Mulheres e religião… no programa da Hebe

Ontem, no programa da Hebe na RedeTV, houve um quadro em que ela convidou três mulheres e três representantes de grandes religiões no Brasil – um padre, um sacerdote umbandista e um sacerdote muçulmano.

A intenção era discutir a fé e o papel da mulher, seus direitos e deveres, dentro dessas religiões. As moças deveriam fazer perguntas aos sacerdotes, e então teríamos um bom bate-papo. Ou, pelo menos, assim pensei.

O quadro durou pouco mais de 5 minutos. O sacerdote Umbandista era nosso querido Mestre, Rubens Saraceni. Primeira pergunta inteligente:

[moça] – Porque não há mulheres sacerdotisas nas suas religiões? A umbanda aceita mulheres como dirigentes?

[Rubens] – Sim, na Umbanda hoje, cerca de mais de 50% de nossos dirigentes são mulheres, e elas têm, dentro da nossa religião, os mesmos direitos e deveres que os homens. Não há distinção.

As moças ficaram contentes, viraram a pergunta para o padre:

[padre] – Sim, na religião católica também, as mulheres são muito consideradas. Como exemplo maior disso temos nossa mãe maior, a Virgem Maria…

[eu, embora ninguém fosse me ouvir no programa da Hebe] – Ah, vai se f…!

Começou o bate-boca e ninguém mais falou coisa com coisa. Também, depois de um exemplo desses, fica difícil levar a sério o tal do padre, uma vez que a pergunta não era essa. O sacerdote muçulmano não se manifestou.

Depois, uma das moças questionou o uso da burca.

[muçulmano] – Deus disse que as mulheres se cobrissem dos pés à cabeça, está no alcorão…

Começou o bate-boca de novo. Daí, a moça conseguiu se explicar.

[moça] – Longe de mim ser preconceituosa, mas lembro-me de estar no aeroporto de NY e vi várias muçulmanas sob aquelas burcas num calor de 40 graus. A minha impressão foi de que aquilo era desumano, porque ninguém quer vestir-se daquela maneira sob um calor daqueles. Elas têm opção? Elas podem não usar a burca?

[muçulmano] – Não, mas elas escolhem usar mesmo assim.

Mais um bate-boca. Se elas não podem escolher não usar, como foi que elas escolheram usar? Meu comentário – Ah, vai se f…!

Dali ele discursou sobre o alcorão, apresentou sua belíssima esposa brasileira convertida, e que usava apenas o véu na ocasião, disse que as mulheres muçulmanas tem todo o direito de ir e vir e que, inclusive, sua esposa já estava fazendo doutorado. Ou seja, disse um monte de bobagens e não se explicou sobre o fato de que, querendo ou não, elas devem seguir aquilo que está escrito no tal do alcorão, segundo a interpretação dos sacerdotes atuais, claro. Próxima pergunta inteligente:

[moça] – Como é que cada uma das suas religiões considera a homossexualidade? Eu tenho vários amigos homossexuais e eles são todos Umbandistas ou do Candomblé…

[padre] – Nós, da igreja católica, achamos que a filosofia, a ciência e a psicologia ainda devem à sociedade uma explicação correta à respeito desse tema, porque até agora nenhuma dessas ciências conseguiu nos explicar…

[Rubens] – A ciência nunca vai conseguir explicar nada com respeito à homossexualidade, porque esse é um tema anterior à existência do ser na carne. Nós fizemos inúmeras experiências, com irmãos clarividentes, e pudemos constatar que, em quase 100% dos casos, há um espírito feminino habitando um corpo masculino; ou um espírito masculino habitando um corpo feminino. Nós cremos que, por razões cármicas, o ser feminino ou masculino encarna com outro sexo para poder passar por certas experiências.

[padre] – Nós não cremos nisso porque para nós a criatura morre uma única vez. Nós não cremos em reencarnação, mas em ressurreição. A criatura morre, o corpo está lá no caixão, enterrado, mas a alma está junto de Deus. A bíblia não fala de reencarnação, mas sim de ressurreição.

[eu, mais uma vez indignada] – Ah, vai se f…!

Mais uma vez começou um zumzumzum e ninguém mais se entendeu. A Hebe cortou o papo, agradeceu a presença deles e pediu ao padre que cantasse uma das músicas de seu novo CD…

Perguntas que não querem calar…

Como pode, em pleno século XXI, alguém continuar nessa de citar partes da bíblia, do alcorão, ou de qualquer outro “livro santo” como se aquilo fosse a mais pura verdade? Ninguém explicou a essas pessoas que esses livros passaram por dezenas, centenas de traduções e adaptações, cortes e reedições, tudo de acordo com os interesses de uns poucos que, na época, eram alfabetizados? Será que não fica patente para essas pessoas que esses livros foram editados para diminuir o papel da mulher na sociedade, tornando-a persona non grata e objeto de troca?

Porque? Simples: peguem uma cultura como a celta, que dominava quase toda a Europa em vários níveis, e cuja religião era, em muitos aspectos, parecidíssia com a Umbanda Sagrada de hoje. Era uma cultura baseada na igualdade, onde a mulher jamais se subjugava ao homem, onde elas tinham direitos à terras, à escolher seus próprios parceiros, à exercer profissões, etc. Até mesmo a cultura Romana, em seus primórdios, considerava a mulher com direitos praticamente iguais aos masculinos.

Assim também acontecia com a cultura egípcia, e até mesmo com os persas antigos. Jesus, pelo que me consta, foi grande defensor dos direitos femininos entre os gentios e judeus, e nunca fez discriminação de qualquer grau contra mulheres. Muito pelo contrário, aceitou entre seus seguidores muitas delas, para desespero dos machistas judeus da época.

Porque, numa cultura milenar como a da Índia, um monarca dar-se-ia ao trabalho de construir um monumento como o Taj Mahal para sua própria esposa se lá também elas não fossem consideradas com deferência e consideração?

São questionamentos que parecem escapar à mentes “brilhantes” e cheias de citações decoradas desses chamados sacerdotes católicos, judeus e muçulmanos.

Outra coisa – como podem essas pessoas repetir constantemente “Deus disse isso” ou “Deus disse aquilo”? Afinal de contas, quem é esse Deus que dá plena liberdade a uns e massacra outros por simples diferenciação de sexo? E porque Deus é masculino, sempre? Como pode um ser de essência masculina criar a partir de si mesmo seres de essência feminina?

Perdoem-me a ignorância mas, Deus não tem forma, não tem nome e não tem sexo. A Fonte de Tudo que É está em tudo e em todos, é energia pura e inteligente, e não pode “falar” senão através de suas próprias criaturas, sejam elas quais forem no Universo. Deus não está no céu, mas sim em tudo – por isso é Onipresente, Onipotente, Onisciente. Cada vez que alguém, em algum lugar, cita a frase “Deus disse…”, me dá um calafrio: me soa como blasfêmia das mais cabeludas, uma vez que nenhum de nós pode, em essência, determinar aquilo que passa pela Consciência Maior, muito acima da nossa própria.

Mas uma coisa é certa – esta energia que a tudo permeia é amor puro, e jamais, em tempo algum, faz diferenciação entre suas criaturas. No entanto, nós fazemos as diferenciações; nós rotulamos; nós apontamos o dedo; nós condenamos e julgamos. E depois dizemos que foi Deus quem fez tudo isso…

Infelizmente o programa da Hebe não discutiu o tema como deveria. Mas, mesmo assim, ponto para a Umbanda, que pôde, em raras ocasiões durante a entrevista, provar mais uma vez que é uma religião inteligente, formada por pessoas com cérebro e discernimento.

Axé!

Update

Vou deixar aqui o link para as três partes da entrevista:

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