O fim de um ciclo…

Nossa Senhora incensou a Jesus Cristo,

Jesus Cristo Incensou aos filhos seus…

Eu incenso, eu incenso esta casa,

Na fé de Oxóssi, Ogum e Oxalá!

 

Hoje este ponto singelo não sai da minha cabeça, desde de manhã. Às 11:00, mais ou menos, recebi a notícia de que nosso amado Mestre havia feito sua passagem… 😦

 

Ontem, quando a página oficial de Rubens Saraceni nos pediu que orássemos para que ele fizesse sua passagem em paz, acendi meu Congá (altar) com lágrimas nos olhos e uma dor terrível no peito. Chorei por quase uma hora pedindo as bênçãos dos céus para aquele que sempre foi luz na Terra. Pedi amparo aos familiares que ficam, à comunidade que choraria sua falta.

Acendi o altar mas não pude ativar a tronqueira… estavam todos quietos lá. Guardiões e Guardiãs em silencioso respeito pela passagem daquele que, enquanto encarnado, foi quem mais os defendeu contra as injustiças que a ignorância semeia no mundo. Pediram-me mentalmente que os deixasse na penumbra… que não abrisse as cortinas nem acendesse as velas porque estavam de luto. Eu respeitei a dor deles, que também era minha.

Entendam: saber que a vida continua não nos exime de sentir saudades de alguém que se vai deste mundo. Somos todos humanos e a dor também nos visita.

Chorei ajoelhada frente à luz que se formou no altar. Eles estavam, e estão, em festa. Sentia-me pequena e egoísta por chorar daquela maneira… fui me acalmando e então sentei-me no banquinho baixo de madeira. Pedi mentalmente à minha amada vozinha que nos ajudasse a suportar a partida do Mestre. Ela sorriu marota, disse que o “menino do arco-íris” estava bem, que a Aruanda iria recebê-lo em festa, que eu sossegasse meu coração porque tudo ficaria bem… chorei mais ainda, e então fui me recordando da risada do Mestre Rubens.

Comecei a me lembrar nitidamente da risada dele. Mestre Rubens gostava de “brincar” e dizer “besteiras” em aula… muitas. E depois, ele ria… ria a valer. Às vezes ria tanto que perdia o ar… ahahahaha… era impagável! Nós ríamos junto, claro, porque a alegria dele era contagiante. Depois ele ficava sério e dizia “isso fica aqui entre nós, tá?”… e ria de novo. Para quem prestasse realmente atenção, entenderia que cada piada, cada comentário, na verdade tinha sempre um fundamento por trás, um ensinamento. Muitas vezes notávamos as nuances, as mudanças que ocorriam a ele em aula. Era palpável, para quem prestasse atenção, os momentos em que ele nos transmitia mensagens diretamente de guias e orixás, guardiões e guardiãs. Impossível não sentir-se um privilegiado ao assistir a esses momentos.

Em 2012 tive o prazer inenarrável de sagrar-me Sacerdotisa de Umbanda Sagrada sob o seu comando… e foi a Umbanda Sagrada que Pai Benedito de Aruanda nos deixou, através de seu maior médium Rubens Saraceni, que hoje pauta cada um dos meus dias. É nesta Umbanda que eu cresci como pessoa, como médium, como Maga. Foi nesta Umbanda que eu batizei a minha filha que, por milagre desta mesma religião, pôde nascer do meu ventre já desenganado pelos médicos da Terra.

Foi na Umbanda Sagrada, de Pai Benedito e Mestre Rubens, que eu me achei, que eu cresci, que eu reuni minha família, e que hoje eu tenho o prazer imensurável de servir a Deus e aos meus semelhantes com gratidão e carinho.

Mestre Rubens, nosso Pai Amado, é hoje luz na Aruanda. Mas, ainda assim, continuará sendo luz nos nossos corações – a cada aula ministrada no Brasil e no mundo, a cada livro lido aqui ou em qualquer lugar, a cada magia iniciada em favor do próximo, a cada fundamento ministrado e explicado com propriedade, o teu legado, Mestre, há de continuar sendo luz aqui na Terra também.

Este post não tem a intenção de homenagear a memória de Mestre Rubens Saraceni, simplesmente porque eu acho que não importa o que eu escreva, vai ser pouco perto da dimensão do trabalho e da doutrina que ele nos deixou aqui na Terra. Então este post é para deixar registrado no Tempo e no Espaço o meu agradecimento e o meu débito a este Mestre que mudou a minha vida e a minha fé. Mudou o meu conhecimento de mim mesma, do Universo e de Deus. Me ajudou a evoluir mais e melhor simplesmente pelo exemplo de sua postura e pelo conteúdo de sua obra.

Que nosso amado Pai Olorum te cubra de bênçãos. Que nossa amada Mãe Yemanjá te receba em sua barca diamantada e te dê momentos de descanso depois de tão árdua missão no mundo. Que nosso Pai Ogum Megê te abra os caminhos da evolução, agora na pátria espiritual. Que tua família consanguínea seja consolada dentro das possibilidades que o momento possibilita.

Que hoje todos saibam que a Umbanda chora a tua falta nesta nossa dimensão. Que tua seja a Paz da missão cumprida e dos bons frutos semeados.

Saudades, Mestre. Saudades sempre. Nós não vamos nos esquecer do teu sorriso, da tua alegria, dos fundamentos que o senhor semeou em vida. Até a próxima…

mestre rubens

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De Natural a Guardião do Amor

Dianae - Pan and Selene

Meu ser é antigo. Talvez tão antigo quanto a formação deste sistema planetário. Eu e meus irmãos somos sustentados pelo Amor e pela energia Geradora Universal. Trabalhamos incessantemente para que a energia geradora se espalhe e a vida se multiplique por todos os lados, sob todas as formas, sejam elas materiais ou não.

Hoje em dia ficamos conhecidos pelas alegorias e pinturas dos Sátiros. Embora não tivéssemos exatamente a forma que hoje nos é atribuída, ainda assim, muito do que dizem era real na época em que as religiões naturalistas eram maioria sobre o vosso planeta. Nossa música e a energia que gerávamos a partir de nossas danças, de nossa alegria, criava a atmosfera perfeita para que os seres se unissem e gerassem de si a Vida. Assim, éramos oferendados durante os rituais de plantio e colheita, e no início da maioria das estações do ano.

Era maravilhoso ver a energia do amor fluir e densificar-se sobre os corpos dos amantes. Era lindo ver o fruto daquelas uniões crescer nos ventres daquelas mulheres e depois poder vê-los nascer e crescer respeitando a natureza e os seres viventes. Era um tempo de pessoas e hábitos simples, mas cheios de sabedoria e riqueza espiritual.

Com o tempo, fui me sentindo cada vez mais atraído por aqueles rituais. Queria estar presente em todos eles, auxiliar e sentir a alegria inebriante que, ao que me parecia, somente os espíritos humanos conseguiam desfrutar. Impossível descrever as espirais de fogo líquido que subiam e geravam de si calor, abundância, amor, gratidão. Aquelas pessoas dançavam, cantavam e festejavam a vida de uma maneira totalmente desprovida de culpa, pois o pecado só surgiu com a cegueira do homem frente às verdades universais.

Muitas vezes colei-me ao máximo aos corpos fluídicos daquelas pessoas, só para sentir um pouco mais daquela alegria, daquela energia divina que só eles conseguiam gerar. Muitas vezes fui alertado pelos Sagrados Tronos Divinos de que aquilo não poderia continuar, de que eu estava passando do limite estipulado para interação entre seres naturais e espíritos. Mas ainda assim eu queria estar junto daquelas pessoas, e pouco a pouco fui deixando meus afazeres de lado. Mas eu não era o único – naquela época vários de nós estavam tão “apaixonados” por aquelas criaturas geradoras de vida e alegria que passaram a cruzar a fronteira entre dimensões durante rituais, tanto públicos quanto privados… para então unir-se energeticamente a homens e mulheres humanas. Estavam negativados, tanto humanos quanto naturais.

Grande foi o desequilíbrio naqueles tempos. E logo seguiu-se um movimento inicial de caça à bruxas e bruxos e aos conhecimentos naturais que por muito tempo haviam nos sustentado. Entrei em desespero. A alegria, o culto à vida, as energias geradas… tudo foi sendo consumido em sua própria negatividade.

Eu já não era um natural. Havia quebrado muitas regras, havia auxiliado no desequilíbrio daquelas pessoas e daquele sistema de forças. Mas meu “castigo” foi brando: minha consciência levou-me a humanização, e eu encarnei como espírito humano. Tive pouquíssimas encarnações, mas em todas elas a energia de encantamento e desejo que eu gerava era difícil de suportar e a maioria das incautas sucumbia a um pedido meu.

A cada morte do corpo físico, mais e mais minha consciência me alertava dos erros cometidos. Eu me sustentava nas “sensações” geradas através da união sexual, mas amor era algo que eu não conseguia sentir. Terminado o ato, eu me sentia vazio, oco, desprovido de toda a humanidade que, um dia, eu quis tanto conhecer. Caído em esferas negativas, chorei, implorei o perdão dos Tronos Divinos, pedi a todas as forças geradoras da vida que me permitissem ser útil de alguma outra maneira, pois já não suportava mais estar vazio daquela maneira.

E foi então que eu o ouvi.

– Ahahahahah… então, ex-natural do Amor, cansou de brincar de humano depravado? Ahahahahaha…

Era um ser enorme, todo coberto em manto negro. Eu não via nada dele, mas seus olhos tinham um brilho estranho, como um fogo líquido, azulado…

– O que foi? Perdeu a voz também? Essa voz tão linda que encanta a tudo e todos? Ahahahahaha… aposto que agora perdeu a vontade de cantar, não é? Ahahahahah…

Eu era só andrajos. Tinha a aparência de um velho ressequido, e mal conseguia me locomover. Meus cabelos estavam brancos e ralos. Meus olhos, vítreos e sem brilho. Minha garganta doía de sede…

Mentalmente, perguntei quem ele era. Pedi que, se estava ali para acabar com meu sofrimento, que eu dava graças ao Criador de Tudo por sua bondade para comigo. Pedi que ele olhasse por todos aqueles que eu havia, em minha ignorância, desencaminhado. Lembrei de meus irmãos naturais e pedi também pela saúde e alegria deles. Pedi que minha desdita servisse de exemplo para que nenhum deles mais viesse a cair como eu caí.

Finalizada a minha rogativa mental, lembrei-me de uma antiga canção que nós entoávamos com nossas vozes e instrumentos de sopro. Lentamente, comecei a entoá-la num murmúrio, enquanto grossas lágrimas molharam meu rosto. Ao longe, ouvi como se um eco daquela melodia se formasse… e pouco a pouco um círculo de luzes fechou-se ao meu redor. Abri levemente os olhos e vi meus irmãos: eles dançavam e sorriam à minha volta formando um círculo de energia dourada e brilhante.

Fechei novamente os olhos e pensei comigo: sou o mais feliz dos homens! Voltarei à Fonte de Tudo ao som do amor à natureza!

Um brando calor me envolveu, e eu novamente abri os olhos e percebi que uma dama de rara beleza me carregava no colo. Ela tinha duas vezes a minha altura e brilhava em todos os tons de rosa e dourado possíveis. Sua luz era tão grande que me ofuscava então fechei os olhos novamente e os mantive assim, enquanto ela caminhava lentamente comigo nos braços. O amor que dela emanava era tão grande, tão sublime, que me preencheu inteiro e eu sentia como se fosse explodir. Queria dar daquele sentimento a todas as criaturas, onde estivessem, sem exceção.

Ela recompôs meu espírito. Em pouco tempo me vi de pé, forte e saudável. Mas, o mais importante era que eu já não me sentia vazio. O centro do meu peito irradiava a mesma luz que eu via naquela adorável dama. Como eu não podia sustentar seu olhar, ajoelhei-me e preguei os olhos sobre os lindos pés descalços que pareciam flutuar poucos centímetros acima do solo poeirento. E então sua linda voz ecoou no meu cérebro espiritual…

– Filho querido… tudo tem um propósito. A força geradora que te criou, por alguma razão, te queria entre os homens de boa vontade. Tua negatividade desviou-te dos desígnios traçados para ti, mas a eternidade aguarda que levantes e caminhes o caminho reto da Lei da Vida. Vivenciaste aquilo que precisavas para compreender e tomar consciência daquilo que és: um Guardião do Amor, da Lei e da Vida. Veste-te, agora, com a roupagem negra deste teu Grau, enquanto manténs sob este manto a luz dourada com a qual eu te cobri.

Conforme ela falava, um manto negro e brilhante surgiu sobre mim, cobrindo-me dos pés à cabeça. Instintivamente olhei à minha esquerda e verifiquei que o grande ser que me encontrara estava também de joelhos à esquerda daquela dama. Via nele o carinho e a devoção que sentia por ela e me orgulhei de me tornar alguém igual a ele…

– Um dia tivestes o vazio dentro de ti enquanto buscavas o amor de forma desequilibrada. Agora, preenchi teu ser com o verdadeiro Amor à Vida e o Vazio há de cobrir-te para que todos saibam que tu tens o poder de esvaziar os desequilíbrios em meu nome.

Ela tocou de leve o topo da minha cabeça e eu senti como que um choque elétrico percorrer todo o meu corpo. Minha consciência expandiu-se e eu percebi o quanto homens e mulheres de todos os credos e origens estavam errando e desequilibrando-se em nome do amor. Meu ser encheu-se da mais profunda vontade de acabar com aqueles desmandos, de mostrar a cada um deles que aquilo não era amor, e uma raiva incontida me fez travar os dentes e fechar os punhos.

– Assim é a natureza de todo Guardião. Mas cuida que tua raiva não ultrapasse os limites da Lei Divina, ou ela há de acabar contigo antes de qualquer coisa. Agora eu te armo com esta espada dourada e te dou a insígnia de Guardião à minha esquerda.

Senti um jorro de energia me atingir em cheio sobre o peito, me atravessar e sair pelas costas. Além disso meus pés e palmas das mãos ardiam em fogo. Olhei para elas e um símbolo estava marcado em cada uma. Logo em seguida uma espada materializou-se à minha frente e fincou-se ao solo… brilhava como um sol e, aos poucos foi-se apagando.

– Pega tua espada e levanta, Guardião. Tua missão começa pelo estudo e desenvolvimento de tuas faculdades naturais no meio humano. Vais encarnar. Cuida para que não cometas erros demais e tenta semear o amor entre os homens da Terra.

E ela desapareceu. Ajoelhei-me e chorei, agradecido. Aquela sensação de calor interno, principalmente sobre o peito, nunca mais me deixou. Pela última vez encarnei e servi à Vida como Templário para então voltar ao Trono que me era designado, para estudar e auxiliar a quantos eu conseguir.

A raiva daqueles que erram em nome do Amor sob qualquer pretexto ainda me acompanha onde quer que eu esteja. Mas ela nunca é maior que aquela energia maravilhosa que me preencheu e que transborda de mim constantemente, me dando vida nova. Muitos outros mistérios me foram revelados, muitas coisas eu vi, ouvi e vivi. Hoje tenho a certeza de que meu lugar é aqui, onde minha amada mãe Oxum, senhora do Amor Universal, me colocou. Daqui só sairei no dia em que ela assim determinar.

guardião amor

A Guardiã de Mistérios – Parte 2

guardiã 2

Quando finalmente terminou a solidificação da gaiola cristalina, virou-se e encarou o guardião que estava ajoelhado, de cabeça baixa, sem conseguir mover-se. A guardiã postou-se de pé bem junto a ele e, mentalmente, lhe disse:

Tu sabes guardião, que se eu te acompanhar, o Espírito do Fogo há de adiantar-se a mim, e há de queimar a tudo e a todos que me desejam mal. Então, te pergunto: queres mesmo que te siga?

Senhora… senhora, meu amo precisa de tua ajuda… ele… ele precisa… ele precisa que a senhora vá vê-lo…

Mesmo mentalmente, a voz do guardião tremia. A guardiã riu alto e complementou em voz alta:

– Ahahahahahaha! Mentira! Você mente e eu vejo porque. – ela então fez um movimento rápido com a mão direita – Está livre, levante.

O guardião, sem acreditar que conseguiria, levantou-se cambaleante. Era um esqueleto de quase 2 metros de altura, vestido apenas com uma capa negra.

– Agora tire esse capuz e me olhe nos olhos, guardião.

Ele retirou o capuz mas manteve a cabeça baixa.

– Senhora, eu…

– Eu mandei você me olhar.

O Caveira olhou para ela com seus olhos fundos e vermelhos. Os olhos da guardiã tornaram-se luz pura, irradiando pequenos raios aqui e ali. Ela penetrou nos olhos do guardião e seguiu pelos cordões negativos que o ligavam ao seu mestre. Na outra ponta daqueles cordões negros havia uma criatura descomunal, assentada em um trono negro. Ela então sorriu intimamente e retornou sua visão para o guardião à sua frente. No processo, queimou totalmente todos os cordões que ligavam a caveira ao seu mestre negativo.

O guardião, pressentindo que nada poderia ocultar dela, caiu de joelhos, chorando e implorando seu perdão, segurando freneticamente a barra de sua capa branca e luzidia.

– Senhora, por Deus, me ajude! Por Deus, senhora, eu lhe imploro! Serei teu servo por toda a eternidade, mas não me mande de volta!!!

A guardiã sabia que a caveira estava sendo sincera.

– Levanta guardião. Guarda tuas lágrimas para quando realmente precisar delas. Vamos, levanta.

A Guardiã segurou o Caveira pelas mãos e auxiliou-o a levantar. Conforme ele levantava, seu corpo perispiritual foi refeito. Era um belo homem jovem, que agora estava nu, coberto apenas pela capa negra que o distinguia. Quando viu-se regenerado, chorou ainda mais, e beijou efusivamente as mãos de sua benfeitora.

A guardiã puxou as mãos com delicadeza e disse:

– Chega, paremos por aqui. Nada mais de lágrimas. Vai e auxilia na proteção das jovens que se perdem e acabam sendo escravizadas por imbecis do tipo de seu antigo mestre. Você está livre, agora caminhe o caminho reto da Lei e da Ordem. Dá de você àqueles que têm menos, assim como eu dei de mim a você. Segue por esta passagem e obedece ao guardião mineral que te espera do lado de lá…

Ela ergueu a mão direita e abriu uma passagem dimensional. Do outro lado havia um guardião em vestes negras, com detalhes dourados aqui e ali. O guardião manteve sua posição de alerta com os braços cruzados acima do peito, mas saudou a guardiã com um aceno de cabeça. O antigo caveira passou pela passagem e esta fechou-se automaticamente.

A guardiã respirou fundo e abriu nova passagem à sua frente – agora via-se uma multidão de guardiões, todos perfilados em formação militar à direita e à esquerda do trono negro que ela havia visto. O ser assentado naquele trono tinha chifres enormes, pele vermelha, dentes pontiagudos e garras afiadas no lugar das mãos. Não é dos piores, pensou ela, e sorriu. Entrou pela passagem e imediatamente apareceu no corredor principal, com aqueles milhares de guardiões perfilados de um lado e de outro. Sua capa, antes alvíssima, agora estava negra e brilhante. O debrum, antes dourado, agora era vermelho-sangue. Por dentro, ainda podia-se ver sua roupa branca e o forro da capa era de um tom arroxeado bem escuro. Ela caminhou lentamente e, conforme caminhava, as legiões de seres iam caindo de joelhos. Muitos, milhares, gritavam mentalmente pedindo perdão e auxílio. Em instantes eram tantas vozes em sua mente que ela precisou respirar e concentrar-se, transmitindo, ao mesmo tempo e para todos, a sensação de paz e amor. Um pouco mais e as vozes cessaram – ela estava de fronte à escadaria negra que levava ao trono daquele ser trevoso.

Sua luz não me intimida, guardiã! Muitos vieram aqui brilhando, e jamais saíram… ahahahahahaha!

Ela percebia a raiva emanada por aquele ser. Ele queria subjugá-la mas, no entanto, ela entrara em seus domínios, colocara seu exército de joelhos e agora ousava olhá-lo nos olhos sem tremer.

A Luz não deve nunca ser temida. A Luz deve ser almejada, respeitada, amada. Um dia, até você há de aprender isso…

Porque não libera meus guardiões? Acaso tem medo deles?

Se prestar atenção, verá que estão de joelhos não por minha vontade, mas pela vontade da Lei. E, se olhar mais de perto, verá também que já não estão mais presos a você, portanto não são mais SEUS…

Mentalmente ele tentou comandar a um e outro, mas não conseguiu. Verificou então que todos os cordões negativos que os mantinham presos a ele haviam, magicamente, sumido… consumidos que foram pelo Fogo Divino. A besta urrou de ódio crispando suas garras nos braços do trono:

– Ah, maldita!!! Como ousa vir até aqui e me dizer o que fazer?! Eu não respondo a você, não respondo a ninguém! Ajoelhe-se se quer que eu poupe sua vida!

– Eu, ao contrário de você, tenho Mestre e Senhor: respondo à Lei e à Justiça Divinas… e só a elas me curvo.

– Pois então há de ficar aqui como minha escrava! Ahahahahahahahah…

– Se vou ficar, é melhor que faça deste local algo mais ao meu gosto feminino…

O ser tenebroso não teve tempo nem de piscar. A guardiã abriu ambas as mãos apontando-as para baixo e respirou fundo – chamas azuladas envolveram suas mãos e irradiaram-se em ondas de energia atingindo tudo e todos, ao mesmo tempo que paralisaram o ser em seu trono negro. Conforme aquelas ondas iam se movendo, muitos tomaram a forma de ovóides enquanto outros foram instantaneamente transfigurados e encaminhados a outras dimensões da vida. Houve gritaria e desespero por alguns segundos, até que tudo silenciou. As chamas azuladas estavam por toda a parte.

A guardiã então ergueu a mão esquerda e no mesmo instante materializou-se um alfanje de cabo negro brilhante e lâmina cristalina. Ela bateu com o cabo do alfanje no chão, e aquele trono inteiro, juntamente com o ser assentado ali, explodiu em luz com um estrondo ensurdecedor.

Os ovóides de Magos e Guardiões enterrados embaixo do trono foram libertos e o Trono Divino regente do local foi restituído à sua posição. Os ovóides dos guardiões negativos foram recolhidos e enviados às esferas transmutadoras, e as equipes de limpeza e socorro iniciaram suas tarefas de reconstituição da paisagem local.

(continua…)

A Guardiã de Mistérios – Parte 1

guardiã

Andava pelas densidades negativas próximas à crosta. A paisagem era sempre escarpada, com pouca ou nenhuma vegetação. Como estava próxima à dimensão dos encarnados, os dias eram marcados por uma luminosidade difusa, e as noites eram pontuadas de certo “luar” melancólico. Vestia-se inteiramente de branco – a roupa assemelhava-se ao uniforme dos antigos Ninjas, com calças ajustadas abaixo dos joelhos e sapatos que mais lembravam meias. Os cabelos, compridos e negros como a noite, estavam trançados do topo da cabeça até as pontas e a capa, com capuz, cobria-lhe totalmente, deixando ver apenas o nariz fino e a boca rosada. Toda debruada em dourado, os desenhos eram de símbolos entrelaçados. Conforme caminhava, o branco da capa parecia iridiscente, furta-cor… dir-se-ia inclusive que aquele era um tecido “vivo”.

Caminhava lentamente, como quem não tem destino certo, e viu-se subitamente atacada por um desencarnado que vinha em sua direção em desabalada carreira, gritando-lhe impropérios, brandindo os punhos fechados de maneira ameaçadora. O desencarnado expunha partes do corpo sob a roupa que estava rota e parecia ter vindo da Europa do século XVIII…

– Maldita! Assassina! Você vai se arrepender de cruzar meu caminho! Desgraçada, eu te mato agora!

Um tanto surpresa de início, a Guardiã serenou e respirou fundo. Suas mãos e os antebraços até a altura dos cotovelos transformaram-se em puro cristal transparente. Ela então apontou-as na direção do espírito que lhe atacava e projetou o Mistério em sua direção. Ele estancou, preso ao chão por “sapatos” de cristal transparente que o imobilizaram até os joelhos. Continuou tentando mover-se, desequilibrava-se e gritava furioso. A guardiã aproximou-se e ele tentou aplicar-lhe vários golpes com os punhos, sem sucesso. Ela cruzou os braços e suas mãos voltaram ao normal. Como ele continuava gritando impropérios, ela simplesmente fez um gesto com a mão esquerda no ar, e sua voz cessou – ele não conseguia mais abrir a boca, nenhum som era emitido.

A guardiã então respirou, retirou o capuz, olhou-o fundo nos olhos e falou pausadamente, numa voz que parecia ecoar ao infinito:

– Da maneira como vejo, você enganou, ludibriou, chantageou, e por fim conseguiu um casamento vantajoso comigo. Como se isso tudo não bastasse, você me espancou, usou e abusou durante anos. Eu, não aguentando mais a situação em que você colocou-nos a ambos com seu ego e sua arrogância, e depois de ter implorado a você inúmeras vezes que me libertasse daquele inferno, finalmente sucumbi ao erro e te envenenei. Não me alegro com isso. Mas, ainda assim, e verificando o seu sofrimento, compadeci-me de você e cuidei, zelosamente, de todas as suas dores e necessidades até que finalmente sua morte chegou. Ainda em vida, paguei por esse erro com a fome, a miséria, o medo, a vicissitude, e o estupro constante de meu corpo. Alguns anos depois eu também desencarnei.

A guardiã fez uma pausa como se recordando o passado distante, respirou uma vez mais e continuou:

– Da maneira como eu vejo, não te devo nada, uma vez que errei e aprendi com meus erros. E para comprovar minha teoria, ativei mistérios divinos contra você, sem nenhuma dificuldade. Se eu fosse a devedora nessa história, a Lei Maior jamais me teria atendido… e no entanto aí está você, e aqui estou eu.

Terminou a conversa com um sorriso de canto de boca, que muito enfureceu o desafeto à sua frente. Liberou sua voz, que então começou a gritar impropérios novamente:

– Lei? Que Lei?! A lei aqui quem faz sou eu, você não é NADA! Sua vadia, sua bruxa!!! Você é o demônio e eu hei de me livrar de você de uma vez por todas, com ou sem essa sua lei ridícula! Ahahaha! Lei! Você e sua lei são duas idiotas! Voc…

O desencarnado não teve tempo de proferir mais nada. Inflando-se de ódio contra o blasfemo à sua frente, a Guardiã transformou-se. Sua altura triplicou-se; no lugar de suas vestes brancas, uma longa cauda de serpente negra se formou. As escamas pareciam diamantes negros, brilhavam conforme o réptil movia o guizo que chacoalhava sem cessar. Elas subiam pelo corpo da guardiã e cobriam seu torso e seios como se fossem um vestido negro. Seu rosto, antes sereno e belo, adquiriu feições de raiva, com dentes longos e pontudos. Os olhos, antes claros e brilhosos, agora estavam vermelhos e injetados. Suas mãos eram garras e, com elas apontou em direção ao desencarnado que, paralisado por aquela visão assustadora, parecia derreter transformando-se numa massa disforme e escura.

A criatura falava, e o som de sua voz cortava como o aço:

– Blasfemo!!! Tu não dirás mais nenhuma palavra, pois agora és maldito! Daqui não sairás até que tenhas purgado todas as palavras insanas que jogastes aos meus pés! Hás de aprender a honrar a Lei Divina, e JAMAIS falarás a uma Guardiã de Mistérios como acabas de fazer, jamais!!! Voltas à tua forma primeva e purgas teus males neste chão duro e poeirento, maldito!

A cauda sibilava, e o desencarnado tornou-se pouco mais que um homúnculo nu, enlameado em sua própria maldade e ignorância. Contorcia-se e gemia em posição fetal, já alheio a tudo à sua volta. Em um piscar de olhos a guardiã retomou sua forma de luz – suas vestes brilhavam mais que antes e ela ergueu a mão direita em concha sobre aquele ser em sofrimento:

– Fica, pois, aqui neste lugar. Sente na pele tudo aquilo que fizeste de mal, principalmente às mulheres de tuas vidas. Tua consciência há de recordar-te de tudo, até que compreendas que é a Lei da Vida quem determina como, quando, onde e porquê. Para proteger-te e ajudar-te, coloco ao redor de ti esta gaiola de luz cristalina. Aí, feito o animal que ainda és, ficarás confinado até que estejas pronto para retomares tua caminhada. Estas grades de pura luz cristalina serão tua prisão, mas também tua proteção… nada, nem ninguém, há de fazer mal a ti enquanto estiverdes sob a proteção da Luz Cristalina. Conforme fordes ganhando consciência de teus atos, a luz desta cela doar-te-á a energia que necessitas para recompor teu corpo espiritual, emocional e mental. Quanto mais consciente de teus erros e mais arrependido estiverdes, mas fracas estas barras cristalinas ficarão, até que nada mais sobrará dela. De dentro de tua prisão tu hás de nascer de novo, consciente do ser divino que és…

A guardiã respirou e uma gaiola de luz cristalina formou-se ao redor daquele que jazia ao chão. Ela projetou uma vez mais e as barras solidificaram-se em cristal translúcido e pulsante. Enquanto assim procedia, mentalmente percebeu a aproximação de um guardião às suas costas, e então estendeu a mão esquerda na direção contrária e deu a ordem mentalmente: Pára e ajoelha!.

Quanto custa uma amarração?

A noite estava estrelada e uma lua cheia iluminava a rua poeirenta daquele bairro afastado de periferia. O barracão era simples, mas estava limpo e arrumado com esmero. O congá continha poucas imagens, mas estava enfeitado de flores, velas e incenso caseiro feito de ervas aromáticas, imprimindo ao local uma atmosfera de tranquilidade e acolhimento.

Uma fila enorme já se formava na porta, e pouco a pouco os filhos de fé foram chegando. As roupas eram simples, mas muito brancas. Chegavam em silêncio, cumprimentavam a assistência ainda na fila, e entravam de cabeça baixa, em reverência aos poderes assentados naquele local.  Ao adentrar no espaço da gira, ajoelhavam-se, cruzavam o solo, e então levantavam-se a caminho do congá. O chão de terra vermelha batida tingia seus uniformes, mas aqueles filhos de fé não se importavam, pois aquelas marcas eram a confirmação de sua submissão aos poderes divinos. Muitos deles ainda paravam diante do congá, e ali ajoelhavam-se e encostavam a testa no solo, fazendo pequena prece aos seus guias e orixás. Todos deixaram seus pertences nos vestiários que se localizavam ao fundo, passando por um corredor localizado à direita, por trás do congá. Ali também havia duas salas de cerca de 6 metros quadrados cada, destinadas ao recolhimento dos irmãos de fé em oração, onde estavam assentados muitos elementos dos orixás, guias-chefes e guias de esquerda daquela casa.

Às 19:00 horas em ponto os portões se abriram para a consulência, e às 19:30, uma senhora de cerca de 80 anos adentrou o terreiro com sua saia rodada alvíssima. Baixa e corpulenta, tinha a pele morena e olhos brilhantes de um tom esverdeado que parecia ver além das pessoas. Só sua presença já fez com que o zumzumzum da conversa fosse baixando de tom até que o silêncio passou a reinar soberano no local. Aquela senhora deitou-se com o rosto colado sobre uma esteira estendida na frente do congá e ali fez sentida prece de agradecimento por poder, uma vez mais, servir de instrumento aos seus amados guias de Umbanda e aos seus orixás. Naquele momento, o guia chefe da casa intuiu-a sobre a palestra da noite. A senhora suspirou fundo e, auxiliada por um filho de fé, levantou-se e encaminhou-se até uma cadeira que fora posicionada de frente para a consulência.

Ali não haviam microfones, nem ar condicionado, e a luz elétrica era pouca. Ainda assim, sua voz soou potente e límpida, sendo ouvida por todos que não conseguiam desgrudar os olhos dela:

“Boa noite, meus filhos. Que a paz de nosso amado Pai Oxalá esteja com todos. Bem-vindos a esta casa de caridade, cujo intuito é servir à espiritualidade maior da Umbanda. Hoje nossos trabalhos serão realizados sob o comando de nossos guardiões e guardiãs de esquerda – nossos amados Exus e Pombogiras. Enquanto rezava e agradecia a bênção de poder servi-los, nossos amados irmãos espirituais me pediram que contasse a vocês sobre a dura realidade dos trabalhos de amarração. É uma infelicidade que muitos de nossos irmãos na carne ainda acreditem que este é o melhor caminho para a felicidade. Uma infelicidade e um engano. Amarrar, meus filhos, significa submeter à sua vontade; significa anular a vontade do outro e torná-lo um boneco, um joguete, um robô. Um ser amarrado a você será sempre isso: um boneco sem vida e sem vontade própria, cuja força vital vai se esvaindo rápido. Por isso, nosso alerta: desista desse intento agora, antes que seja tarde. Mas, se apesar desse alerta, você ainda persistir no seu intento, eu tenho o dever de alertá-lo sobre as consequências deste ato desumano. Primeiro, que fique bem claro, esta é uma casa de fé; aqui nós não fazemos este tipo de trabalho, e se essa é sua intenção, peço que se vá. Mas antes, imploro que ouça meu relato. – a dirigente respirou fundo e fechou os olhos, parecia tomada por uma força superior. Quando abriu os olhos e começou a falar, sua voz soou alta e clara, carregada de magnetismo, e mais masculina que o normal.  – Do alto de seu orgulho, você decidiu amarrar o alvo de seu afeto à você. Seu desejo é que ele não veja mais ninguém, e só seja feliz ao seu lado; que ele só tenha olhos para você, e que nada nem ninguém se interponha em seu caminho. Tanto buscou e procurou que finalmente encontrou um desavisado para concluir o serviço. Pagou caro, vendeu parte do que tinha, mas o importante é que conseguiu o que queria: ele finalmente agora é só seu. Só tem olhos para você, te cobre de carinhos, tornou-se um cachorrinho aos seus pés, faz tudo que você pede. Em breve estão casados, desfrutando da vida em família, felizes e realizados. Você engravida e passados cerca de dois anos de sua união, seu príncipe encantado começa a virar sapo. Você nota que ele envelhece mais rápido que o normal; os cabelos estão ficando grisalhos antes do tempo, e a pele, antes viçosa e firme, já mostra sinais do envelhecimento precoce. Mas nada disso importa, porque você o ama, não é mesmo? Você então nota que seu companheiro já não se mostra tão entusiasmado e não tem mais vontade de amá-la como fazia antes. Ele se cansa rápido e suas noites de namoro resumem-se a menos de quinze minutos de união. Mas, o que importa isso se você o ama? O tempo passa e ele não consegue mais cumprir seu papel de homem na cama. Os cabelos estão brancos, embora ele tenha pouco mais de trinta anos apenas. Vocês procuram médicos, fazem tratamentos, mas nada funciona, seu amado está impotente. Mas o importante é que vocês se amam e estão juntos, certo? Você então nota que ele fica cada vez mais tempo em casa, quase não brinca com as crianças, e sempre você tem que decidir tudo sozinha: da compra do supermercado às roupas que ele veste. À esta altura ele já engordou bastante, como resultado da falta de energia e de vontade que tomam conta de sua vida. Ele também está tendo problemas no trabalho, e ultimamente anda perdendo muito dinheiro e bebendo além da conta. Mas, com certeza, o amor de vocês há de superar tudo isso. Você já não tem tempo para nada, lava os cabelos quando dá, não faz mais as unhas, e o dinheiro agora está curto, porque seu amado perdeu o emprego e passa os dias com o traseiro grudado no sofá, os olhos vidrados na televisão. Esse tormento já dura quase dez anos e você não sabe quanto tempo mais agüentará. Ele então começa a presentar sintomas febris, e acaba sendo diagnosticado com câncer de próstata. O dinheiro que já era curto, fica mais escasso, e você passa a trabalhar três períodos para comprar parte do medicamento necessário. Mas o importante é que ele é o homem da sua vida e há de recuperar-se. Alguns anos de sofrimento e dores e, finalmente, 15 anos depois de tê-lo amarrado, você tem de comparecer ao enterro de seu grande amor. Não fosse a amarração, ele viveria pelo menos até os 70 anos de idade; ou seja, além de amarrá-lo, você o matou. Mas, enfim, ele foi amarrado a você, e no momento em que seu espírito se vê desligado do corpo inerte, ele é imediatamente transportado para o seu lado. Na dimensão espiritual, ele é um autômato, seus olhos não tem cor, parecem nuvens cinzentas. Ele não tem vontade alguma, só deseja uma coisa: estar com você. E assim, dia a dia, ele gruda em seu campo vibratório. Você dorme mal, não consegue se relacionar como ninguém, as crianças adoecem, e em sua casa, por todo lado, sente-se um cheiro de cadáver insuportável. Você então deicde buscar auxílio espiritual. Vinte anos depois de ouvir a esta palestra, você se lembra da casa de caridade que pode ser sua única salvação. Então você comparece aos trabalhos, chora, reza e pede a Deus que tenha compaixão de sua alma. Aqui dentro você se sente um pouco melhor e isso lhe dá esperanças. Na consulta com o guia, ele lhe dá um passe e manda que você ore em casa; mas a verdade é que o guia nada pode fazer – o trabalho negativo foi feito por você segundo sua vontade e só você poderá desfazê-lo. Como? Arrependendo-se, servindo ao Altíssimo e, quem sabe assim, quando do seu desencarne, talvez, esse homem que você tanto ama venha a te perdoar e você finalmente se veja livre de sua própria insanidade. – a senhorinha então fechou os olhos e respirou fundo uma vez mais. Um lágrima silenciosa desceu de seus olhos. Ela então abriu-os e encerrou a palestra – É isso, meus filhos. Guardem esse alerta em seus corações. Não se esqueçam que orgulho e cobiça não são amor. Agradeço a sua presença esta noite e peço concentração e silêncio durante os trabalhos.”

Levantou-se encaminhando-se ao congá com seus filhos de fé perfilados atrás de si. A consulência estava silenciosa e pensativa; alguns poucos levantaram-se e se retiraram, ignorando o alerta da espiritualidade. Os médiuns ajoelharam-se e deram início aos trabalhos.

(Esse texto é uma obra de ficção, inspirado por minha amada Guia Chefe, Vó Benedita de Aruanda)

Para saber mais:

AMARRAÇÃO, psicografado pela Sacerdotisa Dinan Dhom Pimentel Sátyro

Cuidado com o que dizem por aí…

Hoje estava lendo um material postado por um médium (ou canal, como queiram). O material provinha de uma mensagem (ou canalização) ditada em viva-voz por um dos espíritos que acompanham esse médium durante um de seus cursos em Lisboa, Portugal. Ele trabalha bastante no meio, dando cursos de “ancoragem” espiritual em vários níveis, reiki, etc.

A primeira vez que ele realmente me chamou a atenção foi quando ele anunciou um tal curso de Orixá Reiki. Segundo ele, sempre que ele dava os cursos de Reiki, entidades com aparência de índios, pretos-velhos e outros se apresentavam à sua visão mediúnica e trabalhavam com ele, ajudando as pessoas. E daí ele desenvolveu essa “técnica” de trabalho do reiki amparada por entidades que se autodenominam associadas ao panteão africano – as divindades que na Umbanda e no Camdomblé são denominadas Orixás.

Eu sempre li os artigos desse médium, porque sempre achei muita coisa boa, muita coisa interessante, no meio de tudo que ele escreve. Mas hoje me assustei com as declarações da entidade, não porque elas não sejam verdadeiras, mas porque podem confundir pessoas menos esclarecidas.

A entidade diz que seres de luz não precisam de velas, de entregas, nem de nada disso, numa alusão bastante clara às práticas religiosas afro-brasileiras. Eu, como Umbandista, me sinto no direito de redarguir e explicar:

Realmente, um Orixá não precisa de nada disso. Um Guia de Luz, muito menos. Somos nós, os encarnados, e os espíritos perdidos nos diversos níveis negativos, quem precisam. Entendam que a energia de um Orixá, de um guia com alto grau de elevação espiritual, é por demais “rarefeita” para penetrar nosso campo. Nós somos espíritos em evolução, encarnados em corpos materiais. Somos bombardeados constantemente por energias das mais densas, e muito poucos, diria uma minoria ínfima, poderiam dizer-se totalmente equilibrados e livres de interferências, certo?

Então como uma energia assim tão pura pode penetrar nosso campo com maior eficiência e finalidade? Fazemos isso através dos elementos. Ao utilizarmos uma flor, a chama de uma vela, um alimento, um cristal, uma pedra, uma cor… tudo isso produz vibração elemental que, em contato com a vibração espiritualizada do Orixá ou do guia, altera sua frequência, tornando-se mais facilmente absorvida por nossos espíritos e corpos. Se não fosse isso, o Orixá poderia simplesmente projetar a energia em nossa direção, mas com o “cascão” que nos cerca, quanto dessa energia benfazeja nós poderíamos absorver de fato?

E vocês dirão – ok, mas eles não são divindades? Não estão num plano muito mais alto que o nosso? Então porque eles não tem o poder de dissipar e penetrar nesse campo, limpando tudo e todos num piscar de olhos? Eu respondo simplesmente que sim, eles tem esse poder, mas não tem esse direito. Nosso livre-arbítrio, nossas escolhas, nosso pensamento, nossas faltas, nossas palavras e atos, tudo isso dita quanto de energia divina pode ser absorvida por nós. Interferir no livre-arbítrio alheio significa endividar-se perante a Lei Divina, e nenhum Orixá jamais faria isso.

Portanto, não se pautem pelo que alguns dizem por aí de modo tão enfático e definitivo. A falta de conhecimento sobre o assunto, e a necessidade de rotular que essas pessoas tem as faz precipitarem o julgamento. Há muitas variáveis nesse sistema, e a que dita todas as normas é a Lei Divina, imutável e aplicável a todos igualmente. Semelhante atrai semelhante, energia atrai energia, vibração atrai vibração.

Somos todos ligados a essas emanações divinas, através de nosso chackra coronário. Recebemos suas emanações diretas vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. No entanto, nós não nos apercebemos delas. Se fôssemos equilibrados o suficiente para percebê-las e recebê-las com consciência de propósito, nós também não precisaríamos de velas, nem de entregas, nem de nada disso. Mas… daí também já não estaríamos mais nesse mundo, certo? Ou seja, ainda temos muito que labutar… e aprender.

Quanto à declaração desse cidadão, queria colocá-lo dentro de uma mandala do fogo e fazer um trabalho completo de boa magia para que ele veja do que algumas velas são capazes quando bem utilizadas por um Mago de Luz… será que ele topa? Rs…

Doutrinar x encaminhar

Por algum tempo, durante a adolescência e início de minha vida adulta, freqüentei centros espíritas kardecistas. Nunca li todas as obras da doutrina, como o Evangelho, o Livro dos Espíritos, etc. Ou seja, aquele conjunto de obras que todo espírita iniciante é instruído a ler. Li trechos de alguns deles, mas tinha muito mais apreço pelos romances, principalmente os da Zíbia Gaspareto.

Mesmo assim, as sessões de Mesa Branca sempre me foram tediosas e insípidas. Achava interessantes as sessões de desobsessão, mas já presenciei muitos doutrinadores darem-se mal frente aos espíritos que tentavam, em vão, doutrinar.

Sempre tive a impressão de que, contra ladrão, assassino, déspota, estuprador, só a polícia. Em sendo assim, a maioria dos obsessores calavam-se simplesmente para não ter que continuar ouvindo a “ladainha” da doutrina espírita kardecista. Eram levados e dias, ou mesmo horas, depois estavam novamente grudados em seus desafetos. Ou seja, tudo em vão.

O doutrinador normalmente se dava mal porque o espírito obsessor, se bem informado, era capaz de colocar os componentes da mesa em posição de defesa da própria honra, tendo de explicar-se frente à assistência, que ouvia tudo aquilo calada.

Gostei quando percebi que a Umbanda, assim como a Magia Divina, não têm caráter doutrinador desses espíritos. Nossa “polícia”, formada pelos guardiões e guardiãs de esquerda, nem permite que a maioria deles sequer se expresse em uma casa de Umbanda – ou seja, eles nem passam da “porteira” e, os que passam, são detidos e encaminhados aos seus locais de merecimento na criação Divina.

Da mesma maneira, os mecanismos dos quais o Mago se utiliza não são mecanismos de doutrina, mas sim de encaminhamento. Uma vez sendo atendido por um Mago, o consulente se encontra dentro de um poderoso campo de forças, campo este sustentado e mantido pela própria divindade. O Mago sempre coloca-se como instrumento de Deus, e portanto é Ele, e somente Ele, quem decide e determina qual será o destino do obsessor ou de quaisquer outros espíritos, forças e energias ligadas ao consulente.

Os pedidos feitos pelo Mago são determinações mágicas, e possuem força e poder de realização, mas passam pelo crivo único do merecimento daquele para quem o trabalho mágico é feito.

Durante um trabalho de magia o que conta é que o Mago, naquele momento, está imbuído da chancela divina para atuar. Quando ativado e aberto o trabalho, o Mago passa a agir não como uma pessoa qualquer, mas como instrumento mágico vivo. Em sendo assim, não há como o obsessor discutir ou querer desvencilhar-se da situação, porque o Mago atua sob a Lei e a Justiça Divinas as quais não podem ser questionadas em momento algum.

Se for de merecimento daquele que está sendo atendido, tais espíritos serão encaminhados quase que automaticamente, e nada mais será dito. O trabalho é normalmente silencioso, dura uns 30 minutos, e traz grande benefício tanto para aquele que foi atendido quanto para o espírito que foi afastado, pois este será encaminhado ao seu lugar de direito e poderá continuar sua escalada evolutiva após ter tomado consciência de seus erros e acertos.

É por essas e outras que eu prefiro o jeito “mágico” de ser. 😉

Se você se interessou, leia, estude, questione, aprenda!

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