A Guardiã de Mistérios – Parte Final

Todo o ambiente estava mudado. O que antes parecia uma caverna lúgubre e escura, agora lembrava muito o interior de uma catedral gótica. Vitrais multicoloridos surgiram aqui e ali, por onde adentravam fachos de luzes brilhantes. Atrás do trono, agora reconstituído em tons de ouro velho, estava uma grande rosácea luminosa que exibia lindíssima cruz central. Assentado em seu trono estava uma grande caveira vestindo um manto negro. Tinha quase dois metros de altura e segurava na mão esquerda um alfanje de cabo branco e lâmina tão transparente que parecia feita de vidro. A caveira mantinha a cabeça baixa enquanto olhava para a guardiã que agora estava ajoelhada nos degraus de seu trono: ela descobrira a cabeça e mantinha a posição em respeito aos mistérios ali assentados.

– Levanta guardiã, deixa que eu te agradeça.

A guardiã levantou-se, embora mantendo a cabeça baixa, e a caveira tocou sua testa com a ponta do alfanje.

– Recebe as lâminas da Morte para que possas continuar protegendo a Vida em todas as esferas.

A guardiã emocionou-se com o presente recebido.

– Sabes quem sou eu?

– És o legítimo regente deste trono, meu senhor.

– Sim, Eu Sou. Mas sou também um Orixá Menor. Sou aquele que rege sobre a morte nesta esfera da Vida. Sou o par magnético daquela que te espera, filha… tu bem o sabes.

– Senhor, eu… o senhor me desculpe, mas não desejo esta tarefa. Deixa-me aqui, onde sou mais útil… por favor.

– Ah, e quem fala agora?! A guardiã ou um espírito amedrontado que tem receio de fracassar na carne?

A voz do caveira ecoava pelas estruturas da catedral. A guardiã sentiu as lágrimas descerem pelo rosto. A caveira levantou-se e desceu os três degraus que a separavam da guardiã. Conforme descia, transformou-se: sua capa antes negra tornou-se branca e brilhante. Seu corpo regenerou-se completamente e via-se agora um ancião de longos cabelos brancos, ainda segurando o alfanje na mão esquerda. Ele também diminuíra de tamanho, e agora estava apenas alguns centímetros mais alto que a guardiã. Colocou então a mão sobre o ombro dela e continuou:

– Filha, muitos passam por isso. É normal sentir medo…

– Não, senhor… não é medo. Mas lá eu serei cega. Surda. Tudo o que eu sei, hei de esquecer. O senhor imagina quantos tentarão me derrubar? Como poderei ajudar a quem quer que seja dessa maneira?! Serei fraca perante aos ardis da escuridão…

– Filha, confia na providência divina. Aquieta teu coração e confia que o Pai sabe o que faz. Ele te quer na carne, então obedece a Vida. Nós estaremos aqui contigo, sempre. Tua Mãe te espera para dar-te a incumbência que terás. Vai e faz o teu melhor. Nós te olharemos e vigiaremos daqui.

Atrás da guardiã apareceu uma linda moça. Ela era pura luz rosa, e parecia transparente quando comparada aos demais ali presentes. O velho então tocou a fronte da guardiã e ela caiu em sono profundo, diminuindo de tamanho até a forma de um bebê de poucos meses de vida. O velho segurou-a com carinho enquanto a moça espargia sobre o bebê finíssimos fios brilhantes que formavam como que um casulo prateado à sua volta, deixando somente seu rostinho de fora. Quando a bebezinha estava totalmente embrulhada em fios prateados, o velho abraçou-a mais uma vez e a entregou à moça, que a recebeu com um sorriso.

– A Senhora das águas está à sua espera. – completou ele, e apontou para um portal que havia aberto à sua direita. Do outro lado, via-se uma praia de águas calmas de cor turquesa, e areia branca e brilhante.

A moça passou pelo portal e caminhou sobre a areia da praia. Conforme caminhava, a bebê que carregava crescia e acabou por transformar-se numa jovem adolescente de cerca de 12 anos. A guardiã já não se lembrava mais de quem era, mas estava contente de andar pela praia com aquela moça tão linda e alegre. Por fim parou de frente para a água e viu que uma mulher caminhava sobre as águas em sua direção – ela vestia um vestido diáfano de cor azul muito clara; em seu pescoço havia voltas e voltas de pérolas de todas as cores; seu cabelo era negro e descia em cascata pelas costas; a pele, muito branca, parecia coberta de pó de diamantes e sobre a cabeça ela usava uma coroa diamantada com uma grande estrela de cinco pontas central e outras seis distribuídas em volta. Era realmente uma visão belíssima.

A menina olhava a Senhora das águas de boca aberta e instintivamente caiu de joelhos na areia. A mãe d’água alisou seus cabelos com carinho e pediu que ela se levantasse.

– Filha, tenho uma tarefa para ti. Vais ao mundo auxiliar ao teu próximo. Vais ao mundo ser sacerdotisa dos mistérios divinos. Eu serei a regente desta tua encarnação e, juntamente com teu Pai guardião, seremos teu esteio, tua força, tua luz e tua sabedoria. Para esta tarefa hás de dar teu consentimento aqui, frente a todos que te cercam.

A menina então verificou que, perfilados à sua volta, haviam dezenas, talvez centenas de seres dos mais variados tipos – índios, negros, orientais, homens armados, mulheres belíssimas… todos traziam seriedade e confiança no olhar. Todos aguardavam ansiosos pela resposta da menina.

– Entendes o que te peço, filha?

A menina assentiu com a cabeça.

– Recebes minha coroa de bom grado, aqui perante teus irmãos?

A menina assentiu uma vez mais, sem ter muita certeza do que fazia. Sobre sua cabeça formou-se uma coroa dourada cujo topo atingia cerca de meio metro acima. Em questão de segundos ela caiu de joelhos e sentiu a cabeça tombar para frente ao peso da coroa que parecia ser feita de ouro puro e brilhante. A menina lutava para manter a cabeça reta, mas o peso era insuportável. Em seu coração ela sentia a dor e o medo se alastrar; medo do desconhecido; medo do peso daquela responsabilidade. Mentalmente via imagens tristes, sem compreender se aquelas cenas eram seu passado ou seu futuro. Sentia que não era capaz de carregar tamanha tarefa e foi sendo massacrada pelo peso daquela coroa. E foi então que ouviu a voz da Mãe d’água:

– Filha, confia. Tira o medo do seu coração. Confia no Poder Maior que nos criou a todos… se te livrares do medo que te consome, tua coroa será leve como uma pluma…

A menina respirou fundo, mas ainda assim estava difícil manter a coroa.

– Todos esses que te cercam estarão contigo. Todos nós seremos teu exército. Tu não estarás sozinha enquanto lembrar-te da Fé e do Amor do Cristo. Hás de ser vitoriosa! Agora, levanta!

E ela lembrou-se do rosto do Amado Mestre… sabia que o havia visto pelo menos uma vez. Lembrou-se dos olhar amoroso e límpido, das palavras seguras e bondosas. Sim, ela seria fiel à mensagem dele sempre, e só a lembrança daquele rosto encheu seu coração de calor e otimismo. A menina respirou uma vez mais e levantou-se. Não sentia mais o peso da coroa, que passou a brilhar ainda mais sobre sua cabeça. Todos à sua volta a aplaudiram e ela sentia a força da amizade e do carinho de todos eles. Abraçou a Mãe d’água com fervor e, novamente, tornou-se um bebê em segundos. A Mãe d’água depositou suas lágrimas sobre o rosto da pequenina e levou-a em direção ao mar…

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Iansã no Campo Santo

Hoje de madrugada me peguei numa vigília, nem acordada, nem dormindo, pensando, e vendo, Iansã…

Estava às portas de um cemitério quando a vi passar como vento da esquerda para a direita. Saudei-a e entrei. Enquanto caminhava entre túmulos e árvores, rezava mentalmente:

“Mãezinha, cá estou. Vim saudar àquela que com seus Mistérios protege este Campo Santo. A Senhora de Balê que zela pelas almas em tormento, presas aos seus negativismos, aos tormentos da vida material que já é finda, mas que elas não conseguem esquecer. A Mãe que auxilia a queimar e transmutar todo o carma e dor dessas almas através da paciência e do tempo. Com seu chicote certeiro lá vai minha Mãe arrebanhando alma por alma, trazendo-as sob seu Poder, para então fazê-las dormir o sono do porvir, esperança da alma que sofre e que precisa reencarnar para então, uma vez mais, tentar reconciliar-se com sua consciência…”

Lembro-me somente desta parte, mas sei que rezei por muito mais tempo, mentalmente, enquanto caminhava. E então Iansã ventou, e o vento espalhou-se por todo o local com um dourado brilhante que espargia línguas de fogo como raios de luz. Percebi que quando minha Mãe ventava, o Campo Santo adormecia, como se aquelas almas sofridas tivessem um momento de alento, de descanso, como quando nossa mãe terrena sopra nossos machucados físicos e nos dá um beijo… assim era o vento de Iansã ali naquele lugar – era o alívio às dores de todos. Eu senti seu amor por aquele local e por todos que estavam ali em sofrimento e espera, me emocionei e ajoelhei-me aos pés do Cruzeiro Santo. É difícil descrever… porque o que é mais bonito que um Orixá quando te olha de frente? Até agora, eu choro… porque nesses momentos a gente sente como tudo aqui na Terra realmente é passageiro, e como temos as bênçãos dos céus a nos guiar sempre.

O cruzeiro incendiou-se de luz e ela apareceu flutuando à minha frente em sua vestimenta Yorubá, em maravilhosos tons de amarelo, dourado e branco. Na mão direita um sabre curto e curvado, na esquerda seu chicote. Uma coroa brilhante sobre a cabeça e finíssimos fios de ouro desciam sobre seu rosto. Sua pele negra brilhava como se estivesse coberta por purpurina… linda! Só posso dizer isso: Linda!

Recebi seu abraço sem que ela me tocasse. Era quente e parecia-se com um turbilhão rodando em volta de mim. Impossível levantar daquele chão diante de tal grandeza de Poder e Mistérios. Ouvi seu agradecimento, e a voz era melodiosa. Só então eu notei que tinha trazido a ela um buquê de rosas amarelas e havia depositado as flores aos seus pés. As flores incendiaram-se e sumiram e no mesmo instante mil pétalas douradas caíram do céu sobre minha cabeça… tinham um perfume delicioso, indescritível, e conforme tocavam o solo, desintegravam-se.

Eu acordei, sem me dar conta de que hoje o dia é Dela. Salve Mãezinha, Eparrei! Sopra nossas dores, mãezinha, alivia nossas angústias e tristezas; dá-nos o beijo mágico que cura e refaz, e permita-nos assim dormir o sono dos justos sob teu amparo Divino.

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Iansã ou Yansã é a Orixá da Lei, feminina, absorvente, que faz par com Ogum e assim regem sobre o elemento AR e sobre a Lei Divina. Em seus múltiplos campos de atuação, Iansã de Balê é a Senhora do Campo Santo, a Orixá que guia as almas sofridas ao descanso no cemitério, mantendo a Lei e a Ordem por lá. No catolicismo foi sincretizada com Santa Bárbara. Para saber mais:

Na velha Jerusalém…

Sonhei que andava desesperadamente atrás de uma sala para fazer uma reunião de trabalho. Um homem me acompanhava. Depois de muito procurar, num edifício moderno, todo envidraçado, saímos para a rua com destino a outro endereço, por sugestão desse homem, que eu não via, mas que me acompanhava de perto bem atrás de mim. Entramos por uma alameda estreita, mas ainda assim cheia de construções modernas.

Conforme andava, uma sonolência me invadiu…

As casas modernas deram lugar a muros de pedra antigos. A alameda estreitou-se e eu percebi que as pessoas a minha volta vestiam-se como na época de Cristo, roupas em tecidos rústicos, pessoas pobres… vi centuriões da guarda Romana. Eu também mudei, assim como minhas roupas. O notebook que eu carregava deu lugar a uma tábua pequena, em pedra.

De repente senti uma urgência enorme de atravessar aquela alameda e chegar ao meu destino. Havia muita gente se acotovelando, eu fui empurrando uns e outros e consegui…

Um homem estava pregado numa cruz de madeira. Ele era branco, tinha olhos já esbranquiçados pela dor, cabelos em desalinho e grisalhos. Usava só uma tanga de algodão cru e mais nada.

Os centuriões o estavam descendo da cruz, e ninguém fazia nada. Havia mulheres chorando, mas ninguém se aproximava.

Quando depositaram o corpo no chão, me joguei sobre ele tentando ajudá-lo. O centurião à minha esquerda riu do meu gesto.

– Faça alguma coisa! Ele ainda respira!

Meu desespero parece ter colocado algum juízo na cabeça daquele soldado – por um instante ele parou de rir e me fitou com um quê de pena e curiosidade. Depois sorriu para mim e disse:

– Não há nada a ser feito… ele morreu. – e então o centurião estendeu-me sua mão. Eu fingi não perceber o gesto e olhei para os olhos do moribundo: estavam vítreos. Senti uma dor aguda no peito e chorei.

Por todo aquele tempo, senti a presença do homem atrás de mim, como se estivesse me guiando pela experiência. Foi bom ter alguém ali comigo, mas foi dolorido ver aquilo tudo. Não sei quem era o homem, o que eu tinha a ver com aquilo… não sei.

Acordei com minha gata miando em cima de mim… mas ainda sentia o cheiro poeirendo daquela Jerusalém de então… a dor no peito passou, mas eu continuo me lembrando dos olhos dos dois – tanto do centurião, quanto do morto. :-S

Transição

Este post é longo. É a descrição de um sonho que tive há mais de um ano atrás. Durante todo este tempo, me lembrei sempre das sensações que experimentei… é estranho, mas é como uma lembrança de infância quase… como se tudo o que eu relato aqui realmente tivesse acontecido… num outro tempo, num outro lugar.

Como eu não conseguia tirar o sonho da cabeça, eu coloquei no papel. As imagens foram vindo devagar e encheram minha mente… senti tudo de novo: a emoção, os gostos, as sensações… o que eu vi naquele sonho é muito, muito difícil de explicar. Principalmente porque nada daquilo faz parte do nosso mundo, hoje. Tudo soa muito “ficcional”, muito “Star Trek”.

Ainda assim, achei que era a hora de publicar… foi uma experiência muito legal, que me deu uma visão diferente sobre mim, sobre o mundo, sobre todos… sei lá… eu mudei depois desse sonho. Encaro as coisas de maneira diferente. Quem sabe vocês também encarem tudo diferente depois de ler, certo?

A tarde tinha uma coloração estranha. As cores normais irradiadas pelo sol pareciam distorcidas, como se alguém tivesse acendido uma lâmpada fluorescente artificial para iluminar o mundo. Minha mãe e minha filha estavam sentadas no sofá, lado a lado. Eu abaixada, na frente delas, explicava a situação:

– Eles vêm nos buscar hoje… não precisam se preocupar. Nós não vamos levar nada, entenderam? Nada. Foi só isso que me passaram… que eles vêm nos buscar e nós devemos deixar tudo para trás, mais nada. Então, vamos confiar.

O nervosismo era real, palpável. Não havia os sons normais de antes. Nenhuma TV, nenhum rádio, nenhum carro ou avião. Nada. Mas ouvíamos gritos, pessoas berrando, discutindo, crianças chorando. Estávamos, desde a noite anterior, sem luz e a água nas torneiras havia acabado perto do horário do almoço.

Um vento estranho havia varrido o final de tarde do dia anterior, e nós sentimos como se o mundo tivesse parado. Tudo ficou mortalmente silencioso e escuro. Agora a luz do dia era estranha, como se num eterno amanhecer cinzento. E aquela opressão, aquele ar saturado, aquele calor de sauna, não passavam.

Eu queria levar minha Yemanjá, mas a voz que ecoou na minha cabeça me disse: Não, você não precisará dela. Eu tentei argumentar que não era uma questão de precisar, mas sim de gostar, de ter amor por aquela imagem-símbolo da Mãe Universal, mas não houve resposta.

Nós tínhamos duas garrafas de água mineral somente, e a minha filha bebia basicamente leite de soja. Então eu acreditava que tínhamos o suficiente para que pudéssemos esperar.

A pequena continuou brincando, eu e minha mãe tentávamos ler. De repente ouvimos um som estranho na atmosfera, que começou com um estalido alto e metálico, como se um enorme barco estivesse roçando um iceberg ou coisa parecida, depois recrudesceu e ficou aquele gemido no ar, que não se sabe de onde vem. Minha filha grudou nas minhas pernas e foi aí que alguém bateu à porta. Nós três ficamos quietas, e novamente a batida na porta. E a voz na minha cabeça: Abra.

Maquinalmente, segurei na mão da minha filha e dirigi-me à porta. Quando abri, havia um rapaz jovem, bem apessoado, usando um macacão branco meio colado ao corpo como se fosse um tripulante diretamente saído de StarTrek. Ele tinha os cabelos castanho-claros, assim como seus olhos, tinha um sorriso franco no rosto, e me observava com infinita alegria e bondade. Em sinal de cumprimento, baixou levemente a cabeça e tocou o coração com a palma da mão direita.

Depois olhou para minha filha, agachou-se e abriu os braços e um sorriso enorme para ela. Ela largou minha mão e correu para ele, abraçando seu pescoço. O rapaz riu alto, tascou-lhe um beijo na bochecha e pegou-a no colo com indisível felicidade. Eles se olharam e pareciam conversar sem dizer nenhuma palavra. Ficaram ali por alguns segundos. Eu estava atônita, não conseguia me mover, nem articular palavra. Sentia minha mãe atrás de mim, vendo tudo aquilo, e igualmente estática.

Foi então que eu percebi que o hall de entrada dos apartamentos não existia. De alguma maneira, minha porta não estava aberta para o hall dos elevadores, mas para um corredor de teto abobadado totalmente branco. No fundo eu via uma porta, igualmente branca com um pequeno visor de vidro retangular na altura dos olhos. O corredor era iluminado artificialmente, e parecia ter saído de um filme de ficção científica.

Ele então falou comigo:

– É um prazer poder recepcioná-la, e à sua família, durante este período de transição. Nós precisamos ir o quanto antes. Eu peço que vocês compreendam que nada faltará a vocês: da comida ao vestuário, tudo já está providenciado. Também pensamos em seus passatempos favoritos, e portanto providenciamos livros e outros assuntos dos quais sabemos que gostam. Peço, por favor, que me sigam. O tempo está acabando.

Ele virou-se e foi caminhando por aquele corredor iluminado, e nós o seguimos. Minha filha continuava no colo daquele ser, e os dois pareciam continuar conversando, rindo… como se matassem a saudade um do outro colocando a “fofoca” em dia. Era algo muito estranho de presenciar porque, naquele momento, ela continuava sendo uma menininha, uma criança, mas seu comportamento era de alguém muito mais maduro.

No momento em que deixamos o apartamento, fechou-se atrás de nós uma porta exatamente igual àquela que eu via no outro extremo do corredor. Quando atingimos nosso destino, aquele ser tocou a outra porta com a mão esquerda espalmada e esta também deslizou, abrindo-se. Ele virou-se momentaneamente e disse:

– Esqueci de me apresentar… vocês podem me chamar de Leo.

E continuou andando.

Nós estávamos num corredor gigantesco e de formato visivelmente circular. O piso parecia um cimento queimado muito liso, e a iluminação era fraca, estávamos todos numa penumbra leve. O corredor tinha pelo menos uns 80 metros de largura por uns 10 de altura. Me sentia pequena no meio daquilo tudo. Havia muitas “pessoas” por ali. Eu as via passar conversando, ora com pressa, ora andando vagarosamente. Todas pareciam humanas, mas se alguém olhasse de perto veria que tinham muitas diferenças. Cores de pele e olhos estranhas, manchas na pele, cabelos, número de dedos nas mãos, proporções dos membros no corpo. Todos tinham basicamente duas pernas, dois braços, cabeça e tronco, mas nenhum deles era realmente humano como nós. Alguns nos olhavam com curiosidade, mas a maioria simplesmente continuava seu percurso sem nem mesmo nos notar.

As roupas eram as mais diversas, como se todos os estilistas do universo tivessem decidido fazer um desfile ao mesmo tempo. Era tudo muito colorido, diferente… impossível de compreender e discernir em tão pouco tempo. Alguns passavam “dirigindo” carrinhos parecidos com aqueles que se usa em aeroportos, mas eles não tinham rodas nem volante – flutuavam sem emitir nenhum som e pareciam saber para onde se dirigiam sem a interferência daqueles a bordo. Leo me viu olhando um daqueles e sugeriu:

– Vamos pegar um transporte? Ainda temos muito que andar até chegarmos ao nosso destino.

Minha filha continuava no colo dele, e eu lembro que pensei como ele conseguia carregá-la por tanto tempo sem nem mesmo suar ou fazer esforço…

Ele parou um desses veículos onde havia apenas duas “pessoas” e nós entramos. Sentamo-nos na parte de trás enquanto os dois continuaram na frente. Percebi que a parte direita do corredor tinha um parapeito feito do mesmo mateiral do chão e “lá fora” eu via uma luminosidade rica, em todos os tons de laranja e amarelo, e algo que pareciam árvores imensas com folhas verdes e brilhantes. Também percebi pássaros e o barulho de água. Fiquei intrigada, e novamente Leo veio em meu auxílio:

– Nós somos uma nave de recolhimento e manutenção da vida. Como tal, precisamos recolher e manter tudo aquilo que puder ser salvo no seu quadrante. Isto que vocês vêem ao centro é nossa “Arca de Noé”, por assim dizer: milhares de espécies da flora e fauna de seu sistema solar e de muitos outros. Tudo aqui será reposto em seu devido lugar conforme as energias do momento de transição forem se assentando. E então a equipe de recuperação entrará em ação e nós poderemos continuar nosso trabalho em algum outro lugar…

Fantástico!, pensei. E quando ia abrir a boca para perguntar alguma coisa, o veículo parou na frente de uma porta. Todo o lado esquerdo do corredor era recoberto de portas a intervalos constantes, às vezes abrindo espaço para um vão maior por onde parecia se ter acesso a outros níveis daquela grande nave (eu tinha a certeza de estar dentro de uma nave, no espaço sideral). Pela configuração geral das coisas, eu imaginava que aquilo deveria ser gigantesco por fora, e que deveria ter a forma de uma esfera.

Novamente Leo colocou sua mão esquerda sobre o painel da porta e esta deslizou. O interior era totalmente branco, com pinceladas de cor em objetos aqui e ali. O mateiral das paredes, teto e chão parecia ser de plástico fosco, mas eu nunca tinha visto nada igual aquilo. Estava tudo iluminado, mas não havia luminária ou lâmpadas visíveis. Logo depois de termos entrado, Leo finalmente colocou minha filha no chão, e ela correu na direção de um grande vão que se abria na lateral direita daquele “apartamento” e que dava para uma espécie de sacada, também toda branca, de onde podíamos ver árvores, pássaros, quedas d’água, um lago… era lindo! Inexplicável em palavras, realmente. Meu irmão estava ali naquela sacada, e foi até ele que minha filha correu, abraçando-o. Ele vestia uma camisa branca de mangas compridas, calças largas também brancas, e estava descalço… e feliz. Minha mãe ficou exultante e eu também fiquei muito contente, mas faltava alguém para que eu ficasse cem por cento tranqüila. Leo notou a preocupação em meu rosto, mas desviou o olhar.

Ele então pediu que eu o seguisse, e mostrou-me o chuveiro, como conseguiríamos comida, mostrou-me o computador e os tablets, onde poderíamos ler os livros que quiséssemos, e por fim nossos quartos. Imaginem uma internet com a rapidez do pensamento, imagens tão nítidas que pareciam realmente estar ali dentro, tudo isso numa tela de vidro que tinha perto de 42 polegadas e era meio curva e um teclado virtual – era totalmente touch screen e ia se iluminando conforme ele digitava algo. Para quem trabalhou com tecnologia a vida toda, eu estava encantada – parecia uma criança em loja de doce, e o tal do Leo percebia e ria de mim, divertindo-se com meu assombro diante de tudo aquilo.

Os tablets eram placas de vidro simplesmente – você punha a mão em cima, ele se acendia, você tocava o que queria e acessava a informação. Tudo absurdamente rápido, prático e limpo.

Havia uma tela igualmente de vidro que mostrava notícias sobre nosso planeta, sobre aquela nave e alguns dados sobre o que estava por vir. Nela também haviam palestras periódicas sobre o “novo homem”, os valores que deveríamos cultivar, os condicionamentos que deveríamos esquecer, as alterações físicas que poderíamos experimentar. Era incrível realmente… maravilhoso demais para se acreditar.

Depois ele me mostrou o que chamou de microondas futurista, fazendo alusão a algo que eu conhecia. O dispositivo era um sintetizador de alimentos – uma caixa retangular, branca. Na frente, havia um vidro transparente como o do teclado do computador e que se acendia quando tocávamos nele. Então você podia escolher a sua comida por fotos ou simplesmente digitando o que você queria. Se ele não fosse capaz de produzir algo, como era o caso de comidas à base de carne, ele oferecia uma opção que sintetizava os nutrientes e mais ou menos o gosto e a textura do alimento original e pronto – ouvia-se um som característico e em instantes a “porta” do microondas deslizava e seu prato estava ali, bem na sua frente. O mesmo valia para qualquer tipo de bebida, menos as alcoólicas, que inexistiam e não podiam ser sintetizadas. Leo me perguntou:

– Tem alguma coisa que você quer comer? Só para você ver como funciona.

Na verdade eu estava duvidando daquele negócio, e ele percebeu.

– Bom… algo simples… um brigadeiro.

Ele pediu que eu digitasse o nome. Apareceu a foto e ele pediu para eu confirmar que era aquilo. Eu confirmei botando o dedo em cima da foto. Segundos depois o brigadeiro estava na minha frente.

– Prove.

Eu olhei incrédula para ele, mas peguei o brigadeiro e enfiei inteiro na boca… o chocolate derreteu na boca como deveria ser… e ele tinha exatamente a textura, e o gosto certo que eu apreciava. Delicioso!

– A comida é sintetizada de acordo com suas memórias. Por isso ela sempre terá o melhor gosto para o seu paladar.

– Certo… tudo bem.

Tudo bem?! Aquela caixa branca tinha acabado de sintetizar um brigadeiro a partir das minhas memórias e tudo que eu disse foi “tudo bem”?! Leo continuava me olhando e sorrindo, divertindo-se com meu espanto cada vez maior.

Em seguida ele resolveu me mostrar o guarda-roupa que havia separado para mim. Havia três peças penduradas em cabides, todas brancas. Ele me explicou:

– Esta você vai usar no seu dia-a-dia. É como um uniforme nosso aqui. Muito confortável, e ajusta automaticamente a temperatura do seu corpo. O tecido não amassa e interage com você, ou seja, ele vai retirar toda e qualquer energia acumulada no seu campo áurico, fazendo com que partes da roupa fiquem levemente mais escuras. Quando isso a incomodar, você poderá entrar no “chuveiro” e limpar-se de tudo…

– De roupa?

– Isso, de roupa mesmo. Venha, vou te mostrar. Mas, primeiro, vista-se. Eu te espero aqui fora.

Ele saiu do pequeno quarto onde havia só uma cama, uma mesa com uma cadeira, uma tela-monitor e a portinha na parede que era meu “guarda-roupa”. Eu me vesti, e saí do quarto. Aquela roupa era realmente estranha, me dava uma sensação de frescor, de eterno acabei-de-tomar-banho. O tecido era leve, fluido, e compunha-se de uma calça comprida solta e uma camisa longa de mangas compridas. A roupa de baixo vinha de um painel na parede – você punha a mão e automaticamente ele “cuspia” a roupa de baixo, branca, sem costuras, e feita exatamente para moldar-se ao corpo. Depois de usada, aquela roupa de baixo era descartada. Tudo branco, nenhum botão, elástico, nada. Toda a roupa simplesmente se ajustava a você quando vestida.

Leo elogiou a roupa e eu ri. Depois ele apertou um painel na parede do corredor que levava aos quartos e uma porta deslizou. Dentro havia um tubo circular de mais ou menos um metro de diâmetro. Ele explicou:

– Este é o “chuveiro”. Você entra aí sempre com esta roupa. Você vai sentir como se estivesse molhada enquanto estiver lá dentro. É um tratamento integral, em que suas energias e suas células serão constantemente limpas e renovadas. Como resultado, seus tecidos vão rejuvenescer, suas doenças crônicas simplesmente vão sumir, e com o tempo talvez até você mude fisicamente.

– Hã? Mude fisicamente? Como assim?

– Você assumirá a forma física que mais condiz com a sua essência. Eu vejo que sua aura vibra num certo tom. E este tom emite uma certa cor. Ela vem de sua essência, sua centelha divina, como dizemos. Uma vez que você esteja limpa, o que deve acontecer dentro dos próximos dias, você poderá notar mudanças drásticas na sua aparência. Seus olhos podem clarear ou escurecer ou mudar totalmente de cor. O mesmo pode acontecer com seus cabelos, sua pele. Você pode ganhar massa muscular, ficar mais magra ou mais gorda, ou tornar-se mais alta ou baixa. Pode acontecer de sua visão tornar-se ampliada, você pode começar a desenvolver dons telepáticos, enfim, as possibilidades são infinitas e dependem daquilo que está guardado aí dentro de você. Cada caso é um caso.

Naquele momento, me deu uma vontade doida de fazer um teste. Foi tudo muito rápido e eu fiz tudo mesmo sem pensar… respirei fundo, fechei os olhos, espalmei as mãos para cima na altura dos ombros, e fiz uma ativação mágica, algo simples. E neste momento eu inspirei com toda força. Senti um formigamento geral e minha pele acendeu-se, e um redemoinho estranho me envolveu. Era como se eu estivesse num outro ritmo temporal, eu via tudo se mover em volta como se eu estivesse dentro d’água… era muito estranho. Leo deu três passos para trás, assustado. Eu estava de olhos fechados, mas podia ver que ele estava de boca aberta. Eu sorri interiormente e abri os olhos, com medo de que aquela sensação fosse embora. Eu sentia que minhas pupilas estavam acesas, como em chamas. Via os símbolos marcados nas palmas das minhas mãos, no meu peito, nos meus pés. Eu flutuava a alguns centímetros do chão. Naquele momento, senti a própria Vida em mim… foi estranho e haviam como que pequenos relâmpagos que se acendiam ao meu redor, sobre a minha pele. Senti uma vontade irresistível de me aproximar do Leo e abençoá-lo, como os pretos-velhos fazem com os consulentes em dias de Gira de Umbanda. E assim eu fiz.

Quando me aproximei, o Leo caiu de joelhos, chorando. Ele estava visivelmente abalado com aquilo. Eu risquei a cruz em sua testa, seu peito, suas mãos… ficou tudo aceso com uma luz branco-dourada. Depois beijei seu ori e também o cruzei com devoção pedindo ao Pai Maior que o protegesse sempre. Sentia um amor imenso me invadir, uma gratidão absurda por tudo e todos. Foi tudo instintivo, fiz sem pensar, mas me deu uma alegria imensa fazer aquilo. E então eu cruzei os braços sobre o peito e inspirei… e tudo cessou – a luz, o redemoinho que me mantinha flutuando, os símbolos se apagaram. Fiquei ainda com a sensação de formigamento por algum tempo, mas foi só.

Respirei fundo e agradeci mentalmente. Minha roupa brilhava como se estivesse coberta de pó de diamante… era lindo! Meus olhos se encheram de lágrimas. Leo levantou-se e me deu um abraço apertado. Me agradeceu um monte de vezes embora eu repetisse que não era eu a Fonte, eu era só o canal.

– Quando eu fui designado pelo Mestre para ir te buscar, ele me disse que eu estava buscando uma filha muito querida e especial para ele. Agora eu entendo porque. Obrigado.

– Quem é o Mestre? Posso vê-lo?

– Ainda não. Mas ele vai chamá-la, tenho certeza. Achei que você era só mais uma de muitos resgatados no seu país… mas agora eu entendo que você faz parte daqueles poucos iniciados que nós resgatamos. Nós nunca sabemos quem são, até que algo acontece e eles se deixam identificar. Eu já tinha ouvido alguns colegas de trabalho falar sobre os Magos que estavam vindo a bordo… mas não esperava por isso, sinceramente. Muito obrigado pela oportunidade.

– Sou eu quem tenho que te agradecer, Leo. Você foi nos buscar.

– Não fui eu. Eu sou só o canal…

E nós dois rimos. E continuamos a explorar o apartamento. Ele então me explicou que havia mais duas mudas de roupa no meu armário, um deles era um vestido simples, parecido com aqueles usados na Roma antiga, cingido por fios dourados. O outro era uma túnica para eu vestir quando dormisse.

Ele disse que nós raramente sentiríamos necessidades do tipo ir ao banheiro, mas nas raras vezes que isso acontecesse, poderíamos usar o vaso sanitário, também “escondido” atrás de outra porta deslizante.

– Bem, eu devo ir agora. Se você precisar de mim, basta acionar-me pelo comunicador, em qualquer das telas magnéticas. Eu espero que sua estada aqui seja excelente, e que você e sua família possam ficar conosco o tempo que for necessário. Mais uma vez, muito obrigado.

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Lembro-me também de uma explicação que o Leo me deu sobre o porque de alguns de nós estarmos ali e outros não:

– Irmã… muitos dos espíritos sobre a Terra não têm salvação. Ou seja, eles não conseguem conceber um mundo onde haja igualdade e fraternidade verdadeiras, entre todos. Sua felicidade e realização pessoais resumem-se em subjugar, mandar, ter poder, ser temidos, acumular riquezas. Esses estão lá agora, sofrendo, e praguejando contra a vida, contra a sorte, contra Deus. Serão levados, após seu desencarne e contra sua vontade, a orbes que coadunem com sua freqüência vibratória negativa.

Leo fez uma pausa, respirando profundamente. Estávamos na sacada, apoiados sobre o guarda-corpo. Podíamos ouvir o murmúrio das águas, e uma brisa refrescante soprava, intermitente… me lembrava do mar.

– Depois, irmã, temos aqueles que não são “maus”, mas que também nunca acordaram para as verdades da vida eterna. Estes serão separados basicamente em dois grupos: aqueles que despertarão através do choque de sofrimento do processo de transição, e que assim poderão herdar a nova Terra nascendo nela daqui há alguns anos. E aqueles que, mesmo sofrendo, não terão alcance suficiente para acordar, continuando a negar as verdades espirituais, e que então também serão desterrados e encaminhados aos planetas que melhor puderem acolhê-los. Todos, sem exceção, possuem guardiões que olham por cada um deles com desvelo e atenção, então sossegue seu coração, irmã.

– É só isso? E não há aqueles que não caem nem no primeiro nem no segundo grupo?

– Há sim… bem, aqueles que já eram obreiros do Pai, que já acreditavam na vida eterna, na multitude das existências, etc., estes são mais simples de serem resgatados. No entanto, em meio a estes obreiros, existem muitos que não cuidaram de melhorar suas vibrações íntimas, irmã. Pregaram o evangelho para fora, e não fizeram mudanças internas. Mesmo trabalhando caritativamente, continuaram mentindo, traindo, reagindo com raiva exacerbada, maltratando familiares, criticando, e assim por diante. Estes também precisam terminar de lapidar seus sentimentos através da transição em curso no planeta. As energias em choque na Terra serão essenciais para que estes irmãos possam limpar de vez seus corpos emocionais dessas tendências excessivamente egóicas e destrutivas… para o bem deles próprios.

Um dia…

Um dia eu quis ser pianista. Comecei a estudar piano clássico aos 10 anos de idade, depois de muito pedir que queria um piano. Quase seis meses depois ganhei um piano de verdade (de segunda mão, da marca M. Schuartzmann) dos meus pais.

Por 5 anos aquele piano foi meu amigo. Quando eu estava triste, sentava, tocava e chorava. Quando eu estava feliz, sentava e tocava… e às vezes chorava também. Morava numa casa e, muitas vezes, os vizinhos batiam à porta e pediam que eu tocasse uma música ou outra para eles. Era divertido.

Quando comecei os estudos do colegial técnico (segundo grau), acabei tendo que largar os estudos de música, pois as aulas eram em período integral e eu morava numa cidade e estudava em outra – tive estafa, e as aulas no conservatório dançaram, óbvio.

Mesmo assim eu continuei tocando quando dava e tinha vontade. Com o tempo as coisas ficaram mais complicadas, eu tocava cada vez menos, e por fim, aos quase 30 anos, doei o piano pois não havia lugar para ele no meu apartamento em São Paulo.

Foi difícil separar-me dele. E mesmo hoje, quase dez anos depois de ter me desfeito do piano, ainda me lembro da sensação de tocá-lo, do som acústico, do peso das teclas. Foi bom enquanto durou. Foi muito bom.

Naqueles anos eu também pintava. Sempre gostei de desenhar, e eu fazia pelo menos um desenho por dia. À lápis, normalmente em tamanho A3 ou A2, de preferência em papel canson bege. A pintura normalmente era com técnica de lápis de cor, crayon preto ou nanquim (bico de pena). Várias das minhas professoras tinham quadros meus, assim como minha mãe ainda tem alguns. Minha prancheta nunca estava vazia, e naqueles momentos de criação eu me transportava a outros lugares… era mágico. Com o tempo e as muitas atividades – estudo, trabalho, viagens – eu deixei de pintar. Ainda guardo todos os materiais, papéis, lápis, réguas, mas nunca mais consegui ter tempo e sossego para pintar. Uma pena, pois eu sinto muita falta disso também.

Sonhos

Lembro-me de dois sonhos que me marcaram muito naquela época. O primeiro deles eu me encontrava num local que parecia uma taberna rústica. Eu me sentei num banco de madeira, de frente para um palco, e ali então surgiram moças de vestidos brancos diáfanos, transparentes. Elas cantavam uma melodia maravilhosa e dançavam, pareciam anjos. Eu assisti todo o espetáculo, e então um homem veio até mim. Eu me levantei e ele me cumprimentou, pegando na minha mão e beijando-a de leve, como se fazia antigamente.

Ele era bonito, de pele branca e olhos e cabelos negros. Tinha um porte altivo e eu me lembro de olhar para ele como a perguntar “quem é você?”, ao que ele respondeu: Caruso.

Então ele me fez uma mesura como a dos toureiros e deixou a sala. Eu acordei.

Semanas depois eu encontrei uma referência numa enciclopédia que tinha em casa: Enrico Caruso foi um cantor lírico italiano, nascido em 1873. Um dos tenores mais brilhantes da época. Lembro-me que me emocionei muito quando li o pequeno texto sobre ele. A foto não conferia muito com a aparência dele no sonho – ele parecia mais alto, estava bem mais magro. Mas os olhos eram exatamente os mesmos, por isso eu acho mesmo que tive o prazer de ouvir uma de suas composições no astral. Eu tinha uns 15 anos.

Num outro sonho me lembro de andar por um caminho asfaltado de pedras num imenso gramado muito verde. O caminho, à minha direita, era ladeado por pinheiros cuidadosamente podados e de uns 2 metros de altura cada. A atmosfera era úmida, e uma bruma leve cobria tudo, como se fosse muito cedo ainda. Eu andei um pouco mais e cheguei à uma casa toda branca e de estilo modernista – linhas retas e simples. Ouvi o som de um piano lá dentro. Parei e me dirigi à porta, que estava entreaberta. A sala era enorme, e ao fundo era fechado com panos de vidro do chão ao teto que deixavam ver o gramado lá fora. No centro havia um grande piano de cauda branco. Um homem estava sentado ao piano e tocava enquanto mantinha a cabeça encostada à parte de cima do móvel. A música era melancólica mas muito, muito bonita. Eu fiquei ali parada ouvindo-o tocar. Lentamente ele ergueu a cabeça, sorriu para mim, e continuou tocando. A música tornou-se menos melancólica, mais alegre e festiva. Quando terminou a peça, ele se levantou, ficou de pé ao lado do piano e fez uma mesura, agradecendo-me, pois eu bati palmas para ele. Ele usava roupas de época, do século XVII ou XVIII acho. Ele estendeu a mão e eu a segurei, sentando-me ao seu lado ao piano. Perguntei mentalmente o porque dele deitar a cabeça sobre o móvel enquanto tocava. E ele respondeu “força do hábito”. Além disso, segundo ele, a vibração da madeira do piano era algo que o ajudava a compor – era como se a madeira “chorasse” sob a vibração da música. Nós tocamos algo juntos, eu errei várias vezes, ele me corrigiu, e eu me despedi. Ele me levou à porta, acenou num adeus, e eu acordei.

Sempre tive a sensação de ter sido Beethoven. Mas só confirmei as suspeitas quando assiti Minha Amada Imortal.

A doutrina espírita kardecista possui alguns títulos que descrevem um local chamado de Vale das Artes. Segundo esses relatos, artistas das mais variadas épocas e locais, quando desencarnam, acabam encontrando-se, por afinidade energética, naquele local.

Eu sinto falta daqueles sonhos, daquelas “visitas”. Eu sempre acordava muito feliz depois de um sonho desses. Muitas vezes tenho vontade de voltar a desenhar e a tocar só para realinhar a minha conexão d’alma com esses seres tão incríveis.

Um dia, quem sabe… um dia. 🙂

O Templo da Chama Violeta

Ela era branca, de olhos num tom azul-violeta que não existe nesse mundo. Tinha os cabelos muito loiros e lisos, cortados pouco abaixo dos ombros, em linha reta, e uma franja, igualmente reta, cortada na altura das sobrancelhas. O rosto parecia de porcelana, tamanha a perfeição. Nariz, olhos, boca – tudo convergia numa simetria e beleza angelicais.

Ela vestia um vestido branco fluido, à moda grega, de braços nus e cingido à cintura por cordões dourados. Trazia, em ambos os braços, braceletes largos em ouro – um na altura do ombro quase, e outro no pulso. Havia inscrições antigas neles, lembrando hieróglifos. Trazia uma “malha” de cristais sobre a cabeça que cobria quase que totalmente seus cabelos.

Nos pés, sandálias trançadas. Na mão esquerda trazia um cajado branco. No topo havia um magnífico citrino, que parecia resplandecer a luz solar. Ela me olhou por um segundo e sorriu:

Um diamante. Símbolo da pureza de formas e de constituição. Um diamante amarelo, representante da Lei neste mundo…

Nunca vou me esquecer daquele rosto, daquele sorriso, daquele olhar…

Ela estava parada à beira de uma clareira no meio da floresta. Ao centro havia uma pirâmide, toda branca, encimada por uma estrutura dourada que lhe deixava o topo a descoberto. Por aquela abertura, entrava (ou saía?) um raio violeta que pulsava constantemente. A construção era gigantesca, e o mármore branco refletia o verde das árvores em volta. Eu via aldeões carregando jarros d’água, meninos andando sobre elefantes, casais passeando de braços dados. As “ruas” eram bastante largas e pavimentadas com tijolos dourados. À volta da pirâmide viam-se construções menores, mas todas mantinham o branco total em suas paredes. Aquilo era um centro espiritualista – uma “aldeia” de sacerdotes e seus discípulos, dedicados a manter a chama violeta do templo central intacta e pulsante.

A moça estava ali para assumir seu posto de dirigente daquele centro, mantenedora da chama e guia espiritual daquela região. Surgira à borda da clareira através de um portal dimensional. Viera de longe, preparara-se muito para aquele momento. Estava imbuída de grande poder, conhecimento, intenção e… orgulho.

Novo flash e aparece ao seu lado um outro sacerdote. Um homem também de beleza magnífica. Ele olhou para ela e ela baixou levemente a cabeça em sinal de respeito.

Estás pronta? – ele perguntou mentalmente, e eu pude ver seus olhos brilharem naquele tom violeta estranho.

Sim, foi a resposta mental dela.

Ele parecia preocupado, mas afastou o pensamento pessimista e prosseguiu a pé em direção à entrada da pirâmide, seguido de perto por sua discípula. As portas do templo eram enormes, douradas e recobertas de símbolos. O sacerdote ajoelhou-se, e foi imitado por ela. Levantou-se em seguida e bateu seu cajado por três vezes no solo, pronunciando fórmulas mágicas que pareciam ecoar por toda a aldeia como se estivessem sendo repetidas através de alto-falantes.

As portas se abriram. Um ancião os recebeu, e de repente estavam todos no salão central do templo. Centenas, talvez milhares de pessoas se reuniam naquele grande salão. Ao centro, o raio violeta se projetava, pulsando. A uns três metros do solo, um cubo perfeito, e que parecia feito de pura ametista, flutuava e girava cadencialmente, à despeito de seu tamanho imenso. Logo abaixo, no solo, havia um círculo dourado, sobre o qual sentava-se uma senhora, em posição de lótus.

Após a cerimônia, a nova sacerdotisa substituiu a anciã em sua tarefa de manter a chama pulsante e de servir de guia espiritual àquela gente.

No entanto, a nova sacerdotisa não foi bem-sucedida. Cega por seu próprio orgulho, ávida pelo conhecimento hermético dos grandes iniciados, ela mentiu, distorceu, tomou a justiça em suas próprias mãos e manchou-as com o sangue e as lágrimas de muitos. É certo que pensava estar ajudando àquela gente, mas não estava. Achou que ao controlá-los estaria livrando-os de cometerem erros, mas acabou ela mesma por cometê-los todos. Era o final de um ciclo na Terra, e aquele centro espiritual morreu com ela.

(Essas imagens me vêm à mente quase sempre. A sacerdotisa era eu, e apesar dos erros cometidos, sinto saudades daquela Terra, daquele verde, e daquelas pessoas que se perderam num tempo esquecido e enterrado de todos. Quem sabe um dia eu consiga me lembrar de tudo e possa por no papel a história da sacerdotisa. 🙂 )

Sonhei com Iansã

O terreiro era quadrado, de chão de terra batida. Ao fundo eu via o congá com suas imagens e alguns quadros e vasos pendurados na parede. Essa era a única parede que eu via – todo o resto era um breu total, como se estivéssemos todos suspensos no espaço infinito.

O dirigente veio até mim e pediu que eu trouxesse a força de minha mãe ali. Consenti, posicionei-me à frente de todos e me concentrei. Ela me envolveu. Senti realmente o seu abraço à minha volta. Nunca tinha sentido nada igual na vida, não que eu me lembre. Ouvia uma brisa constante soprando em volta de mim, como se fosse um turbilhão. E de repente ela começou a girar. No início fiquei com receio da vertigem, mas ela me apertou no abraço e eu me soltei. Eu girava, e girava… era um giro suave, embora eu tivesse certeza absoluta de que ela estava girando numa velocidade sobre-humana. Eu estava de olhos fechados, mas via tudo mesmo assim.

Perdi a consciência naquele giro, e me vi pairando a poucos centímetros do chão, vendo tudo como os outros viam – ela era magnífica!

Um cone de ar levantou aquele ser magnífico do solo e ela ficou girando e expelindo fagulhas para todos os lados, pairando a uns dois metros do solo.

Depois, o giro foi suavizando e ela desceu até ficar a um metro do chão. O turbilhão continuava embaixo dela, girando, mas agora nós podíamos vê-la. Sua pele era escura, e ela vestia roupas típicas do panteão yorubano.

Seus trajes eram brancos e refletiam uma luz opalina. O tecido parecia transparente, feito de energia pura. Não podíamos ver seu rosto – ele estava encoberto por um véu de pequeníssimas pedras diamantadas que lhe desciam até o queixo. Mesmo assim, eu podia perceber que ela sorria e olhava para mim… me sentia tão feliz!

Nas mãos ela carregava dois machados reluzentes e prateados. Conforme ela fazia movimentos com eles, cruzando e batendo um no outro, raios de luz branco-azulada se desprendiam – era um show de luz, som e energia que eu nunca tinha presenciado.

Por fim ela parou, o turbilhão sob seus pés recrudesceu. Ela cruzou os braços sobre o peito, e baixou a cabeça em forma de reverência. Desceu lentamente até que seus pés, descalços, tocassem o solo, e ali ajoelhou-se.

Nesse instante, eu voltei à consciência e novamente estava unida a ela. Fui até o dirigente e entreguei um dos machados a ele. Depois, depositei o segundo machado prateado no solo, onde eu deveria ficar na corrente daqueles filhos de fé, e ali mesmo caí ao chão, desacordada por alguns segundos. Voltei a mim ainda sentindo a pele como que eletrificada – pequenos choquinhos e luzes estavam por todo o meu ser. Eu tocava meu braço e pequenos raios se soltavam.

Acordei. E ainda estou com aquela sensação gostosa no peito. Acho que ainda não estou totalmente em mim. Aliás, nem sei mais se serei a mesma de pois dessa experiência tão magnífica, difícil de descrever em palavras.

Epa rei, Yansã! Salve a mãe do vento, da fagulha e do trovão!

Obrigada mãe, por essa visita tão maravilhosa.