Política e religião

Dizem que política e religião são duas coisas separadas e que não se discute nem uma nem outra. Dizem que religião não deve se misturar à política. E então eu leio um artigo que revela que os países mais religiosos do mundo são também os mais violentos… e meu coração se entristece.

O caso é que RELIGIÃO é algo criado pelo homem, pela humanidade, para de alguma forma religar-se com sua Fonte, com seu Criador, com seu Deus. Desde que o mundo é mundo dezenas, centenas, talvez milhares foram as religiões que surgiram e feneceram na face da Terra.

A religião, a doutrina, o ritual religioso, seja ele qual for, é algo necessário à alma humana em vários de seus estágios evolutivos. É impossível, para a grande maioria, senão para a totalidade da população mundial, ligar-se a Deus e suas divindades sem que para isso passe por algum tipo de ritual, nem que seja uma simples oração, uma imagem, uma vela.

Ainda é impossível ao espírito humano, encarnado ou desencarnado neste planeta, conectar-se à Fonte Criadora pela simples contemplação e quietude. O imponderável, aquilo que carece de forma e função definidas torna-se inacessível à nossa mente ainda presa a um sistema de crenças, seja ele qual for.

Então a espiritualidade superior faz por bem inspirar os melhores e mais preparados para que tragam ao mundo os rituais e procedimentos que melhor caibam a certo grupo de indivíduos e almas afins, e assim criam-se as religiões pelo mundo. Fato é que o ego, a maldade, o engano, a mentira, a avareza, a libertinagem, e tudo que de mais baixo e ruim existe na alma humana vêm à tona quando o indivíduo se vê frente uma multidão que, erroneamente, o endeusa como se fosse o único representante de Deus na Terra.

O problema das religiões nunca foi sua doutrina, ou seus fundamentos, mas sim nós mesmos, os humanos. O problema da religião é que no momento em que se materializa e estabelece no plano terreno deixa de ser algo espiritual e torna-se algo mundano, alvo fácil dos que dominam ou querem dominar.

Mas a função do texto hoje é discernir sobre religião e política. Para mim jamais haverá um bom governante que não seja, antes de tudo, um bom ser humano, um espírito engajado, inspirado nas verdades eternas e servidor, antes de mais nada, do Altíssimo. Sim, porque como servir bem aos seus semelhantes se você nem crê em Deus? Como ser um bom dirigente, seja de uma cidade, estado ou país, se você não acredita que está neste mundo para ser bom, aprender e assim, evoluir?

As hierarquias espirituais se estabelecem pela alta capacidade ESPIRITUAL dos indivíduos. Não importa quanto você tem de dinheiro, ou de títulos, ou se seus amigos são influentes. Importa quem você É por dentro. Importa o quanto seu coração é capaz de vibrar amor, não só ao Criador, mas aos seus semelhantes. Importa o quanto você consegue doar de sua luz, de sua consciência, de seu conhecimento para o bem maior de todos. É isso que importa, e é assim que se sobe hierarquicamente na espiritualidade.

Então, eu creio sinceramente que não há como se ter um bom governo que não seja pautado na crença religiosa, seja ela qual for, mas desde que esta crença estabeleça ao governante os parâmetros básicos de sua conduta – amar ao próximo como a si mesmo; fazer aos outros assim como eu quero que façam a mim. Só assim teremos um mundo justo e decente.

Precisamos parar de separar nossas vidas entre isso ou aquilo. A verdade é que somos seres espirituais e ponto. Viver em um mundo onde as verdades espirituais não são levadas à sério ou não são consideradas como realidade é viver no caos.

Se você acha que religião e espiritualidade só servem quando se está na igreja, ou no culto, ou num terreiro, engana-se redondamente. A mensagem foi passada infinitas vezes, desde os tempos mais remotos. Não importa se Hórus, Jesus, Buda ou Maomé, o amor entre todos, o respeito às diferenças, a distribuição daquilo que se produz, a proteção à infância e ao idoso, tudo já nos foi dito e repetido infinitas vezes. Só não vê quem não quer.

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Para saber mais sobre política e religião/espiritualidade:

 

Pequenas vitórias, grandes alegrias

Vitórias profssionais…

Há 15 dias, mais ou menos, a TI Especialistas entrou em contato comigo. Eles queriam que eu fosse articulista do site, contribuindo com meus conhecimentos na área de documentação de software e gestão de projetos de documentação. Aceitei o convite e, no dia 1° de novembro meu primeiro artigo foi publicado: Seja amigável, invista em documentação! Comprometi-me a escrever um novo artigo a cada duas semanas, e estou gostando muito de participar. O próximo artigo ja está no forno, só esperando a próxima segunda-feira… aguardem!

Vitórias pessoais…

Hoje recebi um email da Bookess, editora independente por onde publiquei meu livro Isabel. Eles queriam me avisar que o eBook de Isabel agora também está a venda na iStore! Os amantes de iPADs, iPHONEs e iPODs agora também podem adiquirir o livro em formato específico para seus aparelhos.

O livro ainda é apresentado em seu formato original, quando da minha primeira revisão. O livro novo, com a nova capa e revisão, pode ser adiquirido em formato eBook ou papel aqui.

Essas pequenas vitórias fazem a gente se sentir mais vivo, não é mesmo? 🙂

 

Mais um no forno…

Meu primeiro romance, intitulado Isabel, por Amor e Lágrimas, foi baseado em experiências vividas durante um tratamento regressivo que fiz a vidas passadas. Como parte do meu tratamento, tive que colocar para fora tudo o que tinha visto e ouvido, e assim nasceu o livro. Demorei um ano para terminá-lo, e quase dois anos para ter coragem de colocá-lo à venda pela Bookess.

Agora, mais de um ano depois de tê-lo feito, eu estou a meio caminho do término de meu segundo romance, A Maldição do Diamante Rosa. Ao contrário do primeiro, este não é um romance baseado em fatos reais, mas antes uma obra de ficção que começou com um post de grande repercussão entre as meninas que visitam este blog.

Devido aos pedidos de muitas, não consegui largar a história que começou como uma brincadeira, e o livro foi tomando corpo e consistência.

Então, àqueles mais afoitos que quiserem ter uma prévia do conteúdo, as primeiras 44 páginas estão disponíveis para leitura no site da Bookess. Palpites, comentários e elogios são muito bem-vindos!

Enjoy! 😉

O Templo da Chama Violeta

Ela era branca, de olhos num tom azul-violeta que não existe nesse mundo. Tinha os cabelos muito loiros e lisos, cortados pouco abaixo dos ombros, em linha reta, e uma franja, igualmente reta, cortada na altura das sobrancelhas. O rosto parecia de porcelana, tamanha a perfeição. Nariz, olhos, boca – tudo convergia numa simetria e beleza angelicais.

Ela vestia um vestido branco fluido, à moda grega, de braços nus e cingido à cintura por cordões dourados. Trazia, em ambos os braços, braceletes largos em ouro – um na altura do ombro quase, e outro no pulso. Havia inscrições antigas neles, lembrando hieróglifos. Trazia uma “malha” de cristais sobre a cabeça que cobria quase que totalmente seus cabelos.

Nos pés, sandálias trançadas. Na mão esquerda trazia um cajado branco. No topo havia um magnífico citrino, que parecia resplandecer a luz solar. Ela me olhou por um segundo e sorriu:

Um diamante. Símbolo da pureza de formas e de constituição. Um diamante amarelo, representante da Lei neste mundo…

Nunca vou me esquecer daquele rosto, daquele sorriso, daquele olhar…

Ela estava parada à beira de uma clareira no meio da floresta. Ao centro havia uma pirâmide, toda branca, encimada por uma estrutura dourada que lhe deixava o topo a descoberto. Por aquela abertura, entrava (ou saía?) um raio violeta que pulsava constantemente. A construção era gigantesca, e o mármore branco refletia o verde das árvores em volta. Eu via aldeões carregando jarros d’água, meninos andando sobre elefantes, casais passeando de braços dados. As “ruas” eram bastante largas e pavimentadas com tijolos dourados. À volta da pirâmide viam-se construções menores, mas todas mantinham o branco total em suas paredes. Aquilo era um centro espiritualista – uma “aldeia” de sacerdotes e seus discípulos, dedicados a manter a chama violeta do templo central intacta e pulsante.

A moça estava ali para assumir seu posto de dirigente daquele centro, mantenedora da chama e guia espiritual daquela região. Surgira à borda da clareira através de um portal dimensional. Viera de longe, preparara-se muito para aquele momento. Estava imbuída de grande poder, conhecimento, intenção e… orgulho.

Novo flash e aparece ao seu lado um outro sacerdote. Um homem também de beleza magnífica. Ele olhou para ela e ela baixou levemente a cabeça em sinal de respeito.

Estás pronta? – ele perguntou mentalmente, e eu pude ver seus olhos brilharem naquele tom violeta estranho.

Sim, foi a resposta mental dela.

Ele parecia preocupado, mas afastou o pensamento pessimista e prosseguiu a pé em direção à entrada da pirâmide, seguido de perto por sua discípula. As portas do templo eram enormes, douradas e recobertas de símbolos. O sacerdote ajoelhou-se, e foi imitado por ela. Levantou-se em seguida e bateu seu cajado por três vezes no solo, pronunciando fórmulas mágicas que pareciam ecoar por toda a aldeia como se estivessem sendo repetidas através de alto-falantes.

As portas se abriram. Um ancião os recebeu, e de repente estavam todos no salão central do templo. Centenas, talvez milhares de pessoas se reuniam naquele grande salão. Ao centro, o raio violeta se projetava, pulsando. A uns três metros do solo, um cubo perfeito, e que parecia feito de pura ametista, flutuava e girava cadencialmente, à despeito de seu tamanho imenso. Logo abaixo, no solo, havia um círculo dourado, sobre o qual sentava-se uma senhora, em posição de lótus.

Após a cerimônia, a nova sacerdotisa substituiu a anciã em sua tarefa de manter a chama pulsante e de servir de guia espiritual àquela gente.

No entanto, a nova sacerdotisa não foi bem-sucedida. Cega por seu próprio orgulho, ávida pelo conhecimento hermético dos grandes iniciados, ela mentiu, distorceu, tomou a justiça em suas próprias mãos e manchou-as com o sangue e as lágrimas de muitos. É certo que pensava estar ajudando àquela gente, mas não estava. Achou que ao controlá-los estaria livrando-os de cometerem erros, mas acabou ela mesma por cometê-los todos. Era o final de um ciclo na Terra, e aquele centro espiritual morreu com ela.

(Essas imagens me vêm à mente quase sempre. A sacerdotisa era eu, e apesar dos erros cometidos, sinto saudades daquela Terra, daquele verde, e daquelas pessoas que se perderam num tempo esquecido e enterrado de todos. Quem sabe um dia eu consiga me lembrar de tudo e possa por no papel a história da sacerdotisa. 🙂 )

Yara e a Senhora das Águas (parte II)

(para ler a primeira parte deste ensaio, clique aqui)

As Ninfas

As ninfas acharam estranho uma moça como aquela sob as águas. Afogamentos aconteciam aqui e ali, mas normalmente eram aldeões que vinham pescar, ou banhar-se, e acabavam por nadar fundo demais. Mas aquela moça não era como eles. Ela vibrava em outro nível, e parecia não estar em seu elemento.

Elas puxaram Yara até a margem, e a deitaram na relva úmida. Aplicaram-lhe alguns passes magnéticos, mas a energia delas parecia machucar ainda mais o sistema físico da moça. Então clamaram pela mãe das águas, pois só ela saberia o que fazer.

Em instantes, toda a natureza ao redor da baía pareceu parar. Os sons sumiram, os pássaros não voavam sobre as águas, e até as pequenas ondas não eram vistas. Próximo de onde estavam, as águas começaram a borbulhar e uma luz azul-prateada ofuscante começou a elevar-se. Primeiro na forma de uma grande bola de energia, que depois foi-se alongando verticalmente até que tomou a forma de um corpo feminino.

A luz ofuscante recrudesceu e as ninfas puderam ver o ente divino que sustentava toda a massa de água naquele planeta – um ser feminino de infinita beleza e longos cabelos azuis escuros, quase negros. Parecia vestida com as águas do mar, em um longo vestido de mangas soltas que cintilavam com todas as cores das águas. No colo trazia pérolas de todas as cores ornamentadas num colar de sete voltas. A pele era alva e iridiscente como o gelo sob o sol e sobre a fronte ostentava intrincada coroa prateada encimada por magnífica estrela do mar que cintilava todas as cores do arco-íris como madrepérola. Estava de pé sobre as águas, a poucos metros delas, e tinha pelo menos dois metros de altura.

Aquele ente divino falou às ninfas em pensamento.

O que tens aqui para mim, ó crianças das águas?

As ninfas, ajoelhadas e de rosto ao chão como estavam, nem se moveram.

Vamos, crianças… qual de vós me dirigirá a palavra? Se quereis que eu auxilie, tens de dizer-me algo…

A ninfa que parecia ser a mais madura, elevou o tronco e conversou telepaticamente com o ente divino, embora com receio de encará-la.

Senhora Mãe Divina das Águas… perdoe-nos o apelo, mas este ser feminino, que parece um ente superior do fogo, caiu em nossa baía. Parece estar desfalecida, e embora tenhamos tentado reanimá-la, ela não parece querer voltar à vida.

A mãe das águas parecia pensar. E então emitiu seu veredito:

Mas se este ser que é dono de si não deseja voltar à Vida, quem sois vós, crianças, para querê-la de volta? Deixai-a onde está, e muito em breve aqueles que são de sua raça a encontrarão.

Houve certo desconforto entre as ninfas. Moveram-se agitadas, embora continuassem ajoelhadas e de cabeças baixas.

Senhora, perdoa-nos a impertinência… mas ela parece ter o coração partido. Não parece escolher este caminho com livre onisciência do que faz. Parece fugir de algum sofrimento que lhe corta o coração e lhe destroça a alma. Por isso nos compungimos dela, Senhora. Queremos dar a ela uma segunda chance…

A senhora das águas calou-se durante longos minutos. Parecia ponderar o que a ninfa lhe dissera, ao mesmo tempo em que sondava a alma daquele ente feminino ora desfalecido.

Vejo que tens razão criança. Mesmo assim, advirto-te: ela tomou a decisão, ainda que inconscientemente. Talvez lhe seja penoso demais viver separada daquele que ama. Se ela retornar à Vida por meu intermédio, não mais será una com sua espécie – será tocada pelo elemento aquático, e a ele pertencerá dali em diante. Sua essência ígnea se manterá, adormecida, no entanto. E quando finalmente deixar esta forma física por determinação do Alto, só então veremos que rumo seguirá. Vês que podes causar-lhe mais dano que remédio? Queres mesmo assim que eu a traga do limbo antes que ela cruze o portal?

Novo alvoroço entre as ninfas. Aqueles seres eram de pureza infantil, e viam em Yara uma moça linda que não queriam perder.

Sim, Senhora. É isso mesmo que viemos pedir-te.

Aquele ser das águas então fechou os olhos e pareceu respirar fundo. Elevou os braços aos céus, de onde infinitas gotas d’água caíam como diamantes, e um longo tubo de luz desceu sobre ela. Pareceu concentrar toda aquela energia dentro de si, e então espalmou ambas as mãos na direção do peito de Yara. Um feixe de luz saiu do coração da senhora das águas e acertou em cheio a fronte, o peito, e as mãos da desfalecida. A luz de tom branco-azulado pareceu penetrar o corpo de Yara e espalhar-se por todos os seus órgãos e membros. Quando finalmente a senhora recolheu as mãos, Yara havia transformado-se: os cabelos, antes ruivos, agora eram de um negro azulado; a pele, antes bronzeada, agora era branca como a luz da lua. Ela abriu os olhos e não sabia bem o que acontecia. Teve tempo suficiente para encarar a mãe das águas que lhe disse:

Levanta-te, ó Yara. Ouve a voz daquela que te trouxe de volta à Vida! Irás com minhas filhas ao fundo das águas mais profundas, e lá estudarás e aprenderás sobre tua nova condição. Lá curarás as feridas que trazes em teu peito; esquecerás as mazelas de teu passado ígneo; sentirás a tranqüilidade das águas cálidas e serás una com elas e com todos os outros seres e entes que as habitam. Durante mil anos estarás entre nós sem voltar a superfície. E só então andarás novamente entre os entes sobre a crosta. Aceitas minha oferta, filha ígnea das águas?

Yara ajoelhara-se extasiada diante daquele ser de magnífica beleza e que emanava um amor e paz profundos. Olhava em seus olhos límpidos e sentia-se amada, acolhida, via-se criança nos braços de uma mãe amorosa e bela. Queria por tudo segui-la, e assim o fez.

– Sim, aceito.

Símbolos azuis acenderam-se na testa, no peito, nas costas, e nos pés e mãos de Yara. Brilharam por poucos segundos e depois feneceram deixando apenas brando calor em sua pele. A mãe d’água sorriu e acenou com a cabeça afirmativamente antes de desaparecer completamente.

Yara parecia acordar de um transe. Olhou-se nas águas calmas da baía e por um instante não se reconheceu. Não teve tempo de fazer perguntas – as ninfas a pegaram pelas mãos e levaram-na para o fundo, sempre rindo, cantando e abraçando-a. Como crianças que acabaram de ganhar uma nova boneca, alisavam seus cabelos, passavam as mãos por seu rosto e mãos. E Yara sumiu sob as águas do mar e o encanto das ninfas.

Yara e a Senhora das Águas

Eu “vi” essa história mentalmente durante uma de minha iniciações na Magia das 7 Ervas. Embora eu pareça saber o resto da história, é difícil colocar “no papel”. Sinto como se a lembrança de toda a história estivesse comigo, mas de alguma maneira estranha eu não tenho a chave de acesso. Então fica aqui a introdução, que eu dividi em duas partes para que o post não ficasse muito longo. Enjoy!

As Árvores

As ávores eram antigas e imensas. O cheiro de relva molhada impregnava as narinas até arderem. Yara andou resoluta até a porta localizada numa das grandes árvores anciãs – troncos gigantescos que abrigavam os laboratórios e residências dos mais antigos magos e estudiosos entes do elemento terra. Ali também se reuniam alguns entes de outras origens, como cristalinos, aquáticos, e até eólicos. Yara parou em frente à porta trabalhada e respirou fundo. Apertou lentamente o gatilho da trava da porta e esta se abriu com leve rangido.

O interior estava cheio de estantes de livros, mesas e bancos. Sobre as mesas, papéis, mapas e livros abertos. Se não estivesse acostumada com lord Herim, acreditaria que uma ventania espalhara tudo aquilo. Mas ela sabia que o velho estudioso tinha verdadeira paixão por sua organizada bagunça. Passou despercebida por dois ou três pupilos que liam entretidos e encaminhou-se à porta que dava ao páteo interno.

Uma grande abertura no centro daquela árvore recebia a luz direta do sol. A luz filtrava-se por entre inúmeras folhas e galhos, mas ainda assim chegava intensa àquele local e inundava tudo com feixes de luz amarelo-dourada. Ali, no centro, havia uma mesa rústica de pedra, e à sua frente um homem de dorso nu trabalhava. Yara recostou-se ao batente da porta e ficou observando-o. Entre suas mãos, ele manipulava a luz que descia por entre as folhas e a condensava na forma de uma esfera de mais ou menos trinta centímetros de diâmetro. Mexia as mãos rapidamente em volta da esfera, enquanto esta parecia encandescer-se, emitindo fagulhas que simulavam diminutos relâmpagos. Aquilo parecia luz líquida que, ao contato com as mãos daquele homem, ia aglutinando-se na forma que ele ora estipulava.

Quando deu-se por satisfeito, exclamou: In’maha lux! E a esfera por fim solidificou-se e pousou lentamente sobre a mesa rústica. O suor descia por sua têmpora, e ele estava ofegante. Foi então que viu Yara à porta. Sorriu para ela e fez um gesto com as mãos pedindo que aguardasse. Virou-se para um dos criados que aguardava e, colocando a esfera sobre um pedestal, testou-a – passou a mão sobre ela e esta acendeu-se qual lâmpada elétrica. Ele sorriu e entregou o pedestal com a lâmpada ao criado:

– Leve mais esta, Maluc. Está pronta.

Virou-se e lavou-se sobre uma tina d’água ao canto. Sua pele, de um branco faiscante, parecia reluzir iridiscente sob a luz solar. Era atlético, e tinha os cabelos e os olhos escuros como a noite. O rosto longuilíneo era bem proporcial, de nariz fino e levemente aquilino. Enxugou-se e vestiu a túnica branca sobre a calça escura. Virou-se e sorriu na direção de Yara:

– Minha querida, como está? Faz tempo que não vejo você!

Yara sorriu e desceu os dois degraus que a separavam de seu interlocutor.

– Luc, é bom te ver! – Abraçou-o longamente. Queria estar naquele abraço mais que tudo no mundo.

Luc incomodou-se um pouco com a demora em soltá-lo, e tentou parecer casual.

– Ora, vamos… não faz também tanto tempo assim, não é? Deixe-me olhar para você, vamos.

Afastou-se dela e olhou-a de cima abaixo. Yara tinha quase a mesma altura de Luc, e ao contrário dele, tinha a pele levemente bronzeada. Os cabelos, avermelhados, pareciam de fogo vivo, mostrando reflexos dourados aqui e ali. Embora Luc tivesse feições mais finas e aquilinas, Yara possuía um rosto mais arredondado, de lábios carnudos e cílios longos e curvos. Os olhos eram do tom do âmbar, e refletiam o sorriso de Luc naquele momento.

– Mas você está a cada dia mais linda, com certeza!

Yara sorriu e virou-se para entrar.

– Vamos, você sabe que esta luz exagerada machuca meus olhos. – queria esconder dele o que lhe ia n’alma.

– Claro, claro… vou pedir um chá para nós dois e então poderemos conversar.

Já dentro da saleta de estudos, Luc pediu aos pupilos que saíssem pois tinha assuntos a tratar com a nobre dama. Yara fora ter com ele em seu traje de montaria – vestia calças enfiadas por dentro das botas de couro cru, e uma túnica muito parecida com a que Luc utilizava, de mangas soltas e botões na frente. Sobre tudo isso, portava um manto com capuz, todo bordado e debruado em tons de ouro e cobre.

A cabeça era adornada por pequena tiara dourada que lhe prendia os cabelos para que eles não lhe caíssem aos olhos, e fora isso utilizava apenas duas pérolas em forma de gota como brincos.

– Luc, eu não vim aqui tomar chá… eu… eu preciso conversar com você.

Luc percebeu a hesitação em sua voz e pegou-lhe a mão.

– Mas é claro, Yara. Você sabe que pode conversar comigo sobre qualquer coisa.

– É, eu sei. Mas não sei bem qual será sua reação à nossa conversa.

Luc franziu o cenho e aguardou.

– Nosso último mês de aula foi muito importante para mim, você sabe…

Luc fez menção de largar-lhe a mão, mas Yara segurou-a entre as suas.

– Você acabou de dizer que nós poderíamos conversar sobre qualquer coisa, Luc. E preciso falar sobre nosso último verão juntos.

– Yara, aquilo foi um erro. Eu…

– Um erro?! Negue! Negue que você me ama, Luc… vamos!

Yara destemperou-se e seus olhos, marejados de lágrimas, adiquiriram a cor do fogo líquido.

– Vamos, faça isso! Faça isso e me vou, nunca mais será importunado por mim, pode ter certeza!

Foi a vez de Luc pegar as mãos dela entre as suas.

– Não, não… calma. Calma, Yara… escute. Eu não vou negar minha afeição por você. Sabe disso. Mas esse sentimento deverá ficar guardado dentro de mim e só. Nada mais. Você sabe disso.

As lágrimas escorriam pelo rosto de Yara. Ela puxou as mãos e enxugou-as. Respirou fundo antes de falar.

– Ouça bem, Luc. Eu fiz minha escolha. Eu escolhi você.

Dizendo isso, depositou intrincada aliança sobre a mesa de madeira. A peça era toda trabalhada em finíssimos filigranas em tons de cobre, ouro e prata. Luc ficou atônito e mal conseguiu balbuciar.

– Yara, não… não diga as palav…

Inhmit Yaramin ya con inhimot Lucifer ye. Dinmiroth alim nye!

A aliança reluziu e imediatamente apareceu no dedo anelar esquerdo de Luc. Yara estava emocionada, ofegante. Por um instante, Luc se imaginou unido a ela, sentiu brando calor forrar-lhe o peito ao sentir o metal da aliança em seu dedo. Mas logo uma sombra escura passou por seus olhos, e ele baixou o rosto entristecido.

– Você não deveria ter feito isso, Yara. Você sabe das implicações. A ordem ficará vibrando nas telas universais, você sabe disso!

– Fiz o que tinha que ser feito, Luc. Desfaça, se for esse o seu real desejo.

– Yara, eu sou cristalino. Você é ígnea. Como pode esperar que nossa união dê frutos?

– Eu não ligo… quero você, não me importa se terei filhos ou não.

– Você diz isso agora. Mas pense: você é sobrinha do imperador. Os entes do fogo governam este tempo, até que chegue a vez do vento. Até lá, vocês têm de garantir a linhagem da família, Yara. Seus entes precisam de você! O Imperador tem apenas um filho, e o rapaz ainda é muito novo. Você já está sendo treinada para assumir, caso ele venha a deixar esse mundo. Imagina-se sentada no trono sem ninguém a quem passar o cetro e a coroa?

– Eu já disse que não ligo! Há outros na linhagem, eu não sou obrigada a assumir o trono se não quiser!

– Verdade, você não é… mas e o fato de que nós dois seremos consumidos nesse amor, Yara? Nada resiste muito tempo ao calor do fogo, e você sabe disso. Você tentaria se apagar por mim, e eu me derreteria ao seu lado. Nossas almas acabariam adoecendo e estaríamos fadados a um fim muito rápido e, temo dizer, dolorido!

Yara chorava baixinho. Ela sabia daquilo tudo. Mas também sabia de casais, nas aldeias, que não seguiram as regras e que viviam muito bem juntos.

– Luc… e quanto aos aldeões? Eles não ligam para nada disso! Casam-se, têm seus filhos, são felizes! Porque nós não podemos?

– Yara, você sabe tão bem quanto eu que os elementos neles são muito mais dormentes do que são em nós. Nenhum deles pratica magia. Nenhum deles manipula os elementos e seus seres. Nós mantemos os elementos em harmonia, Yara!

– Luc, por favor… eu quero tentar. Quero você!

Luc respirou fundo e engoliu o nó na garganta. Precisava ser firme se quisesse demovê-la daquela idéia maluca.

– Não, não posso compactuar com essa sua irresponsabilidade.

Respirou fundo e elevou a mão esquerda à sua frente. Yara chorava sentida.

Ina inhmit Lucifer ye incon inhimot Yaramin ya. Dinmireth alim nya!

O anel fulgurou em seu dedo e caiu sobre a mesa. O metal estava apagado, como se tivesse sido chamuscado pela chama de uma vela. Yara chorava sentida. Tinha esperanças de que, uma vez que ele visse o anel em seu dedo, não conseguiria dizer não a ela. Mas ele a repudiara mesmo assim. Luc tentou abraçá-la.

– Yara, eu não tive escolha…

Yara saiu correndo para o bosque. Luc deu alguns passos na intenção de segui-la, mas por fim achou melhor deixá-la sozinha com seus pensamentos. Mais tarde levaria o veículo que ela deixara estacionado em frente à árvore anciã e então poderiam conversar melhor.

Yara correu por algum tempo. Logo sentiu o calor explodir em seu peito e se viu flutuando acima das árvores. Alguns dos entes ígneos ainda conseguiam transmutar suas formas corpóreas, geralmente aqueles de linhagem mais antiga e que tivessem sido iniciados desde a mais tenra idade. Esse era o caso de Yara. No entanto, a transmutação não podia ser mantida por muito tempo, a custo da própria vida do ser ígneo. Yara, na forma da fênix, não duraria muito tempo. Mas a verdade é que ela pouco se apercebeu do perigo que corria.

Olhou para baixo e viu água – a grande baía circular que desembocava no oceano tinha águas calmas e límpidas. Ali muitos dos entes aquáticos mais elementais viviam, e era a fonte de energia renovadora daqueles que já transitavam por mais tempo em terra firme.

“Eu não deveria ter sustentado essa forma por tanto tempo. Se cair agora, será meu fim…”

E, pensando nisso, Yara rumou para a margem. Mas não teve tempo de chegar ao chão para transmutar-se – despencou de algumas dezenas de metros dentro d’água.

Sentiu o corpo gelar, e lentamente sua visão ficou turva. Antes de desfalecer, no entanto, verificou que formas femininas a olhavam com medo e curiosidade, e sentiu-se abraçada por algumas delas.

(leia aqui a continuação deste ensaio)