A Guardiã de Mistérios – Parte Final

Todo o ambiente estava mudado. O que antes parecia uma caverna lúgubre e escura, agora lembrava muito o interior de uma catedral gótica. Vitrais multicoloridos surgiram aqui e ali, por onde adentravam fachos de luzes brilhantes. Atrás do trono, agora reconstituído em tons de ouro velho, estava uma grande rosácea luminosa que exibia lindíssima cruz central. Assentado em seu trono estava uma grande caveira vestindo um manto negro. Tinha quase dois metros de altura e segurava na mão esquerda um alfanje de cabo branco e lâmina tão transparente que parecia feita de vidro. A caveira mantinha a cabeça baixa enquanto olhava para a guardiã que agora estava ajoelhada nos degraus de seu trono: ela descobrira a cabeça e mantinha a posição em respeito aos mistérios ali assentados.

– Levanta guardiã, deixa que eu te agradeça.

A guardiã levantou-se, embora mantendo a cabeça baixa, e a caveira tocou sua testa com a ponta do alfanje.

– Recebe as lâminas da Morte para que possas continuar protegendo a Vida em todas as esferas.

A guardiã emocionou-se com o presente recebido.

– Sabes quem sou eu?

– És o legítimo regente deste trono, meu senhor.

– Sim, Eu Sou. Mas sou também um Orixá Menor. Sou aquele que rege sobre a morte nesta esfera da Vida. Sou o par magnético daquela que te espera, filha… tu bem o sabes.

– Senhor, eu… o senhor me desculpe, mas não desejo esta tarefa. Deixa-me aqui, onde sou mais útil… por favor.

– Ah, e quem fala agora?! A guardiã ou um espírito amedrontado que tem receio de fracassar na carne?

A voz do caveira ecoava pelas estruturas da catedral. A guardiã sentiu as lágrimas descerem pelo rosto. A caveira levantou-se e desceu os três degraus que a separavam da guardiã. Conforme descia, transformou-se: sua capa antes negra tornou-se branca e brilhante. Seu corpo regenerou-se completamente e via-se agora um ancião de longos cabelos brancos, ainda segurando o alfanje na mão esquerda. Ele também diminuíra de tamanho, e agora estava apenas alguns centímetros mais alto que a guardiã. Colocou então a mão sobre o ombro dela e continuou:

– Filha, muitos passam por isso. É normal sentir medo…

– Não, senhor… não é medo. Mas lá eu serei cega. Surda. Tudo o que eu sei, hei de esquecer. O senhor imagina quantos tentarão me derrubar? Como poderei ajudar a quem quer que seja dessa maneira?! Serei fraca perante aos ardis da escuridão…

– Filha, confia na providência divina. Aquieta teu coração e confia que o Pai sabe o que faz. Ele te quer na carne, então obedece a Vida. Nós estaremos aqui contigo, sempre. Tua Mãe te espera para dar-te a incumbência que terás. Vai e faz o teu melhor. Nós te olharemos e vigiaremos daqui.

Atrás da guardiã apareceu uma linda moça. Ela era pura luz rosa, e parecia transparente quando comparada aos demais ali presentes. O velho então tocou a fronte da guardiã e ela caiu em sono profundo, diminuindo de tamanho até a forma de um bebê de poucos meses de vida. O velho segurou-a com carinho enquanto a moça espargia sobre o bebê finíssimos fios brilhantes que formavam como que um casulo prateado à sua volta, deixando somente seu rostinho de fora. Quando a bebezinha estava totalmente embrulhada em fios prateados, o velho abraçou-a mais uma vez e a entregou à moça, que a recebeu com um sorriso.

– A Senhora das águas está à sua espera. – completou ele, e apontou para um portal que havia aberto à sua direita. Do outro lado, via-se uma praia de águas calmas de cor turquesa, e areia branca e brilhante.

A moça passou pelo portal e caminhou sobre a areia da praia. Conforme caminhava, a bebê que carregava crescia e acabou por transformar-se numa jovem adolescente de cerca de 12 anos. A guardiã já não se lembrava mais de quem era, mas estava contente de andar pela praia com aquela moça tão linda e alegre. Por fim parou de frente para a água e viu que uma mulher caminhava sobre as águas em sua direção – ela vestia um vestido diáfano de cor azul muito clara; em seu pescoço havia voltas e voltas de pérolas de todas as cores; seu cabelo era negro e descia em cascata pelas costas; a pele, muito branca, parecia coberta de pó de diamantes e sobre a cabeça ela usava uma coroa diamantada com uma grande estrela de cinco pontas central e outras seis distribuídas em volta. Era realmente uma visão belíssima.

A menina olhava a Senhora das águas de boca aberta e instintivamente caiu de joelhos na areia. A mãe d’água alisou seus cabelos com carinho e pediu que ela se levantasse.

– Filha, tenho uma tarefa para ti. Vais ao mundo auxiliar ao teu próximo. Vais ao mundo ser sacerdotisa dos mistérios divinos. Eu serei a regente desta tua encarnação e, juntamente com teu Pai guardião, seremos teu esteio, tua força, tua luz e tua sabedoria. Para esta tarefa hás de dar teu consentimento aqui, frente a todos que te cercam.

A menina então verificou que, perfilados à sua volta, haviam dezenas, talvez centenas de seres dos mais variados tipos – índios, negros, orientais, homens armados, mulheres belíssimas… todos traziam seriedade e confiança no olhar. Todos aguardavam ansiosos pela resposta da menina.

– Entendes o que te peço, filha?

A menina assentiu com a cabeça.

– Recebes minha coroa de bom grado, aqui perante teus irmãos?

A menina assentiu uma vez mais, sem ter muita certeza do que fazia. Sobre sua cabeça formou-se uma coroa dourada cujo topo atingia cerca de meio metro acima. Em questão de segundos ela caiu de joelhos e sentiu a cabeça tombar para frente ao peso da coroa que parecia ser feita de ouro puro e brilhante. A menina lutava para manter a cabeça reta, mas o peso era insuportável. Em seu coração ela sentia a dor e o medo se alastrar; medo do desconhecido; medo do peso daquela responsabilidade. Mentalmente via imagens tristes, sem compreender se aquelas cenas eram seu passado ou seu futuro. Sentia que não era capaz de carregar tamanha tarefa e foi sendo massacrada pelo peso daquela coroa. E foi então que ouviu a voz da Mãe d’água:

– Filha, confia. Tira o medo do seu coração. Confia no Poder Maior que nos criou a todos… se te livrares do medo que te consome, tua coroa será leve como uma pluma…

A menina respirou fundo, mas ainda assim estava difícil manter a coroa.

– Todos esses que te cercam estarão contigo. Todos nós seremos teu exército. Tu não estarás sozinha enquanto lembrar-te da Fé e do Amor do Cristo. Hás de ser vitoriosa! Agora, levanta!

E ela lembrou-se do rosto do Amado Mestre… sabia que o havia visto pelo menos uma vez. Lembrou-se dos olhar amoroso e límpido, das palavras seguras e bondosas. Sim, ela seria fiel à mensagem dele sempre, e só a lembrança daquele rosto encheu seu coração de calor e otimismo. A menina respirou uma vez mais e levantou-se. Não sentia mais o peso da coroa, que passou a brilhar ainda mais sobre sua cabeça. Todos à sua volta a aplaudiram e ela sentia a força da amizade e do carinho de todos eles. Abraçou a Mãe d’água com fervor e, novamente, tornou-se um bebê em segundos. A Mãe d’água depositou suas lágrimas sobre o rosto da pequenina e levou-a em direção ao mar…

Lei da Atração

Um amigo perguntou: “Pensamento positivo traz coisas boas e tal… mas e se, perante a Lei Maior, você não seja merecedor e tenha carma pendurado para cumprir? Como fica?”. E eu emiti a pergunta mentalmente, pedindo uma explicação que auxiliasse não só ao meu amigo, mas também a todos nós. A resposta veio, quase toda em imagens (imagine uma apresentação PowerPoint em 3D e alta resolução… é, então, foi mais ou menos assim), e ao fundo a voz melodiosa do Mentor que eu nunca me canso de ouvir.

Infelizmente eu sou falha, e não psicografo de maneira inconsciente. Então, o texto a seguir é uma explicação acanhada de tudo aquilo que o Mestre me disse e mostrou. Agradeço a ele, uma vez mais, a paciência e confiança.

atração

Vocês encaram a vida em compartimentos – vida física, material; vida espiritual, religiosa. Mas, na realidade, esta separação inexiste. E para que se compreenda, realmente, o que vou relatar aqui, é preciso que se tenha um mínimo de conhecimento de Física, Matemática, Química, Biologia… sem isso, é impossível compreender os mecanismos que regem a Vida Espiritual neste planeta.

Muito se fala sobre Carma. Sobre “merecimento”. Quando na verdade vocês deveriam conversar sobre energia, atração e repulsão, eletromagnetismo. Sim, porque são estas as Leis por trás do Carma. Da mesma maneira que os polos positivos de dois ímãs não conseguem se unir, uma vez que o eletromagnetismo de ambos são repulsores, da mesma maneira é impossível para a mente em desequilíbrio atrair para si a prosperidade, as boas companhias, o “carma” bom.

Não é uma questão de punição, é uma questão eletromagnética da qual a Vida se utiliza com maestria para ensinar a todos nós que somente alterando padrões vibratórios interiores poderemos realmente ser Mestres de nossas vidas, de nosso Carma.

E nesse jogo eletromagnético existem dois tipos de seres – aqueles que dormem, e portanto não têm a mínima ideia de que tais leis existam e continuam gerando de si energias em desequilíbrio, atraindo desgraças e mais desgraças até que uma “chave” qualquer desperta suas consciências. Na maioria das vezes esta chave é um trauma agudo, uma perda terrível, uma dor insuportável.

O problema é que esse tipo de despertar gera o segundo tipo de ser, aquele que está desperto, têm consciência da Lei Maior, mas ainda assim não consegue livrar-se do sofrimento. Um exemplo clássico é o ser que acordou, despertou para as verdades eternas através do choque da necessidade material, onde faltava de tudo, do vestir ao comer. Numa próxima existência este ser vem ao mundo numa boa família onde nada lhe falta. Ele estuda, trabalha, constitui família, mas está sempre às voltas com a falta de recursos, num stress constante, numa luta que o faz “matar um leão por dia”. Este ser não está “pagando carma”, ele só está vibrando na frequência de dor em que viveu tantos anos, uma frequência que, apesar da boa vida atual, apesar da família que teve, apesar dos estudos, enfim, ele não foi capaz de alterar. É o padrão vibratório mental deste ser, através dos traumas guardados em sua subconsciência, que continuam atraindo as situações de stress e necessidade em sua existência atual.

Muitas vezes, diria que na maioria delas, vocês precisam descortinar essas experiências anteriores sob a luz da psicanálise, destravando traumas e, assim, mudando a frequência vibratória emitida em suas vidas atuais. Aprender, evoluir, significa exatamente isto: TOMAR CONSCIÊNCIA. E se um ser permite ter sua vida toda atrapalhada por padrões vibratórios que ele gera de si e nem mesmo toma conhecimento, isso quer dizer que ele não despertou, não aprendeu, não evoluiu, não pode ser responsável por si, uma vez que não se CONHECE VERDADEIRAMENTE.

O carma rege a família onde você nasce, as pessoas com quem você interage, algumas vezes as doenças físicas que você terá, porque tudo isso vem programado no seu DNA espiritual, é como um programa de computador, ele está programado para ajudar você na sua evolução, no seu aprendizado. No entanto, os traumas escondidos em sua inconsciência são como um vírus que atrapalha o programa central, desperdiça seu tempo, e atrasa sua evolução. Some-se a isso o fato de que este “programa” é altamente sensível e responde a palavras e sentimentos como ninguém – então se você ouviu muito de seus pais que a vida era difícil, que trabalhar é ruim, que nasceu pobre vai morrer pobre, etc, etc, etc… tenha a certeza de que tudo isso ficou impresso em seu programa inicial e há de interferir enormemente em suas habilidades e capacidades futuras.

Por isso o Grande Mestre dizia a todos que deveriam Orar e Vigiar. Porque tudo é energia, e todo pensamento emitido, toda palavra dita, todo sentimento vibrado, altera sua composição genética espiritual, seu programa de vida se altera e você acaba carregando consigo um monte de “lixo” que não estava programado para você inicialmente, mas que você continua gerando de si todos os dias.

Conhecer-se a si mesmo é a chave para uma vida melhor. Mas para isso é preciso ter coragem, é preciso investigar, olhar para si despido do ego, apontar seus defeitos, identificá-los e… MUDAR. A Vida nos quer atuantes, capazes, despertos… para a Vida quanto menos seres “pagando carma”, melhor. Então a Vida há de facilitar todas as suas experiências, há de dotar você de todos os recursos possíveis… só que ela só pode fazer isso dentro da sua capacidade de atração, dentro daquilo que a sua energia, o seu eletromagnetismo, a sua consciência, emite.

Ao contrário do ímã, na Vida, polos positivos se atraem… e negativos também. Lembrem-se disso. Fiquem em paz.

Adonai.

Neferari e o Guardião

Egito

Eu não confiava em homem algum. Mulher alguma era minha amiga. Sozinha, sentada nas escarpas daquele vale de lágrimas, eu chorava minha desdita e tentava concatenar os pensamentos. Onde estaria o grande Deus Osíris? Se ele pesara meu coração sem meu conhecimento, com certeza eu não teria passado no teste… sentia-o pesar e doer em meu peito, enquanto a sede queimava minha garganta.

Olhei para meus braços, mãos, pernas e pés. Estava coberta por chagas, arranhões, sujeira. Minha túnica funerária, antes branca e perfumada, agora era só andrajos. Meu corpo, ao que tudo indicava, ainda assim continuava excitante aos olhos de alguns dos seres que vez ou outra passaram por mim. Eles me machucaram e eu fugi deles, e agora só fico aqui em cima, no morro escarpado, onde a maioria não alcança por estarem já mutilados. Com certeza eu estava no inferno… mas eu não via as serpentes e Ammit parecia não ter ainda devorado minha alma, uma vez que eu continuava viva no além-túmulo. Qual direção deveria seguir? E porque nenhum dos deuses egípcios aceitava minhas preces?

Eu já não dispunha mais do ouro de meu pai. Nem poderia pedir aos servos que me preparassem uma bandeja de frutas para ofertar no templo. Como faria para ser então ouvida?

Depois de muito sofrer, chorar e pedir, decidi então que só me restava um último sacrifício a fazer: daria meu coração, aquele que tanto me pregara peças quando em vida, aquele que me fizera definhar em tristezas, ofereceria meu coração ao grande Deus Rá, senhor do sol e da vida, em troca do fim dos meus sofrimentos.

Durante o “amanhecer” de um daqueles dias sombrios, quando víamos apenas uma lúgubre claridade avermelhada, encarei o que eu pensava ser o grande disco solar naquela dimensão infernal, ajoelhei-me contrita e então fiz minha oferta:

– Ó grande Rá! Senhor do Sol e da Vida! Ouve a minha súplica! Eu, Neferari, ofereço-te meu coração em sacrifício! Ofereço-te meu coração e juro, por meu Kha, servi-lo por todo o sempre! Aceita meu coração e livra-me deste suplício! Apaga minha memória e livra-me da vergonha e da soberba! Lava minha alma em teus raios de luz, e aquece meu corpo espiritual para que eu não mais sinta frio, fome, sede ou dor. Leva-me para os teus domínios, ó Glorioso Rá! Faz de mim tua serva e hei de me sentir abençoada para todo o sempre!

Chorei muito enquanto fazia minha prece. A claridade, que durava apenas alguns instantes, foi se esvaindo. No lugar dela, uma tormenta iniciou-se. A chuva era fria e caía abundantemente. Encolhi-me e me deixei ficar ali, ao chão, enquanto a água parecia lavar minha feridas e meu pranto. Por fim, exausta, acho que adormeci.

Quando acordei, jazia em uma cama confortável, sobre tecidos que lembravam o mais puro linho. As cores variavam do negro ao roxo e ao lilás bem claro, com objetos de decoração em tons de dourado e prata aqui e ali. Na cabeceira da cama onde eu estava, reconheci o disco solar alado e meu coração sossegou. Chorei sentida e agradeci por ter sido acolhida como neófita. Quem sabe ali eu poderia ter a chance de aprender e, no futuro, ver novamente meu coração ser pesado contra a pluma? Quem sabe então ele não estaria tão leve quanto as nuvens no céu de verão?

Notei que estava nua, coberta por uma colcha muito macia. Olhei meus braços, minhas pernas, e tudo havia voltado praticamente ao normal. Vi que eu ainda guardava algumas marcas arroxeadas e pequenos arranhões, mas nada além disso. O cheiro do sândalo exalava por todos os lados e aquilo me trazia conforto e bem-estar. Vi uma bacia dourada junto a uma ânfora, e deduzi que serviria para lavar as mãos e o rosto. Ao lado da cama, uma mesinha baixa de madeira escura continha uma bandeja circular com nozes, figos, tâmaras e uvas. Havia dois pedaços pequenos de pão e uma ânfora com algo que se parecia com leite. Meu estômago reclamou e eu ataquei aquela refeição como nunca havia feito antes. Em meio àquele ataque de péssimos modos, fui interrompida por uma criada, ou pelo menos assim me pareceu. A moça era belíssima, e trajava-se de branco, à moda egípcia. Trazia braceletes dourados em ambos os braços, e os cabelos eram ruivos, descendo até pouco abaixo da cintura. Ela sorriu para mim e disse-me que o Mestre ficaria feliz em saber que eu já estava me alimentando.

– Mestre? Quem é ele, escrava? Quem é o teu Mestre, diga-me!

A moça sorriu mais uma vez:

– O Mestre é a resposta às nossas súplicas, irmã. E eu o sirvo por gratidão e não por ser sua escrava. Ele também me tirou do inferno, como fez com você.

Enrubesci pela noção de que aquela serva se achava no mesmo patamar que eu. E o que era pior – ela sabia sobre onde eu estivera. Será que teria me visto naqueles andrajos?

– Duvido muito que nossas condições sejam similares. De qualquer maneira, gostaria de saber se há algo que eu possa vestir e se podes me levar ao teu Mestre.

A moça gargalhou com gosto, enquanto jogava a cabeça para trás e punha as mãos na cintura de modo desdenhoso. Fiquei enraivecida com aquilo, mas tentei não demonstrar. Senti certa tontura, e acabei por me sentar novamente na cama, enquanto segurava minha cabeça que não parava de rodar. Naquele instante, ouvi uma voz profunda ribombar dentro do aposento:

– O que acontece aqui, Surya?

Ergui a cabeça e o vi. Era um homem alto, corpulento. A pele era branca, e os olhos e os cabelos muito negros. Usava barba e bigode, e portava sobre o corpo uma grande capa negra que deixava à vista apenas a ponta de seus sapatos.

– Ora, ora… se não é nossa hóspede que acordou?

Percebi que continuava completamente nua e rapidamente tentei me enrolar nas cobertas, mas perdi os sentidos e caí. Quando voltei a mim estava novamente sobre a cama. O homem que eu havia visto estava sentado num banco ao meu lado, olhando-me, enquanto estendia ambas as mãos sobre a minha testa. Feixes multi-coloridos de energia saíam de suas mãos, e eu sentia um calor gostoso me invadir. Quando aquilo finalmente parou, ele baixou as mãos, olhou para mim e sorriu um sorriso bonito de dentes muito brancos:

– E então Neferari, como se sente?

Tentei me sentar mas o mundo girou novamente. Ele me auxiliou colocando uma almofada às minhas costas. Sentou-se na beirada da cama e passou levemente a mão sobre minha cabeça, como a ajeitar meus cabelos.

– Quem é você? Se você também é um servidor do grande Rá, porque veste-se assim? De onde vêm essas roupas estranhas?

O homem, a imitar sua serva, gargalhou alto enquanto pegava minha mão direita entre as suas. Beijou minha mão e foi como se uma descarga elétrica me atingisse. Levei um susto e quis retirar a mão, mas ele continuou segurando-a, enquanto olhava para mim de forma muito intensa e enigmática. Eu não consegui sustentar seu olhar, baixei os olhos e só consegui balbuciar:

– Não me machuque, por favor…

Chorei sentida, enquanto o homem segurava minha mão e me olhava. Ele tinha mãos macias e quentes, e aquele calor parecia me confortar e me dar abrigo. Será que era mau? Mas se era um demônio ou coisa assim, porque me salvara?

– Eu não sou um demônio, Neferari. – disse ele levantando-se da cama e caminhando em direção à porta. – Não para você. Aqui você ficará até que tenha consciência de seu novo estado de vida. Se quiser, poderá estudar comigo quando eu tiver tempo de lhe ensinar. Mas, lembre-se: engula seu orgulho. Aqui quem manda sou eu, e aquele que me desobedece perde direitos e ganha castigos, entendeu? Você, por enquanto, tem alguns direitos comigo, moça. Mas se permitir que seu ego atrapalhe seu aprendizado, muito em breve fará um estágio em minhas cavernas-presídio. Acredite: você não gostaria de lá. Agora, durma. Amanhã venho te ver novamente.

Ele fez um gesto com a mão esquerda no ar e eu simplesmente apaguei.

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(Trecho do livro que conta a história de Neferari, até sua redenção dentro das hostes de Umbanda. O livro ainda está em processo de desenvolvimento.)

O Templo da Chama Violeta

Ela era branca, de olhos num tom azul-violeta que não existe nesse mundo. Tinha os cabelos muito loiros e lisos, cortados pouco abaixo dos ombros, em linha reta, e uma franja, igualmente reta, cortada na altura das sobrancelhas. O rosto parecia de porcelana, tamanha a perfeição. Nariz, olhos, boca – tudo convergia numa simetria e beleza angelicais.

Ela vestia um vestido branco fluido, à moda grega, de braços nus e cingido à cintura por cordões dourados. Trazia, em ambos os braços, braceletes largos em ouro – um na altura do ombro quase, e outro no pulso. Havia inscrições antigas neles, lembrando hieróglifos. Trazia uma “malha” de cristais sobre a cabeça que cobria quase que totalmente seus cabelos.

Nos pés, sandálias trançadas. Na mão esquerda trazia um cajado branco. No topo havia um magnífico citrino, que parecia resplandecer a luz solar. Ela me olhou por um segundo e sorriu:

Um diamante. Símbolo da pureza de formas e de constituição. Um diamante amarelo, representante da Lei neste mundo…

Nunca vou me esquecer daquele rosto, daquele sorriso, daquele olhar…

Ela estava parada à beira de uma clareira no meio da floresta. Ao centro havia uma pirâmide, toda branca, encimada por uma estrutura dourada que lhe deixava o topo a descoberto. Por aquela abertura, entrava (ou saía?) um raio violeta que pulsava constantemente. A construção era gigantesca, e o mármore branco refletia o verde das árvores em volta. Eu via aldeões carregando jarros d’água, meninos andando sobre elefantes, casais passeando de braços dados. As “ruas” eram bastante largas e pavimentadas com tijolos dourados. À volta da pirâmide viam-se construções menores, mas todas mantinham o branco total em suas paredes. Aquilo era um centro espiritualista – uma “aldeia” de sacerdotes e seus discípulos, dedicados a manter a chama violeta do templo central intacta e pulsante.

A moça estava ali para assumir seu posto de dirigente daquele centro, mantenedora da chama e guia espiritual daquela região. Surgira à borda da clareira através de um portal dimensional. Viera de longe, preparara-se muito para aquele momento. Estava imbuída de grande poder, conhecimento, intenção e… orgulho.

Novo flash e aparece ao seu lado um outro sacerdote. Um homem também de beleza magnífica. Ele olhou para ela e ela baixou levemente a cabeça em sinal de respeito.

Estás pronta? – ele perguntou mentalmente, e eu pude ver seus olhos brilharem naquele tom violeta estranho.

Sim, foi a resposta mental dela.

Ele parecia preocupado, mas afastou o pensamento pessimista e prosseguiu a pé em direção à entrada da pirâmide, seguido de perto por sua discípula. As portas do templo eram enormes, douradas e recobertas de símbolos. O sacerdote ajoelhou-se, e foi imitado por ela. Levantou-se em seguida e bateu seu cajado por três vezes no solo, pronunciando fórmulas mágicas que pareciam ecoar por toda a aldeia como se estivessem sendo repetidas através de alto-falantes.

As portas se abriram. Um ancião os recebeu, e de repente estavam todos no salão central do templo. Centenas, talvez milhares de pessoas se reuniam naquele grande salão. Ao centro, o raio violeta se projetava, pulsando. A uns três metros do solo, um cubo perfeito, e que parecia feito de pura ametista, flutuava e girava cadencialmente, à despeito de seu tamanho imenso. Logo abaixo, no solo, havia um círculo dourado, sobre o qual sentava-se uma senhora, em posição de lótus.

Após a cerimônia, a nova sacerdotisa substituiu a anciã em sua tarefa de manter a chama pulsante e de servir de guia espiritual àquela gente.

No entanto, a nova sacerdotisa não foi bem-sucedida. Cega por seu próprio orgulho, ávida pelo conhecimento hermético dos grandes iniciados, ela mentiu, distorceu, tomou a justiça em suas próprias mãos e manchou-as com o sangue e as lágrimas de muitos. É certo que pensava estar ajudando àquela gente, mas não estava. Achou que ao controlá-los estaria livrando-os de cometerem erros, mas acabou ela mesma por cometê-los todos. Era o final de um ciclo na Terra, e aquele centro espiritual morreu com ela.

(Essas imagens me vêm à mente quase sempre. A sacerdotisa era eu, e apesar dos erros cometidos, sinto saudades daquela Terra, daquele verde, e daquelas pessoas que se perderam num tempo esquecido e enterrado de todos. Quem sabe um dia eu consiga me lembrar de tudo e possa por no papel a história da sacerdotisa. 🙂 )

Na China do Grande Khan – Parte II

Chinese Lady por Feimo

(clique aqui para ler a primeira parte deste ensaio)

Nem eu entendi bem como tudo acontecera, mas Xhin havia exposto certas idéias que eram contrárias às ordens do imperador, e isso foi sua ruína. Sua esposa foi mandada de volta ao pai dela, enquanto que Xhin foi exposto por Xheng frente todo o exército e conselheiros. Para não matá-lo, Xheng ofereceu-o o exílio, dando-lhe um cavalo, um odre com água, e uma faca, nada mais. Ele deveria cavalgar em direção ao sul e nunca mais voltar, era essa sua sentença.

Naquele dia, olhando em seus olhos, eu chorei. Vi o rancor neles, vi o quanto ele me culpava ao ver-me lado a lado com seu irmão quando este anunciou que eu seria sua primeira esposa. O exército aclamou-nos com fervor, porque viam em mim alguém com grandes qualidades estrategistas, além de uma beleza que florescia dia após dia.

Xhin nunca chegou ao sul. Xheng contratara mercenários e mandara que estes o seguissem e matassem, roubando o pouco que ele carregava consigo. Poucos dias depois, uma patrulha do palácio chegou com seus restos mortais – haviam-no encontrado às margens de um poço, assassinado.

Xheng deu ao irmão honras de estado, cremando seu corpo em ocasião solene e tornando-se então o governador oficial daquela província. Eu estava grávida de dois meses e não sabia de quem era meu filho. Embora não soubesse a verdade, algo em meu íntimo me dizia que a alegria nos olhos de Xheng era diabólica, e que a morte de Xhin não havia sido fruto do acaso. Mesmo assim, o remorso me corroía. Mais e mais eu via o quanto Xheng podia ser cruel com todos, e aquilo me dava medo.

Ele sempre tratou-me com deferência. Nosso filho nasceu e, no momento em que pus os olhos nele, soube que seu pai era Xhin. Quanto deitei-me com Xheng, naquela noite quente de verão, eu já o carregava em meu ventre, tinha certeza. Deste dia em diante, passei todos os momentos tentando defender a criança da influência malfazeja de seu tio, que se julgava pai do menino. Ele cresceu forte e bonito como o pai, mas sua alma de criança, dócil e fraterna, logo deu lugar a um adolescente voluntarioso que gostava de seguir os passos de Xheng em tudo.

Essa foi minha desdita – vi o fruto de meu único e sincero amor ser envenenado, dia a dia, pela má conduta e violência do tio. Vi como aquele menino dócil, pacato, sincero e bom tornou-se um tirano sangrento, seguindo os conselhos do homem que eu mesma escolhera como marido.

Eu vivi cercada de luxo… e tristeza. A desonra e o remorso me corroeram até o fim de meus dias, que foram longos e solitários. Tzu Tong Lee, meu filho, tornou-se um dos maiores conquistadores a mando do grande Khan e, quando este veio a falecer, sucedeu-o durante alguns poucos anos, quando então também foi assassinado. Em seu leito de morte, enquanto agonizava, eu contei-lhe tudo, pedindo-lhe perdão. Já contava mais de 70 anos, mas continuava sendo uma mulher forte e lúcida.

Lee morreu sem perdoar-me. E vinte anos depois, eu também deixei a China para juntar-me aos meus pares na pátria espiritual. Desencarnei sentindo grande remorso, e ouvindo claramente que Xhin gritava ao meu lado “traidora! mentirosa!”.

Sei que fiquei muito tempo num estado catatônico entre remorso e tristeza, sendo “vítima” das investidas dos irmãos nas trevas. Mas aqueles anos todos de solidão e remorso na carne abrandaram meu coração, e me fizeram compreender muitas coisas. Eu rezei, eu pedi aos deuses que me livrassem daquele tormento. E eu acordei num hospital, muito branco, muito limpo.

Ali recuperei-me. Ali revi muitas de minhas vidas, e refiz meu invólucro perispiritual. Mas eu era melancólica ao extremo, quase não sorria. Meu coração doía constantemente. Como remédio para a tristeza, deram-me a incumbência de cuidar do jardim… das flores, mais especificamente. Aprendi a conversar com elas e com as energias e seres que as faziam florescer belas e perfeitas. Naqueles momentos de quietude, as flores me davam seu carinho, e pouco a pouco meu coração foi deixando de doer. Aqueles pequenos seres luminosos eram como crianças, sempre brincando, sorrindo. Por isso eram tão belos, assim como as flores.

Quando finalmente eu havia me acostumado ao meu novo lar, e quase não pensava mais em Xhin ou em meu filho Lee, o Mestre apareceu.

Eu estava abaixada, doando energias a algumas flores que precisavam delas para transmutar os negativismos que haviam absorvido naquela manhã quando, de repente, senti um calor brando às minhas costas e vi um clarão.

Virei-me num salto e levei a mão aos olhos. Logo o clarão diminuiu e eu o vi. Ele era alto, mais de dois metros de altura. Vestia uma túnica branca bordada com símbolos em dourado – o tecido era fluido e parecia mudar de cor conforme ele se movia. Ele baixou o capuz e eu pude ver seus longos cabelos dourados e lisos, que caíam pouco abaixo de seus ombros. Ele tinha o rosto fino e anguloso, olhos da cor do âmbar, puxados à moda oriental. Era bonito e transpirava confiança, poder, serenidade. Um calor gostoso emanava dele e me envolvia dando-me a sensação de ser abraçada.

Fiquei estática, não conseguia me mover. Ele sorriu.

– Filha, é bom ver-te novamente. Está na hora. É tempo de reencarnar.

A notícia me atingiu em cheio. Reencarnar? E as flores? E os meus estudos ali? E se eu ainda não estivesse pronta, e se mais uma vez eu falhasse… o Mestre novamente sorria, baixando a cabeça. Parecia ler meus pensamentos. Afastou a capa e eu pude ver seus braços fortes. Em sua mão direita surgiu um bastão, quase de sua altura. No topo havia um diamante translúcido, seguido mais abaixo por outras sete pedras igualmente belíssimas e coloridas. O bastão era dourado, e estava coberto por símbolos estranhos. Ele chegou mais perto de mim, e tocou meu rosto. Eu chorei.

– Filha, você tem o que é preciso: a vontade de acertar. Não é possível evoluir assim, parada no tempo, cuidando de nossas amigas flores.

– Mas e Xhin? Ele também virá? Posso vê-lo antes de ir?

O mestre baixou os olhos com tristeza.

– Não filha, não há como. Ele ainda prende-se ao rancor, e por isso ainda estão tentando resgatá-lo. É bem possível que ele reencarne compulsoriamente, e assim livre-se do tormento. Vocês terão nova chance, isso é certo.

Eu caí de joelhos, chorando. O Mestre depositou a mão esquerda sobre minha cabeça e brando calor me envolveu. Pouco a pouco a serenidade me invadiu, e eu perdi os sentidos.

Na China do Grande Khan

Tang Dinasty por Feimo

Meu nome é Mei Ling. Aos 12 anos fui tomada como escrava. Uma das tribos das estepes invadiu meu povoado. Queimaram tudo… minha mãe morreu, assim como meu pai. Meus dois irmãos menores foram levados também como escravos, e vendidos durante a viagem. Minha irmã mais velha matou-se em meio ao desespero de ver seu noivo morto. Eu fui uma das poucas que sobraram. Para os padrões da época, eu era bonita, chamava a atenção. O líder daquela tropa de bárbaros achou que eu seria bem-vinda por seu senhor, então levou-me intacta até ele.

Tzu Tong Xhin e seu irmão Tzu Tong Xheng reinavam nas estepes. Eram filhos do grande Khan, e faziam parte de seus esforços armados para uma China unificada. Nunca antes houve tanta matança, tanto choro, mas também nós nunca tivéramos alguém que nos regesse como monarca absoluto. Àqueles que o próprio Khan designava, eram dadas honrarias, terras, palácios. Aos outros, a ponta da lança era normalmente seu fim.

Tzu Tong Xhin acolheu-me como sua preferida. Ele tinha 19 anos, e era o mais velho, por alguns minutos, entre os dois. Xheng nascera depois, e portanto era general dos exércitos, enquanto que Xhin seria senhor daquelas terras, ambos nomeados por seu pai, o grande Khan.

Xhin tinha alma de agricultor, e não de monarca. Ainda assim, eu pressentia, seria um excelente governador, pois era perspicaz e sabia ler muito bem a alma humana. Xheng era por demais volúvel, instável, audacioso e violento. Por vezes era admoestado pelo irmão que, embora poucos minutos mais velho que ele próprio, parecia ter sido abençoado pelos deuses com uma sabedoria ancestral.

Logo Xhin tornou-me sua amante. Eu passei de serviçal preferida à sua confidente. Eu gostava dele, mas minha alma infantil ainda sentia grande raiva daquele povo. Se eu tivesse uma oportunidade, por certo mataria os dois. Afinal, não importava o quão belo e amável Xhin pudesse ser, eu ainda era sua escrava, e ele meu senhor.

Quando completei quinze anos, já num corpo de mulher, as brigas constantes entre os dois irmãos tornaram-se terríveis. Mantinham-se juntos e não se matavam por simples medo do grande Khan. Sabiam o quanto o grande imperador zelava pela irmandade entre os clãs, e principalmente pela honra familiar dentro deles. Eu via Xheng olhando-me, estudando cada um de meus movimentos. Percebia seu interesse quando arrumava-me para qualquer de nossas confraternizações.

O palácio havia sido terminado poucos meses antes, com seus pátios internos, grandes colunas, tapeçarias e janelas decoradas. A mim foram dados aposentos contíguos aos de Xhin que, embora me amasse, não podia fazer de mim sua primeira esposa. Aquilo me deixava louca! Se os deuses me ajudassem, eu ficaria grávida, e então seria mãe do primogênito. Mas minhas regras eram instáveis e eu nunca sabia quando era o tempo certo para engravidar.

A parteira auxiliava-me com chás e poções, pois prometera-lhe honrarias se me tornasse mãe do futuro governador. Mas mesmo assim, nada adiantava, e eu continuava sendo a concubina.

Numa noite quente, eu andava pelo corredor interno, observando os jardins, o lago, e a lua imensa no céu. Estava especialmente melancólica naquela ocasião – era a noite de lua-de-mel de Xhin com uma garota de 15 anos, escolhida a dedo pelo grande Khan. Me martirizava a idéia de que ela pudesse vir a ser a escolhida para carregar no ventre o herdeiro que eu tanto queria.

Xheng aproximou-se sem que eu notasse e depositou um beijo em minha nuca. Assustei-me.

– Ah! Você! Desculpe-me, meu senhor, não consegui dormir, e…

Curvei-me e fui afastando-me dele, sem dar-lhe as costas.

– Não, não… fique. Preciso falar com você Mei Ling. É importante.

Xheng era muito parecido com o irmão. Mas enquanto Xhin era calmo, e transparecia uma indiferença e frieza constantes, Xheng era como o próprio sol. Seus gestos eram tempestuosos, sua voz ribombava feito o trovão, e seus olhos… bem, seus olhos pareciam navalhas a perfurar qualquer um que o desagradasse. Mas naquela noite Xheng parecia preocupado… e muito atraente para uma moça que fora negligenciada numa noite tão linda.

– Eu sei o que lhe vai n’alma. Pensa que não vejo o quanto você se arrasta atrás daquele tolo do Xhin? A verdade é que você mesma era filha do líder de sua aldeia. Xhin poderia tê-la apresentado ao grande Khan como sua escolhida. Mas não o fez. É um fraco. Pensa que baixando a cabeça nosso pai o amará mais, o distinguirá entre tantos outros.

Xheng, enquanto falava, puxou-me para ele, e andava comigo na direção do jardim. Seu toque era quente, mas muito respeitoso. Segurava meu braço com grande apreço, e vez ou outra tirava um fio de cabelo do meu rosto, que a brisa teimava em trazer de volta. Eu vestia um camisolão de seda branca, e por cima um robe também branco com desenhos em dourado, verde e vermelho. Eram flores… Xhin havia me presenteado com o robe de mangas amplas, porque ele dizia que somente as mais belas flores poderiam vestir-se daquela maneira. Mas naquela noite, ele não tinha olhos para mim.

– Ouça Mei Ling, sente-se aqui, ao meu lado. Eu… eu acho você uma mulher magnífica. Tenho verificado o progresso de Xhin enquanto estrategista e governador, e sei que muito se deve aos seus conselhos. Eu sei que ele a consulta antes de tomar qualquer decisão importante. Então, porque casar-se com outra? Porque não elevar você à posição de primeira esposa?

– Porque eu não posso lhe dar um filho… é por isso…

Naquele momento, não pude segurar as lágrimas. Chorei muito. Xheng abraçou-me, e logo estávamos nos beijando. Aquilo era o céu para mim. Embora eu tivesse passado anos nos braços de Xhin, eu nunca havia me sentido daquela maneira antes. Xheng era exímio amante, e seu temperamento tórrido ajudava no processo. Nos entregamos à paixão ali mesmo, na relva macia, sobre o robe de seda pura que Xhin havia me dado na noite anterior, como “presente de casamento”. Nós também havíamos nos amado naquele dia, mas ao contrário de Xheng, ele preocupava-se apenas com sua linhagem sucessória, e portanto o ato tornara-se simplesmente procriatório para ele. Não havia mais o carinho e o cuidado dos primeiros tempos, quando passávamos horas abraçados, nos amando.

– Há muito eu sonhava com este momento Mei Ling. E agora que o consumei, não vou mais deixá-la ir. Farei de você minha primeira esposa, e juntos, governaremos esta província.

A idéia me pareceu maravilhosa. Eu seria primeira esposa! Nunca mais os serviçais me olhariam no rosto, como se eu fosse mais uma criada. A água do meu banho seria mais quente, meus perfumes melhores, minha seda a mais pura. As pessoas se curvariam diante de mim, e Xheng me daria o crédito por aconselhá-lo, eu tinha certeza. Governaríamos juntos e faríamos daquela província a mais rica e próspera de toda a China!

– Diga-me uma só palavra, Mei Ling, uma só palavra de encorajamento e eu cuidarei de tudo…

Xheng beijou-me apaixonadamente e eu concordei. Durante semanas encontramo-nos às escuras, e ao final de mês e meio Xhin foi acusado de traição.

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Lembranças…

Nebulosa de Órion (Huble)

O vidro curvo era totalmente transparente, e através dele eu via aquele imenso planeta azul. A sensação era indescritível – aquela massa imensa azul anil era coberta aqui e ali por porções verdejantes de terra, além de nuvens brancas que pairavam pouco acima. Senti o peito apertar. Ultimamente eu vinha tendo sensações emotivas muito fortes quando pensava naquele planeta. Agora, foi-me dada a oportunidade de viver fisicamente ali, juntamente com milhares de outros de minha raça. Em sendo assim, tínhamos estabelecido esta base extra-planetária, de onde monitorávamos o planeta, suas condições, e seus habitantes primitivos.

Naquele dia, eu e mais alguns pesquisadores descemos à superfície. Nossa compleição não era física o suficiente ainda para que pudéssemos ser notados por aqueles hominídeos. Os corpos que ocuparíamos, embora muito superiores àqueles nascidos naturalmente no planeta, ainda estavam sendo finalizados em nosso laboratórios. Já havíamos sido ligados energeticamente a eles, mas ainda não tínhamos permissão para o acoplamento total. Lembro-me de andar em meio àqueles nativos, muito cabeludos e todos nus, enquanto se reuniam em círculo para uma refeição.

Detive-me frente a uma fêmea que dava de mamar a sua cria – aquele ser, tão primitivo, tão mal-formado segundo nossos padrões, emanava uma aura rosada de puro amor maternal. Eu podia sentir que ela seria capaz de qualquer coisa por aquele ser pequenino e indefeso. Seus olhos tinham um brilho especial, de carinho e acolhimento, enquanto ela embalava seu pequeno: aquilo era divino. A emoção foi tão forte que tive de afastar-me.

Lembro-me de sentar-me à beira de um penhasco florido, aspirando o ar rarefeito e olhando o vale verdejante que se estendia lá embaixo. Aquilo era lindo! Tão diferente daquilo que estávamos acostumados…

Alguém invadiu meus pensamentos:

– Porque a tristeza?

Olhei para a direita e vi um de nossos amparadores. Ao contrário de mim, ele emanava uma aura dourada por todo o corpo. Tínhamos os mesmos olhos puxados, rosto anguloso, nariz aquilino. Mas enquanto minha pele era extremamente branca, quase azulada, a dele era levemente bronzeada, como se partículas douradas brilhassem sobre todo o seu ser.

Seus olhos tinham o mesmo tom âmbar, como fogo líquido, enquanto que eu tinha os olhos num tom azul-cinzento triste. Meus cabelos eram lisos e brancos, pouco abaixo dos ombros; os dele eram loiro-claros, também muito lisos, mas cortados à altura dos ombros.

Ele tinha uma compleição longuilínea, mas extremamente forte. Ele emanava calor, austeridade, poder, determinação. E eu não consegui articular um só pensamento diante disso.

– Muito em breve você estará aqui, entre eles. Todos vocês serão tidos como deuses; portanto, cuidado! Como viste, estas também são crituras divinas. E uma afronta à vida, não importa qual seja ela, é uma afronta ao Criador de Tudo que É.

Senti medo, receio. Olhei novamente em frente na tentativa de que ele não percebesse o que me ia n’alma, mas foi em vão.

– Seu receio é bom, e bem fundamentado. Nossa raça há muito tem apegado-se a seu orgulho de raça pura, e também por ter domesticado a todas as sensações do corpo emocional. Mas entenda: domesticar é diferente de mestria. A mestria só se alcança quando o ser consegue vivenciar todas estas emoções sem alterar-se, sem sair de seu centro, sem desequilíbrio. Ao contrário de vocês, os Mestres mergulham em toda e qualquer emoção, mas nunca saem de seu estado de equilíbrio emocional. Aí está a diferença. E foi aí que erramos enquanto povo.

Meu mentor fez uma breve pausa e respirou fundo, olhando o horizonte.

– Este estágio na terceira dimensão deste planeta será muito importante para todos vocês. Nós, os mentores, apoiaremos a cada um de vocês, em silêncio. Erros serão cometidos, mas eles também serão benéficos. Através das experiências vividas, retornarão ao seio de Órion como mestres de suas próprias capacidades desenvolvidas. No cadinho do sofrimento, do amor, do ódio, da compaixão, da irmandade, ressuscitarão seus corpos emocionais enrijecidos no orgulho e aprenderão a lidar com as energias geradas por ele. Dominarão seus impulsos justiceiros e guerreiros, pois aprenderão que o déspota de hoje será, sem dúvida, o escravo de amanhã. A Lei do Carma que rege este orbe trabalhará a seu favor. E assim, ganhando num dia e perdendo em outro, chegarão ao estágio evolutivo que necessitam para voltar ao lar.

Neste momento, algo inusitado me ocorreu: eu estava tão preocupada com a experiência de descer à forma física naquele planeta que não me dei conta de que muitos anos, talvez milhares, se passariam antes que eu pudesse voltar ao meu planeta natal. Senti uma tristeza indescritível.

– Sim, filha, muito tempo passará. Mas o véu do esquecimento encobrirá suas lembranças enquanto estiverem mergulhados na matéria. Assim, sentirão uma saudade incompreensível de algo que não conseguirão definir, o que lhes servirá como mola propulsora para o avanço constante. Vigia e cuida para que as baixas paixões não ganhem terreno muito rapidamente, é só o que posso aconselhar-te.

E assim ele sumiu, da mesma maneira que aparecera. Não suportei: eu nunca havia chorado, a não ser enquanto criança, mas ali derramei grossas lágrimas, enquanto um arco-íris lindíssimo desenhou-se no horizonte. Fiquei ali por muito tempo, até que o entardecer pintou de tons alaranjados o céu. Voltei à nossa estação com o firme propósito de sair vencedora daquela missão.

(Me lembrei disto durante uma sessão de TRE, com o Dr. Osvaldo Shimoda, em 2005. Este mesmo Ser se apresentou como meu Mentor durante outras sessões, e aparece inclusive em meu livro. Quer ler? Compre aqui.)