecida, e embora tenhamos tentado reanimá-la, ela não parece querer voltar à vida.

A mãe das águas parecia pensar. E então emitiu seu veredito:

Mas se este ser que é dono de si não deseja voltar à Vida, quem sois vós, crianças, para querê-la de volta? Deixai-a onde está, e muito em breve aqueles que são de sua raça a encontrarão.

Houve certo desconforto entre as ninfas. Moveram-se agitadas, embora continuassem ajoelhadas e de cabeças baixas.

Senhora, perdoa-nos a impertinência… mas ela parece ter o coração partido. Não parece escolher este caminho com livre onisciência do que faz. Parece fugir de algum sofrimento que lhe corta o coração e lhe destroça a alma. Por isso nos compungimos dela, Senhora. Queremos dar a ela uma segunda chance…

A senhora das águas calou-se durante longos minutos. Parecia ponderar o que a ninfa lhe dissera, ao mesmo tempo em que sondava a alma daquele ente feminino ora desfalecido.

Vejo que tens razão criança. Mesmo assim, advirto-te: ela tomou a decisão, ainda que inconscientemente. Talvez lhe seja penoso demais viver separada daquele que ama. Se ela retornar à Vida por meu intermédio, não mais será una com sua espécie – será tocada pelo elemento aquático, e a ele pertencerá dali em diante. Sua essência ígnea se manterá, adormecida, no entanto. E quando finalmente deixar esta forma física por determinação do Alto, só então veremos que rumo seguirá. Vês que podes causar-lhe mais dano que remédio? Queres mesmo assim que eu a traga do limbo antes que ela cruze o portal?

Novo alvoroço entre as ninfas. Aqueles seres eram de pureza infantil, e viam em Yara uma moça linda que não queriam perder.

Sim, Senhora. É isso mesmo que viemos pedir-te.

Aquele ser das águas então fechou os olhos e pareceu respirar fundo. Elevou os braços aos céus, de onde infinitas gotas d’água caíam como diamantes, e um longo tubo de luz desceu sobre ela. Pareceu concentrar toda aquela energia dentro de si, e então espalmou ambas as mãos na direção do peito de Yara. Um feixe de luz saiu do coração da senhora das águas e acertou em cheio a fronte, o peito, e as mãos da desfalecida. A luz de tom branco-azulado pareceu penetrar o corpo de Yara e espalhar-se por todos os seus órgãos e membros. Quando finalmente a senhora recolheu as mãos, Yara havia transformado-se: os cabelos, antes ruivos, agora eram de um negro azulado; a pele, antes bronzeada, agora era branca como a luz da lua. Ela abriu os olhos e não sabia bem o que acontecia. Teve tempo suficiente para encarar a mãe das águas que lhe disse:

Levanta-te, ó Yara. Ouve a voz daquela que te trouxe de volta à Vida! Irás com minhas filhas ao fundo das águas mais profundas, e lá estudarás e aprenderás sobre tua nova condição. Lá curarás as feridas que trazes em teu peito; esquecerás as mazelas de teu passado ígneo; sentirás a tranqüilidade das águas cálidas e serás una com elas e com todos os outros seres e entes que as habitam. Durante mil anos estarás entre nós sem voltar a superfície. E só então andarás novamente entre os entes sobre a crosta. Aceitas minha oferta, filha ígnea das águas?

Yara ajoelhara-se extasiada diante daquele ser de magnífica beleza e que emanava um amor e paz profundos. Olhava em seus olhos límpidos e sentia-se amada, acolhida, via-se criança nos braços de uma mãe amorosa e bela. Queria por tudo segui-la, e assim o fez.

– Sim, aceito.

Símbolos azuis acenderam-se na testa, no peito, nas costas, e nos pés e mãos de Yara. Brilharam por poucos segundos e depois feneceram deixando apenas brando calor em sua pele. A mãe d’água sorriu e acenou com a cabeça afirmativamente antes de desaparecer completamente.

Yara parecia acordar de um transe. Olhou-se nas águas calmas da baía e por um instante não se reconheceu. Não teve tempo de fazer perguntas – as ninfas a pegaram pelas mãos e levaram-na para o fundo, sempre rindo, cantando e abraçando-a. Como crianças que acabaram de ganhar uma nova boneca, alisavam seus cabelos, passavam as mãos por seu rosto e mãos. E Yara sumiu sob as águas do mar e o encanto das ninfas.

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Yara e a Senhora das Águas

Eu “vi” essa história mentalmente durante uma de minha iniciações na Magia das 7 Ervas. Embora eu pareça saber o resto da história, é difícil colocar “no papel”. Sinto como se a lembrança de toda a história estivesse comigo, mas de alguma maneira estranha eu não tenho a chave de acesso. Então fica aqui a introdução, que eu dividi em duas partes para que o post não ficasse muito longo. Enjoy!

As Árvores

As ávores eram antigas e imensas. O cheiro de relva molhada impregnava as narinas até arderem. Yara andou resoluta até a porta localizada numa das grandes árvores anciãs – troncos gigantescos que abrigavam os laboratórios e residências dos mais antigos magos e estudiosos entes do elemento terra. Ali também se reuniam alguns entes de outras origens, como cristalinos, aquáticos, e até eólicos. Yara parou em frente à porta trabalhada e respirou fundo. Apertou lentamente o gatilho da trava da porta e esta se abriu com leve rangido.

O interior estava cheio de estantes de livros, mesas e bancos. Sobre as mesas, papéis, mapas e livros abertos. Se não estivesse acostumada com lord Herim, acreditaria que uma ventania espalhara tudo aquilo. Mas ela sabia que o velho estudioso tinha verdadeira paixão por sua organizada bagunça. Passou despercebida por dois ou três pupilos que liam entretidos e encaminhou-se à porta que dava ao páteo interno.

Uma grande abertura no centro daquela árvore recebia a luz direta do sol. A luz filtrava-se por entre inúmeras folhas e galhos, mas ainda assim chegava intensa àquele local e inundava tudo com feixes de luz amarelo-dourada. Ali, no centro, havia uma mesa rústica de pedra, e à sua frente um homem de dorso nu trabalhava. Yara recostou-se ao batente da porta e ficou observando-o. Entre suas mãos, ele manipulava a luz que descia por entre as folhas e a condensava na forma de uma esfera de mais ou menos trinta centímetros de diâmetro. Mexia as mãos rapidamente em volta da esfera, enquanto esta parecia encandescer-se, emitindo fagulhas que simulavam diminutos relâmpagos. Aquilo parecia luz líquida que, ao contato com as mãos daquele homem, ia aglutinando-se na forma que ele ora estipulava.

Quando deu-se por satisfeito, exclamou: In’maha lux! E a esfera por fim solidificou-se e pousou lentamente sobre a mesa rústica. O suor descia por sua têmpora, e ele estava ofegante. Foi então que viu Yara à porta. Sorriu para ela e fez um gesto com as mãos pedindo que aguardasse. Virou-se para um dos criados que aguardava e, colocando a esfera sobre um pedestal, testou-a – passou a mão sobre ela e esta acendeu-se qual lâmpada elétrica. Ele sorriu e entregou o pedestal com a lâmpada ao criado:

– Leve mais esta, Maluc. Está pronta.

Virou-se e lavou-se sobre uma tina d’água ao canto. Sua pele, de um branco faiscante, parecia reluzir iridiscente sob a luz solar. Era atlético, e tinha os cabelos e os olhos escuros como a noite. O rosto longuilíneo era bem proporcial, de nariz fino e levemente aquilino. Enxugou-se e vestiu a túnica branca sobre a calça escura. Virou-se e sorriu na direção de Yara:

– Minha querida, como está? Faz tempo que não vejo você!

Yara sorriu e desceu os dois degraus que a separavam de seu interlocutor.

– Luc, é bom te ver! – Abraçou-o longamente. Queria estar naquele abraço mais que tudo no mundo.

Luc incomodou-se um pouco com a demora em soltá-lo, e tentou parecer casual.

– Ora, vamos… não faz também tanto tempo assim, não é? Deixe-me olhar para você, vamos.

Afastou-se dela e olhou-a de cima abaixo. Yara tinha quase a mesma altura de Luc, e ao contrário dele, tinha a pele levemente bronzeada. Os cabelos, avermelhados, pareciam de fogo vivo, mostrando reflexos dourados aqui e ali. Embora Luc tivesse feições mais finas e aquilinas, Yara possuía um rosto mais arredondado, de lábios carnudos e cílios longos e curvos. Os olhos eram do tom do âmbar, e refletiam o sorriso de Luc naquele momento.

– Mas você está a cada dia mais linda, com certeza!

Yara sorriu e virou-se para entrar.

– Vamos, você sabe que esta luz exagerada machuca meus olhos. – queria esconder dele o que lhe ia n’alma.

– Claro, claro… vou pedir um chá para nós dois e então poderemos conversar.

Já dentro da saleta de estudos, Luc pediu aos pupilos que saíssem pois tinha assuntos a tratar com a nobre dama. Yara fora ter com ele em seu traje de montaria – vestia calças enfiadas por dentro das botas de couro cru, e uma túnica muito parecida com a que Luc utilizava, de mangas soltas e botões na frente. Sobre tudo isso, portava um manto com capuz, todo bordado e debruado em tons de ouro e cobre.

A cabeça era adornada por pequena tiara dourada que lhe prendia os cabelos para que eles não lhe caíssem aos olhos, e fora isso utilizava apenas duas pérolas em forma de gota como brincos.

– Luc, eu não vim aqui tomar chá… eu… eu preciso conversar com você.

Luc percebeu a hesitação em sua voz e pegou-lhe a mão.

– Mas é claro, Yara. Você sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa.

– É, eu sei. Mas não sei bem qual será sua reação à nossa conversa.

Luc franziu o cenho e aguardou.

– Nosso último mês de aula foi muito importante para mim, você sabe…

Luc fez menção de largar-lhe a mão, mas Yara segurou-a entre as suas.

– Você acabou de dizer que nós poderíamos conversar sobre qualquer coisa, Luc. E preciso falar sobre nosso último verão juntos.

– Yara, aquilo foi um erro. Eu…

– Um erro?! Negue! Negue que você me ama, Luc… vamos!

Yara destemperou-se e seus olhos, marejados de lágrimas, adiquiriram a cor do fogo líquido.

– Vamos, faça isso! Faça isso e me vou, nunca mais será importunado por mim, pode ter certeza!

Foi a vez de Luc pegar as mãos dela entre as suas.

– Não, não… calma. Calma, Yara… escute. Eu não vou negar minha afeição por você. Sabe disso. Mas esse sentimento deverá ficar guardado dentro de mim e só. Nada mais. Você sabe disso.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Yara. Ela puxou as mãos e enxugou-as. Respirou fundo antes de falar.

– Ouça bem, Luc. Eu fiz minha escolha. Eu escolhi você.

Dizendo isso, depositou intrincada aliança sobre a mesa de madeira. A peça era toda trabalhada em finíssimos filigranas em tons de cobre, ouro e prata. Luc ficou atônito e mal conseguiu balbuciar.

– Yara, não… não diga as palav…

Inhmit Yaramin ya con inhimot Lucifer ye. Dinmiroth alim nye!

A aliança reluziu e imediatamente apareceu no dedo anelar esquerdo de Luc. Yara estava emocionada, ofegante. Por um instante, Luc se imaginou unido a ela, sentiu brando calor forrar-lhe o peito ao sentir o metal da aliança em seu dedo. Mas logo uma sombra escura passou por seus olhos, e ele baixou o rosto entristecido.

– Você não deveria ter feito isso, Yara. Você sabe das implicações. A ordem ficará vibrando nas telas universais, você sabe disso!

– Fiz o que tinha que ser feito, Luc. Desfaça, se for esse o seu real desejo.

– Yara, eu sou cristalino. Você é ígnea. Como pode esperar que nossa união dê frutos?

– Eu não ligo… quero você, não me importa se terei filhos ou não.

– Você diz isso agora. Mas pense: você é sobrinha do imperador. Os entes do fogo governam este tempo, até que chegue a vez do vento. Até lá, vocês têm de garantir a linhagem da família, Yara. Seus entes precisam de você! O Imperador tem apenas um filho, e o rapaz ainda é muito novo. Você já está sendo treinada para assumir, caso ele venha a deixar esse mundo. Imagina-se sentada no trono sem ninguém a quem passar o cetro e a coroa?

– Eu já disse que não ligo! Há outros na linhagem, eu não sou obrigada a assumir o trono se não quiser!

– Verdade, você não é… mas e o fato de que nós dois seremos consumidos nesse amor, Yara? Nada resiste muito tempo ao calor do fogo, e você sabe disso. Você tentaria se apagar por mim, e eu me derreteria ao seu lado. Nossas almas acabariam adoecendo e estaríamos fadados a um fim muito rápido e, temo dizer, dolorido!

Yara chorava baixinho. Ela sabia daquilo tudo. Mas também sabia de casais, nas aldeias, que não seguiram as regras e que viviam muito bem juntos.

– Luc… e quanto aos aldeões? Eles não ligam para nada disso! Casam-se, têm seus filhos, são felizes! Porque nós não podemos?

– Yara, você sabe tão bem quanto eu que os elementos neles são muito mais dormentes do que são em nós. Nenhum deles pratica magia. Nenhum deles manipula os elementos e seus seres. Nós mantemos os elementos em harmonia, Yara!

– Luc, por favor… eu quero tentar. Quero você!

Luc respirou fundo e engoliu o nó na garganta. Precisava ser firme se quisesse demovê-la daquela idéia maluca.

– Não, não posso compactuar com essa sua irresponsabilidade.

Respirou fundo e elevou a mão esquerda à sua frente. Yara chorava sentida.

Ina inhmit Lucifer ye incon inhimot Yaramin ya. Dinmireth alim nya!

O anel fulgurou em seu dedo e caiu sobre a mesa. O metal estava apagado, como se tivesse sido chamuscado pela chama de uma vela. Yara chorava sentida. Tinha esperanças de que, uma vez que ele visse o anel em seu dedo, não conseguiria dizer não a ela. Mas ele a repudiara mesmo assim. Luc tentou abraçá-la.

– Yara, eu não tive escolha…

Yara saiu correndo para o bosque. Luc deu alguns passos na intenção de segui-la, mas por fim achou melhor deixá-la sozinha com seus pensamentos. Mais tarde levaria o veículo que ela deixara estacionado em frente à árvore anciã e então poderiam conversar melhor.

Yara correu por algum tempo. Logo sentiu o calor explodir em seu peito e se viu flutuando acima das árvores. Alguns dos entes ígneos ainda conseguiam transmutar suas formas corpóreas, geralmente aqueles de linhagem mais antiga e que tivessem sido iniciados desde a mais tenra idade. Esse era o caso de Yara. No entanto, a transmutação não podia ser mantida por muito tempo, a custo da própria vida do ser ígneo. Yara, na forma da fênix, não duraria muito tempo. Mas a verdade é que ela pouco se apercebeu do perigo que corria.

Olhou para baixo e viu água – a grande baía circular que desembocava no oceano tinha águas calmas e límpidas. Ali muitos dos entes aquáticos mais elementais viviam, e era a fonte de energia renovadora daqueles que já transitavam por mais tempo em terra firme.

“Eu não deveria ter sustentado essa forma por tanto tempo. Se cair agora, será meu fim…”

E, pensando nisso, Yara rumou para a margem. Mas não teve tempo de chegar ao chão para transmutar-se – despencou de algumas dezenas de metros dentro d’água.

Sentiu o corpo gelar, e lentamente sua visão ficou turva. Antes de desfalecer, no entanto, verificou que formas femininas a olhavam com medo e curiosidade, e sentiu-se abraçada por algumas delas.

(leia aqui a continuação deste ensaio)

Em inglês

Faz tempo que eu não escrevo em inglês… por diversão (porque no trabalho não conta, né? rs…). Hoje eu tive uma inspiração relâmpago. Eis o fruto:

There are times in life when we must act…
Fight the terror, fight the heck!
Skip the trembling, rumbling sound of our own desire
And keep moving, although we may tire.

Try and dismiss
The dangerous bliss
Of getting astray.

 Then come get amiss
That wonderful kiss
Of fears far at bay.

 But then I forget that dreams are a keepin’
For those who like life while they’re sleepin’
For there they can find all that they pray!

Por Sarah Siqueira.

Na China do Grande Khan – Parte II

Chinese Lady por Feimo

(clique aqui para ler a primeira parte deste ensaio)

Nem eu entendi bem como tudo acontecera, mas Xhin havia exposto certas idéias que eram contrárias às ordens do imperador, e isso foi sua ruína. Sua esposa foi mandada de volta ao pai dela, enquanto que Xhin foi exposto por Xheng frente todo o exército e conselheiros. Para não matá-lo, Xheng ofereceu-o o exílio, dando-lhe um cavalo, um odre com água, e uma faca, nada mais. Ele deveria cavalgar em direção ao sul e nunca mais voltar, era essa sua sentença.

Naquele dia, olhando em seus olhos, eu chorei. Vi o rancor neles, vi o quanto ele me culpava ao ver-me lado a lado com seu irmão quando este anunciou que eu seria sua primeira esposa. O exército aclamou-nos com fervor, porque viam em mim alguém com grandes qualidades estrategistas, além de uma beleza que florescia dia após dia.

Xhin nunca chegou ao sul. Xheng contratara mercenários e mandara que estes o seguissem e matassem, roubando o pouco que ele carregava consigo. Poucos dias depois, uma patrulha do palácio chegou com seus restos mortais – haviam-no encontrado às margens de um poço, assassinado.

Xheng deu ao irmão honras de estado, cremando seu corpo em ocasião solene e tornando-se então o governador oficial daquela província. Eu estava grávida de dois meses e não sabia de quem era meu filho. Embora não soubesse a verdade, algo em meu íntimo me dizia que a alegria nos olhos de Xheng era diabólica, e que a morte de Xhin não havia sido fruto do acaso. Mesmo assim, o remorso me corroía. Mais e mais eu via o quanto Xheng podia ser cruel com todos, e aquilo me dava medo.

Ele sempre tratou-me com deferência. Nosso filho nasceu e, no momento em que pus os olhos nele, soube que seu pai era Xhin. Quanto deitei-me com Xheng, naquela noite quente de verão, eu já o carregava em meu ventre, tinha certeza. Deste dia em diante, passei todos os momentos tentando defender a criança da influência malfazeja de seu tio, que se julgava pai do menino. Ele cresceu forte e bonito como o pai, mas sua alma de criança, dócil e fraterna, logo deu lugar a um adolescente voluntarioso que gostava de seguir os passos de Xheng em tudo.

Essa foi minha desdita – vi o fruto de meu único e sincero amor ser envenenado, dia a dia, pela má conduta e violência do tio. Vi como aquele menino dócil, pacato, sincero e bom tornou-se um tirano sangrento, seguindo os conselhos do homem que eu mesma escolhera como marido.

Eu vivi cercada de luxo… e tristeza. A desonra e o remorso me corroeram até o fim de meus dias, que foram longos e solitários. Tzu Tong Lee, meu filho, tornou-se um dos maiores conquistadores a mando do grande Khan e, quando este veio a falecer, sucedeu-o durante alguns poucos anos, quando então também foi assassinado. Em seu leito de morte, enquanto agonizava, eu contei-lhe tudo, pedindo-lhe perdão. Já contava mais de 70 anos, mas continuava sendo uma mulher forte e lúcida.

Lee morreu sem perdoar-me. E vinte anos depois, eu também deixei a China para juntar-me aos meus pares na pátria espiritual. Desencarnei sentindo grande remorso, e ouvindo claramente que Xhin gritava ao meu lado “traidora! mentirosa!”.

Sei que fiquei muito tempo num estado catatônico entre remorso e tristeza, sendo “vítima” das investidas dos irmãos nas trevas. Mas aqueles anos todos de solidão e remorso na carne abrandaram meu coração, e me fizeram compreender muitas coisas. Eu rezei, eu pedi aos deuses que me livrassem daquele tormento. E eu acordei num hospital, muito branco, muito limpo.

Ali recuperei-me. Ali revi muitas de minhas vidas, e refiz meu invólucro perispiritual. Mas eu era melancólica ao extremo, quase não sorria. Meu coração doía constantemente. Como remédio para a tristeza, deram-me a incumbência de cuidar do jardim… das flores, mais especificamente. Aprendi a conversar com elas e com as energias e seres que as faziam florescer belas e perfeitas. Naqueles momentos de quietude, as flores me davam seu carinho, e pouco a pouco meu coração foi deixando de doer. Aqueles pequenos seres luminosos eram como crianças, sempre brincando, sorrindo. Por isso eram tão belos, assim como as flores.

Quando finalmente eu havia me acostumado ao meu novo lar, e quase não pensava mais em Xhin ou em meu filho Lee, o Mestre apareceu.

Eu estava abaixada, doando energias a algumas flores que precisavam delas para transmutar os negativismos que haviam absorvido naquela manhã quando, de repente, senti um calor brando às minhas costas e vi um clarão.

Virei-me num salto e levei a mão aos olhos. Logo o clarão diminuiu e eu o vi. Ele era alto, mais de dois metros de altura. Vestia uma túnica branca bordada com símbolos em dourado – o tecido era fluido e parecia mudar de cor conforme ele se movia. Ele baixou o capuz e eu pude ver seus longos cabelos dourados e lisos, que caíam pouco abaixo de seus ombros. Ele tinha o rosto fino e anguloso, olhos da cor do âmbar, puxados à moda oriental. Era bonito e transpirava confiança, poder, serenidade. Um calor gostoso emanava dele e me envolvia dando-me a sensação de ser abraçada.

Fiquei estática, não conseguia me mover. Ele sorriu.

– Filha, é bom ver-te novamente. Está na hora. É tempo de reencarnar.

A notícia me atingiu em cheio. Reencarnar? E as flores? E os meus estudos ali? E se eu ainda não estivesse pronta, e se mais uma vez eu falhasse… o Mestre novamente sorria, baixando a cabeça. Parecia ler meus pensamentos. Afastou a capa e eu pude ver seus braços fortes. Em sua mão direita surgiu um bastão, quase de sua altura. No topo havia um diamante translúcido, seguido mais abaixo por outras sete pedras igualmente belíssimas e coloridas. O bastão era dourado, e estava coberto por símbolos estranhos. Ele chegou mais perto de mim, e tocou meu rosto. Eu chorei.

– Filha, você tem o que é preciso: a vontade de acertar. Não é possível evoluir assim, parada no tempo, cuidando de nossas amigas flores.

– Mas e Xhin? Ele também virá? Posso vê-lo antes de ir?

O mestre baixou os olhos com tristeza.

– Não filha, não há como. Ele ainda prende-se ao rancor, e por isso ainda estão tentando resgatá-lo. É bem possível que ele reencarne compulsoriamente, e assim livre-se do tormento. Vocês terão nova chance, isso é certo.

Eu caí de joelhos, chorando. O Mestre depositou a mão esquerda sobre minha cabeça e brando calor me envolveu. Pouco a pouco a serenidade me invadiu, e eu perdi os sentidos.

Na China do Grande Khan

Tang Dinasty por Feimo

Meu nome é Mei Ling. Aos 12 anos fui tomada como escrava. Uma das tribos das estepes invadiu meu povoado. Queimaram tudo… minha mãe morreu, assim como meu pai. Meus dois irmãos menores foram levados também como escravos, e vendidos durante a viagem. Minha irmã mais velha matou-se em meio ao desespero de ver seu noivo morto. Eu fui uma das poucas que sobraram. Para os padrões da época, eu era bonita, chamava a atenção. O líder daquela tropa de bárbaros achou que eu seria bem-vinda por seu senhor, então levou-me intacta até ele.

Tzu Tong Xhin e seu irmão Tzu Tong Xheng reinavam nas estepes. Eram filhos do grande Khan, e faziam parte de seus esforços armados para uma China unificada. Nunca antes houve tanta matança, tanto choro, mas também nós nunca tivéramos alguém que nos regesse como monarca absoluto. Àqueles que o próprio Khan designava, eram dadas honrarias, terras, palácios. Aos outros, a ponta da lança era normalmente seu fim.

Tzu Tong Xhin acolheu-me como sua preferida. Ele tinha 19 anos, e era o mais velho, por alguns minutos, entre os dois. Xheng nascera depois, e portanto era general dos exércitos, enquanto que Xhin seria senhor daquelas terras, ambos nomeados por seu pai, o grande Khan.

Xhin tinha alma de agricultor, e não de monarca. Ainda assim, eu pressentia, seria um excelente governador, pois era perspicaz e sabia ler muito bem a alma humana. Xheng era por demais volúvel, instável, audacioso e violento. Por vezes era admoestado pelo irmão que, embora poucos minutos mais velho que ele próprio, parecia ter sido abençoado pelos deuses com uma sabedoria ancestral.

Logo Xhin tornou-me sua amante. Eu passei de serviçal preferida à sua confidente. Eu gostava dele, mas minha alma infantil ainda sentia grande raiva daquele povo. Se eu tivesse uma oportunidade, por certo mataria os dois. Afinal, não importava o quão belo e amável Xhin pudesse ser, eu ainda era sua escrava, e ele meu senhor.

Quando completei quinze anos, já num corpo de mulher, as brigas constantes entre os dois irmãos tornaram-se terríveis. Mantinham-se juntos e não se matavam por simples medo do grande Khan. Sabiam o quanto o grande imperador zelava pela irmandade entre os clãs, e principalmente pela honra familiar dentro deles. Eu via Xheng olhando-me, estudando cada um de meus movimentos. Percebia seu interesse quando arrumava-me para qualquer de nossas confraternizações.

O palácio havia sido terminado poucos meses antes, com seus pátios internos, grandes colunas, tapeçarias e janelas decoradas. A mim foram dados aposentos contíguos aos de Xhin que, embora me amasse, não podia fazer de mim sua primeira esposa. Aquilo me deixava louca! Se os deuses me ajudassem, eu ficaria grávida, e então seria mãe do primogênito. Mas minhas regras eram instáveis e eu nunca sabia quando era o tempo certo para engravidar.

A parteira auxiliava-me com chás e poções, pois prometera-lhe honrarias se me tornasse mãe do futuro governador. Mas mesmo assim, nada adiantava, e eu continuava sendo a concubina.

Numa noite quente, eu andava pelo corredor interno, observando os jardins, o lago, e a lua imensa no céu. Estava especialmente melancólica naquela ocasião – era a noite de lua-de-mel de Xhin com uma garota de 15 anos, escolhida a dedo pelo grande Khan. Me martirizava a idéia de que ela pudesse vir a ser a escolhida para carregar no ventre o herdeiro que eu tanto queria.

Xheng aproximou-se sem que eu notasse e depositou um beijo em minha nuca. Assustei-me.

– Ah! Você! Desculpe-me, meu senhor, não consegui dormir, e…

Curvei-me e fui afastando-me dele, sem dar-lhe as costas.

– Não, não… fique. Preciso falar com você Mei Ling. É importante.

Xheng era muito parecido com o irmão. Mas enquanto Xhin era calmo, e transparecia uma indiferença e frieza constantes, Xheng era como o próprio sol. Seus gestos eram tempestuosos, sua voz ribombava feito o trovão, e seus olhos… bem, seus olhos pareciam navalhas a perfurar qualquer um que o desagradasse. Mas naquela noite Xheng parecia preocupado… e muito atraente para uma moça que fora negligenciada numa noite tão linda.

– Eu sei o que lhe vai n’alma. Pensa que não vejo o quanto você se arrasta atrás daquele tolo do Xhin? A verdade é que você mesma era filha do líder de sua aldeia. Xhin poderia tê-la apresentado ao grande Khan como sua escolhida. Mas não o fez. É um fraco. Pensa que baixando a cabeça nosso pai o amará mais, o distinguirá entre tantos outros.

Xheng, enquanto falava, puxou-me para ele, e andava comigo na direção do jardim. Seu toque era quente, mas muito respeitoso. Segurava meu braço com grande apreço, e vez ou outra tirava um fio de cabelo do meu rosto, que a brisa teimava em trazer de volta. Eu vestia um camisolão de seda branca, e por cima um robe também branco com desenhos em dourado, verde e vermelho. Eram flores… Xhin havia me presenteado com o robe de mangas amplas, porque ele dizia que somente as mais belas flores poderiam vestir-se daquela maneira. Mas naquela noite, ele não tinha olhos para mim.

– Ouça Mei Ling, sente-se aqui, ao meu lado. Eu… eu acho você uma mulher magnífica. Tenho verificado o progresso de Xhin enquanto estrategista e governador, e sei que muito se deve aos seus conselhos. Eu sei que ele a consulta antes de tomar qualquer decisão importante. Então, porque casar-se com outra? Porque não elevar você à posição de primeira esposa?

– Porque eu não posso lhe dar um filho… é por isso…

Naquele momento, não pude segurar as lágrimas. Chorei muito. Xheng abraçou-me, e logo estávamos nos beijando. Aquilo era o céu para mim. Embora eu tivesse passado anos nos braços de Xhin, eu nunca havia me sentido daquela maneira antes. Xheng era exímio amante, e seu temperamento tórrido ajudava no processo. Nos entregamos à paixão ali mesmo, na relva macia, sobre o robe de seda pura que Xhin havia me dado na noite anterior, como “presente de casamento”. Nós também havíamos nos amado naquele dia, mas ao contrário de Xheng, ele preocupava-se apenas com sua linhagem sucessória, e portanto o ato tornara-se simplesmente procriatório para ele. Não havia mais o carinho e o cuidado dos primeiros tempos, quando passávamos horas abraçados, nos amando.

– Há muito eu sonhava com este momento Mei Ling. E agora que o consumei, não vou mais deixá-la ir. Farei de você minha primeira esposa, e juntos, governaremos esta província.

A idéia me pareceu maravilhosa. Eu seria primeira esposa! Nunca mais os serviçais me olhariam no rosto, como se eu fosse mais uma criada. A água do meu banho seria mais quente, meus perfumes melhores, minha seda a mais pura. As pessoas se curvariam diante de mim, e Xheng me daria o crédito por aconselhá-lo, eu tinha certeza. Governaríamos juntos e faríamos daquela província a mais rica e próspera de toda a China!

– Diga-me uma só palavra, Mei Ling, uma só palavra de encorajamento e eu cuidarei de tudo…

Xheng beijou-me apaixonadamente e eu concordei. Durante semanas encontramo-nos às escuras, e ao final de mês e meio Xhin foi acusado de traição.

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Lembranças…

Nebulosa de Órion (Huble)

O vidro curvo era totalmente transparente, e através dele eu via aquele imenso planeta azul. A sensação era indescritível – aquela massa imensa azul anil era coberta aqui e ali por porções verdejantes de terra, além de nuvens brancas que pairavam pouco acima. Senti o peito apertar. Ultimamente eu vinha tendo sensações emotivas muito fortes quando pensava naquele planeta. Agora, foi-me dada a oportunidade de viver fisicamente ali, juntamente com milhares de outros de minha raça. Em sendo assim, tínhamos estabelecido esta base extra-planetária, de onde monitorávamos o planeta, suas condições, e seus habitantes primitivos.

Naquele dia, eu e mais alguns pesquisadores descemos à superfície. Nossa compleição não era física o suficiente ainda para que pudéssemos ser notados por aqueles hominídeos. Os corpos que ocuparíamos, embora muito superiores àqueles nascidos naturalmente no planeta, ainda estavam sendo finalizados em nosso laboratórios. Já havíamos sido ligados energeticamente a eles, mas ainda não tínhamos permissão para o acoplamento total. Lembro-me de andar em meio àqueles nativos, muito cabeludos e todos nus, enquanto se reuniam em círculo para uma refeição.

Detive-me frente a uma fêmea que dava de mamar a sua cria – aquele ser, tão primitivo, tão mal-formado segundo nossos padrões, emanava uma aura rosada de puro amor maternal. Eu podia sentir que ela seria capaz de qualquer coisa por aquele ser pequenino e indefeso. Seus olhos tinham um brilho especial, de carinho e acolhimento, enquanto ela embalava seu pequeno: aquilo era divino. A emoção foi tão forte que tive de afastar-me.

Lembro-me de sentar-me à beira de um penhasco florido, aspirando o ar rarefeito e olhando o vale verdejante que se estendia lá embaixo. Aquilo era lindo! Tão diferente daquilo que estávamos acostumados…

Alguém invadiu meus pensamentos:

– Porque a tristeza?

Olhei para a direita e vi um de nossos amparadores. Ao contrário de mim, ele emanava uma aura dourada por todo o corpo. Tínhamos os mesmos olhos puxados, rosto anguloso, nariz aquilino. Mas enquanto minha pele era extremamente branca, quase azulada, a dele era levemente bronzeada, como se partículas douradas brilhassem sobre todo o seu ser.

Seus olhos tinham o mesmo tom âmbar, como fogo líquido, enquanto que eu tinha os olhos num tom azul-cinzento triste. Meus cabelos eram lisos e brancos, pouco abaixo dos ombros; os dele eram loiro-claros, também muito lisos, mas cortados à altura dos ombros.

Ele tinha uma compleição longuilínea, mas extremamente forte. Ele emanava calor, austeridade, poder, determinação. E eu não consegui articular um só pensamento diante disso.

– Muito em breve você estará aqui, entre eles. Todos vocês serão tidos como deuses; portanto, cuidado! Como viste, estas também são crituras divinas. E uma afronta à vida, não importa qual seja ela, é uma afronta ao Criador de Tudo que É.

Senti medo, receio. Olhei novamente em frente na tentativa de que ele não percebesse o que me ia n’alma, mas foi em vão.

– Seu receio é bom, e bem fundamentado. Nossa raça há muito tem apegado-se a seu orgulho de raça pura, e também por ter domesticado a todas as sensações do corpo emocional. Mas entenda: domesticar é diferente de mestria. A mestria só se alcança quando o ser consegue vivenciar todas estas emoções sem alterar-se, sem sair de seu centro, sem desequilíbrio. Ao contrário de vocês, os Mestres mergulham em toda e qualquer emoção, mas nunca saem de seu estado de equilíbrio emocional. Aí está a diferença. E foi aí que erramos enquanto povo.

Meu mentor fez uma breve pausa e respirou fundo, olhando o horizonte.

– Este estágio na terceira dimensão deste planeta será muito importante para todos vocês. Nós, os mentores, apoiaremos a cada um de vocês, em silêncio. Erros serão cometidos, mas eles também serão benéficos. Através das experiências vividas, retornarão ao seio de Órion como mestres de suas próprias capacidades desenvolvidas. No cadinho do sofrimento, do amor, do ódio, da compaixão, da irmandade, ressuscitarão seus corpos emocionais enrijecidos no orgulho e aprenderão a lidar com as energias geradas por ele. Dominarão seus impulsos justiceiros e guerreiros, pois aprenderão que o déspota de hoje será, sem dúvida, o escravo de amanhã. A Lei do Carma que rege este orbe trabalhará a seu favor. E assim, ganhando num dia e perdendo em outro, chegarão ao estágio evolutivo que necessitam para voltar ao lar.

Neste momento, algo inusitado me ocorreu: eu estava tão preocupada com a experiência de descer à forma física naquele planeta que não me dei conta de que muitos anos, talvez milhares, se passariam antes que eu pudesse voltar ao meu planeta natal. Senti uma tristeza indescritível.

– Sim, filha, muito tempo passará. Mas o véu do esquecimento encobrirá suas lembranças enquanto estiverem mergulhados na matéria. Assim, sentirão uma saudade incompreensível de algo que não conseguirão definir, o que lhes servirá como mola propulsora para o avanço constante. Vigia e cuida para que as baixas paixões não ganhem terreno muito rapidamente, é só o que posso aconselhar-te.

E assim ele sumiu, da mesma maneira que aparecera. Não suportei: eu nunca havia chorado, a não ser enquanto criança, mas ali derramei grossas lágrimas, enquanto um arco-íris lindíssimo desenhou-se no horizonte. Fiquei ali por muito tempo, até que o entardecer pintou de tons alaranjados o céu. Voltei à nossa estação com o firme propósito de sair vencedora daquela missão.

(Me lembrei disto durante uma sessão de TRE, com o Dr. Osvaldo Shimoda, em 2005. Este mesmo Ser se apresentou como meu Mentor durante outras sessões, e aparece inclusive em meu livro. Quer ler? Compre aqui.)

O Telefonema

Mad Dogs, de Jack Vettriano

Triiimmm… triiimmm…

O susto com o barulho do toque daquele telefone antigo, em baquelite preto, a tirou repentinamente de seus devaneios.

– Alô?… oi mãe… não, mãe, estou bem… foi só um desmaio, mãe, estava calor, só isso…

Anna sabia que, mais cedo ou mais tarde, aquele incidente no baile da embaixada chegaria aos ouvidos de sua mãe, Madeleine. Mulher aristocrática, de modos refinados e com muitas conexões na alta roda da União Européia, Madeleine era ex-mulher de Hasaf Mundab, comerciante de petróleo no extremo oriente. Casara-se muito cedo, aos 18 anos, e portanto ainda era uma mulher muito bonita. Quando suas conexões habituais não bastavam, Madeleine usava de seus enormes olhos azul-safira e do sorriso enigmático para arrancar de seus interlocutores tudo aquilo que lhe interessava.

A filha, Anna, era sua maior preocupação. Desde criança, embora muito bonita, demonstrava certa introspecção. Por mais que a mãe tentasse fazer dela uma atriz de cinema, uma modelo de alta costura, ou simplesmente uma socialite bem sucedida, Anna não correspondia aos esforços maternos. Tinha muito de seu pai no sangue, e portanto faltava-lhe a desenvoltura e perspicácia dos Rousseau, longa linhagem da aristocracia francesa, onde figuravam homens de estado, diplomatas, bon-vivans e muito, muito dinheiro.

– Anna, meu bem… eu preciso saber como você está realmente. Estou preparando-me para a viagem. Acredito que, com o jatinho de seu pai, devo chegar aí em menos de duas horas…

Ah, não! Essa não!, pensou. Ter a mãe apontando todos os seus erros de etiqueta a todo e qualquer instante era pior que qualquer pesadelo. Pior do que ter desmaiado na frente de um dos homens mais bem sucedidos da Inglaterra, agora nomeado Embaixador da Boa Vontade pela ONU, pelos seus esforços em acabar com o trabalho escravo no mundo.

– Mamãe, por favor… você não precisa sair de Paris agora, não há motivo pra isso! Eu estou bem, foi só um mal-estar momentâneo… – e então ela decidiu que era hora de usar medidas extremas – e além disso, eu estou com a agenda cheia. Não poderei dar-lhe a devida atenção, mãe.

Anna sabia que a mãe morderia a isca. Tudo que Madeleine queria era ver a filha circulando na alta sociedade como um patinho feio que virou cisne. Tinha sonhos megalomaníacos de casar a filha com algum príncipe ou duque. Se isso não fosse possível, pelo menos algum old money de boa estirpe lhe traria a tão almejada paz de espírito.

– Agenda cheia? Cherie… desde quando você tem agenda?

– Mãe, é sério. O baile na embaixada foi só a ponta do iceberg. São várias as comemorações por conta da nomeação de Sir Winfred para o cargo de Embaixador da Boa Vontade…

– Ah… eu não entendo, Anna, realmente não entendo como um homem como Darcy Winfred, um nobre, nomeado pela própria rainha da Inglaterra antes mesmo de nascer, pode aceitar uma… uma… o que diabos é isso, afinal de contas? Honraria? Prêmio?

– Nomeação, mãe… nomeação…

– Que seja. Isso é tão fora de propósito que chega a me dar náuseas.

Anna suava frio. Primeiro porque era quase hora do almoço, e ela não havia nem mesmo tomado seu dejejum. Segundo porque ainda não sabia se conseguiria escapar à viagem iminente da mãe.

– E também não sei porque você, Anna Rousseau Mundab, filha de Lady Rousseau, tem que prestigiar algo desse nível.

– Não sou só eu, mãe. O próprio príncipe Charles esteve presente por alguns minutos para prestar homenagem a Sir Harold Winfred e seu filho, recém nomeado.

Sabia que a mãe se surpreenderia com o fato.

– Charles? Charles esteve presente?

– Isso.

– Ah… muito bem então. Você tem certeza que não quer minha companhia?

– Mamãe, não se trata de não querer… eu realmente estou muito ocupada…

Va bien, mon cherie. Sua mãe sabe quando é demais. Tenha uma boa semana. E mande notícias, sim?

– Claro, mãe, mando sim. Um beijo. Je t’adore.

Je t’aime beaucoup, mon cherie.

Click. O barulho surdo do desligar de telefone do outro lado fez Anna respirar fundo. Tinha se livrado do crivo materno, pelo menos por enquanto. Seu estômago reclamou e sentiu náuseas. Olhou o relógio, 11:30 da manhã. Não tinha vontade de descer para tomar o café com os outros hóspedes da embaixada. Pegou o diretório de serviços para verificar o ramal da copa.

Triiimmm… triiimmm…

Anna sobressaltou-se. Será que sua mãe tinha decidido vir a qualquer custo?

Triiimmm… triiimmm…

– Alô?

– Miss Rousseau?

Anna geralmente usava o sobrenome materno em viagens pela UE. Facilitava, e muito, seu acesso como jornalista a vários gabinetes, fóruns, embaixadas.

– Sim, sou eu. Quem fala?

– Um momento, por favor.

O telefone emudeceu um segundo, e então uma voz grave e modulada chegou a seus ouvidos.

– Miss Rousseau, aqui quem fala é Darcy Winfred. Nos conhecemos no baile patrocinado pela ONU, há dois dias. Estou ligando para saber como a senhorita está, e se aceitaria tomar um brunch comigo, esta tarde.

O fone na mão de Anna tremia. Por um segundo achou que desfaleceria ali mesmo, sobre a cama. Respirou fundo.

– Sim, claro…

Foi só o que conseguiu dizer, com a voz tremida e aguda demais para seu gosto. Pensou ter ouvido um sorriso de satisfação do outro lado da linha.

– Bem, por sua resposta devo presumir que tudo vai bem com a senhorita. Às 12:30 está bom? Mandarei o motorista buscá-la, tudo bem?

Aquela voz enchia sua cabeça e dificultava articular seus pensamentos. Meu Deus, Anna, você é uma jornalista!, pensou.

– Ah… isso… sim, pode ser.

Novo sorriso de satisfação.

– Ok, ficamos combinados então. Ah!… e, Miss Rousseau, traga um traje de banho. Está fazendo muito calor nessa época, e não queremos que sua pressão despenque. – e novamente o sorriso.

Click. Traje de banho? Onde diabos ele ia levá-la?