Carta a meu Pai

Pai, me ajuda…

Eu errei.

 

Tentei conter os impulsos

E não consegui.

 

A raiva me tomou

E eu sucumbi.

 

Senti-me atacada em meus valores

E meu ego reagiu.

 

Ao invés de aquietar a mente e aprender com a situação,

Eu ataquei.

 

Revidei.

Não mantive a Ordem em meu íntimo…

 

As palavras que eu disse, então, ao invés de fazerem bem

Fizeram mal.

 

E como não há modo de engoli-las de volta,

Estão por aí, a me assombrar.

 

Me arrependo não pelo que disse Pai, pois sei que expressei a minha verdade e justiça,

Segundo a moral que, penso, recebo de Ti…

Mas me arrependo pela maneira com que o fiz.

 

Me entristeço por perceber que, depois de tanto estudo, de tanto erro analisado,

Mais uma vez errei no momento em que tinha tudo para calar…

Tudo para contribuir…

Tudo para ajudar…

Tudo para crescer.

 

Então, Pai… silencia a consciência que me aponta o dedo,

Dai-me uma vez mais a chance de acertar.

 

Permite que o pranto lave a vergonha do meu erro para contigo, que é parte de minha centelha,

E ajuda-me a avançar.

 

Porque, embora não tenha ainda me livrado do ego, Pai

Eu o reconheço.

Sei de suas arbitrariedades… de suas manhas.

 

Mas como ele também é parte de mim, devo educá-lo.

 

Devo aprender a impassibilidade dos monges que sabem a hora de calar…

E a hora de desembainhar a espada.

 

Devo lembrar-me de que a mágoa só me atinge porque permito que ela entre,

E então rebato a miséria do meu emocional com o ato que não tem volta.

 

Perdão, Pai.

Um dia, acertarei.

Até lá… perdoa. E me ajuda a perdoar-me.

Em inglês

Faz tempo que eu não escrevo em inglês… por diversão (porque no trabalho não conta, né? rs…). Hoje eu tive uma inspiração relâmpago. Eis o fruto:

There are times in life when we must act…
Fight the terror, fight the heck!
Skip the trembling, rumbling sound of our own desire
And keep moving, although we may tire.

Try and dismiss
The dangerous bliss
Of getting astray.

 Then come get amiss
That wonderful kiss
Of fears far at bay.

 But then I forget that dreams are a keepin’
For those who like life while they’re sleepin’
For there they can find all that they pray!

Por Sarah Siqueira.

Olavo Bilac

Eu adoro esse poema de Bilac, intitulado Via Láctea. Tinha-o impresso e pregado em meu quadro de recados na empresa onde trabalhei por 7 anos. Lia-o diariamente, e sempre me encantava com suas nuances, seus significados.

Via Láctea

Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso”! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

E hoje lembrei-me de um outro, que eu acho extremamente bonitinho, tanto pela rebeldia de se colocar tais coisas em versos, mas também pela maneira cândida que Bilac utilizou ao fazê-lo. Divirtam-se!

Delírio

Olavo Bilac

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci…

Vergonha de mim…

Estou numa dessas encruzilhadas da vida onde decisões (dolorosas) precisam ser tomadas. Nunca, desde que comecei a ter consciência política, e a ter meu ganha-pão, tive tanta incerteza quanto ao futuro, tanto receio por mim e pelos meus. Agora, diante dos meus olhos, algumas opções se abrem… e como diz a canção católica: “segura na mão de Deus e vai…“. E é só isso mesmo que me resta fazer. Quantas vezes fiz planos e tudo saiu ao contrário? Quantas vezes quis controlar, para meses depois descobrir que, se tivesse seguido (realmente) a vozinha interior, tudo teria sido mais fácil e melhor? E é por isso mesmo que agora vou embarcando nas oportunidades que se apresentam, tentando levar a vida como Deus quer. 🙂

Bom, mas pensando nisso tudo, vi o programa Sr. Brasil, na TV Cultura, liderado pelo incrível Rolando Boldrin, no domingo pela manhã… principalmente porque minha filha adora o som da viola caipira. E ele começou o programa declamando um texto muito bonito, que me tocou o coração e me fez vir às lágrimas… justamente por ser exatamente daquela maneira, indignada e triste, que eu venho me sentindo há tempos com relação ao meu país. O texto, veiculado em seu programa como sendo de autoria de Ruy Barbosa é, na verdade, da escritora Cleide Canton (sempre verifiquem a autoria, certo?).

Segue abaixo o texto na íntegra.

Sinto Vergonha de Mim

Sinto vergonha de mim por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos, simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez no julgamento da verdade,
a negligência com a família, célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados de desrespeito para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar atos criminosos,
a tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre “contestar”,
voltar atrás e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos que não quero percorrer…
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim, tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto”.
(este trecho sim, de autoria de Rui Barbosa)

Deixo a vocês a interpretação do texto por Rolando Boldrin, na intenção de que emocionem-se como eu. Está na hora de pararmos de sentir vergonha de sermos brasileiros…

Pablo

Eu gosto bastante desse poema. É de Pablo Neruda. Não achei o original, em Espanhol, mas segue a versão em Português. Fala sobre mágoas, e de como, magoando a quem amamos, acabamos por magoar-nos a nós mesmos.

Anima - A Kiss in the Rain

 

O POÇO

Pablo Neruda

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

É Natal…

É Natal novamente e isso induz no ser humano um romantismo, uma generosidade, uma afetuosidade que deveria estar presente os 365 dias do ano… certo? Bom, não está. E, em sendo assim, aproveito a deixa para postar aqui uma poesia que me acompanha sempre, de Olavo Bilac — Ouvir Estrelas.

Eu desejo a todos vocês, leitores do blog, amigos, família, que todos tenham mais tempo no ano que nasce… mais tempo para ouvir estrelas como nosso amigo Bilac. 🙂

OUVIR ESTRELAS

Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
e abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
a via-láctea, como um pálio aberto,
cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: ” Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas”.

4 casamentos e 1 funeral

No filme Quatro Casamentos e Um Funeral, existe uma cena que me emociona, apesar do filme ser uma comédia romântica. E é justamente no funeral, quando um dos personagens principais recita o poema abaixo perante o caixão de seu grande amor que agora está morto. Sim, o amor no filme é homossexual – perdoem-me os prejudiciosos, amor é amor e eu não compactuo deste tipo de preconceito.

A interpretação é magnífica, e o poema, lindíssimo. Vale a pena ler e emocionar-se.

FUNERAL BLUES

por W. H. Auden

“Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.”

No YouTube é possível verificar a cena de que falo, com legendas em português: http://www.youtube.com/watch?v=hcAYsJo3-uM&feature=related. Enjoy!